866-O CASO DOS GÊMEOS SUSPEITOS

Mais um caso policial do Delegado Davanti

O Delegado Davanti após se desincumbir com êxito de diversas missões policiais especiais, havia retornado, por opção, à delegacia de sua terra natal, São Roque da Serra. Perspicaz e observador, resolvia com êxito todos os casos criminais que aparecia em sua delegacia, e por vezes, ajudava os outros delegados das cidades vizinha na solução dos mais intricados casos.

Muitas vezes, a técnica policial, as pistas e evidências não eram suficientes. Era aí que entrava o extraordinário conhecimento da natureza humana aliado a uma intuição sem par que Davanti deixava aflorar para chegar ao culpado ou à inocência do suspeito.

Foi numa dessas ajudas que Davanti revelou sue poder de observação na solução do caso dos gêmeos suspeitos.

O caso aconteceu na vizinha cidade de Ribeirão Vermelho. Josias Nascimento, pacato sitiante cuja propriedade ficava a cerca de cinco quilômetros da cidade, foi encontrado morto, boiando nas tranqüilas águas do Rio Tatupeba, evidentemente assassinado, pois no corpo havia sinais de esfaqueamento.

O delegado, um advogado Ronaldo Gomes, ainda jovem, no exercício do cargo há pouco tempo, ao perceber que o caso seria de difícil solução, telefonou ao seu colega Davanti.

— Estou precisando de sua ajuda. Um assassinato que vai ser difícil de deslindar.

Davanti, que tinha a máxima boa vontade, atendeu imediatamente ao apelo do colega. Em menos de uma hora chegou à delegacia de Ribeirão Vermelho, a tempo ainda de examinar o local onde o corpo fora encontrado, que nenhuma pista forneceu.

— O crime foi encontrado enganchado nos galhos desta árvore que tomba sobre o rio. Deve ter sido cometido mais para cima, pois não descobri nenhuma pegada, sinal de sangue ou luta nos 200 metros acima.

— Algum suspeito.

— Nenhum, por enquanto. A vítima era um homem pacato, cuidava do seu sítio sozinho. Morava naquela casinha que se vê daqui, ali em cima — apontou o delegado Ronaldo — com a mulher e o filho de oito anos.

Assim que a notícia do assassinato correu pela cidade, uma comoção tomou conta dos moradores.

— Avise os moradores da cidade e os vizinhos do assassinado, que precisamos de informações. Investigue qualquer informação, qualquer pista. — Aconselhou Davanti ao colega Ronaldo Gomes.

Davanti permaneceu aquela tarde e retornou à noite à São Roque da Serra. Voltou três dias depois, para saber como iam as investigações.

— Temos uma testemunha que presenciou o fato. Mas o homem está com medo de falar o que viu, principalmente, quem esfaqueava o sitiante.

— Mande chamar esta testemunha. — Pediu Davanti.

Logo trouxeram um rapaz, identificado como Marcelo das Dores, também sitiante, vizinho do assassinado.

— Sim, eu vi os dois homens lutando na beira do rio, uns dois quilômetros acima de onde encontraram Josias morto.

— Reconheceu os dois homens?

— Sim. Estava clareando o dia, o sol já estava quente, e dava prá ver tudo. Quando percebi os dois homens lutando, agachei atrás de uma moita e fiquei vendo. Josias caiu e o outro homem esfaqueou ele muitas vezes.

— Quem era o outro homem, o que esfaqueou? — Perguntou Davanti.

— Tenho medo de falar. Eles pode me matar.

— Eles? Mas o esfaqueador era um?

— É, mas não sei qual dois gêmeos tava lá, matando Josias.

— Gêmeos?

— É. Eu vi um dois irmãos gêmeos. Num sei se era o Zeca ou o Dito da Conceição. E tenho medo de falar, porque os dois vão me matar, se eu falar que foi um deles. Agora que já falei, vou ter de mi esconder.

