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NEGUINHA

“NEGUINHA” – Conto.

     Devia ter uns 22 para 23 anos. Quando a conheci estava “puxando cadeia” acusada de furto . Não houvera prisão em flagrante, mas mesmo assim ela estava ali no Presídio Feminino.

     Foi bem no início dos anos 70. O país vivia os anos de exceção do golpe de 64, o “pra frente Brasil“ do Governo Médici. Vivenciava-se um momento e um clima  muito pesado. Não obstante a euforia do povo devido à conquista do tri- campeonato mundial de futebol, o ar que se respirava era rarefeito. Era o auge da repressão,  mormente numa cidade portuária como Santos/SP, área de segurança nacional que também compreendia o pólo petroquímico de Cubatão.

     A Neguinha, no entanto, não era presa política.Muito ao contrário, o único ato de subversão a ordem que cometera fora o furto de um relógio pertencente a um “cliente norueguês”, tripulante de um navio que fizera escala no porto. O moço partira sem o relógio e com alguns dólares a menos após ter desfrutado dos  encantos de sua companhia em breve “programa amoroso”.

     As prostitutas que freqüentavam a chamada “ Boca” no centro da cidade, cuja vida noturna era intensa com boates e bares abertos a noite toda, tinham preferência pelos tripulantes de navios estrangeiros (noruegueses, dinamarqueses etc.) que pagavam os “michês”  em dólares. Boa parte delas tinha noções de inglês e, algumas entendiam e se comunicavam em  norueguês. Era o caso da Neguinha.

     Entrevistei-a precariamente numa ocasião em que visitava a Cadeia Feminina em Cubatão/SP, como parte do estágio da cadeira de Processo Penal da Faculdade Católica de Direito de Santos. Relatou-me seu drama, sua “injusta” prisão, já que negava ter “aliviado o bobo”  (furtado o relógio) do gringo.  Fiquei de estudar seu caso e acabei por impetrar um “Hábeas-Corpus”, remédio jurídico recomendado para esses casos.Nunca mais tive contato com “a minha cliente “, nem soube do destino dado à medida judicial.

     Certa noite, anos mais tarde , já formado e trabalhando numa empresa pública,  passava numa das ruas do Centro, quando ouvi  alguém me chamar de” doutor “. Ao virar-me deparei-me com uma moça loira, alta, vistosa, mas com toda pinta de prostituta. Sorriu-me e perguntou se eu me lembrava dela. Seu nome era Dóris. Estivera presa na Cadeia Feminina na época em que realizei meu estágio . Lembrei-me vagamente, pois estava “muito produzida” em  