O delegado Gomes esclareceu a Davanti:

— São dois gêmeos idênticos, Zeca e Dito da Conceição. Truculentos. Brigões. Não trabalham mas têm sempre dinheiro prá beber á larga.Aprontam confusões por onde passam. Já estiveram detidos por provocarem arruaças nos bares da cidade.

— Prenda os dois. — disse Davanti.

— Os... dois? — Gomes titubeou.

— Sim. Prenda os dois. Mantenha os dois presos durante trinta dias.

— Mas... – ia dizendo Gomes.

— Mantenha-os em celas separadas, sem que possam se comunicar.

— Mas sob que pretexto?

— Averiguações. Nem precisa dizer que estão sob suspeita. Dê-lhes comida farta e boa. Tudo o que quiserem comer.

— E as investigações? Devo prosseguir? — Indagou o delegado Gomes.

— Se quiser, vá preenchendo o processo com depoimentos sobre os precedentes do assassinado, se havia algum motivo para o crime, essas coisas. Daqui um mês, se nada importante aparecer, volto para ver os suspeitos.

Passadas duas semanas, Davanti telefona ao colega Gomes:

— Então, como estão as coisas por aí? Algum deles já confessou o crime?

— Continuam negando. Mas estão achando até bom a fartura de comida boa que mando trazer da pensão de Dona Risoleta, a melhor da cidade.

— Não se preocupe, Gomes. Mas, e o inquérito: algum avanço?

— O sitiante Josias teve uma rixa ou pendência de terras com o Coronel Aluvião. Parece que o coronel andava de olho nas terras de Jonas, que tem boas aguadas. Ele seria o primeiro interessado na morte do Josias.

— É uma pista. Vai seguido, enquanto um dos gêmeos não confessa. Mas tenho certeza de que daqui quinze dias a verdade aparecerá.

Gomes nada disse, mas não via como Davanti pensava achar a resposta para o mistério.

Enfim, passadas mais duas semanas, Davanti retornou à Ribeirão Vermelho. Após os cumprimentos, foi, com Gomes, ver os dois irmãos presos, cada qual em sua cela.

Examinou detidamente cada, conversou com eles e voltaram à sala do chefe da delegacia.

— Você notou alguma coisa nos dois, alguma diferença? — Perguntou Davanti.

— Como assim? Os dois estão igualmente revoltados por estarem presos sem uma acusação e reclamam muitas vezes ao dia. No mais, não vi nada além disto.

— Notou se eles perderam peso, ficaram mais magros, devido ao confinamento?

— Não, peso eles não perderam. Mas acho que o que está na cela dos fundos, o Zeca, está até mais gordo. Parece que a cadeia ate lhe fez bem.

— Engordou muito?

— Olha, Davanti, agora que você me perguntou, é que despertou minha atenção. Ele engordou bastante, sim.

— Pois então! Encontramos o inocente. E, por dedução, achamos o culpado.

— Mas como? Que tem uma coisa a ver com a outra?

— Meu caro, pura observação e conclusão, aliadas à sabedoria popular.

— Não atino com...

— Elementar. Você nunca ouviu o ditado popular “O Que não mata engorda”?

— Sim, conheço este ditado. E o que te a ver com nosso caso?

— Pode soltar o Zeca, o que engordou. E esprema o irmão, o Dito, não é esse o nome? Ele vai acabar confessando quando ver que você sabe que ele é o assassino.

Davanti não ficou para saber do resultado das providências que aconselhara ao colega. Daí três dias recebeu um telefone do Delegado Gomes:

— Você estava certo, Davanti. O culpado é mesmo o Dito. Quando viu que a confusão de identidades já não adiantava nada, acabou confessando. Matou o sitiante que mal conhecia, por dinheiro.

— Deixe-me adivinhar o final: o mandante é o coronel Aluvião.

A resposta veio na forma coloquial de policiais:

— Acertou na mosca!

ANTONIO ROQUE GOBBO

Belo Horizonte, 7 de novembro de 2014.

Conto # 866 da Série 1OOO Histórias

Antonio Roque Gobbo
Enviado por Antonio Roque Gobbo em 01/09/2015
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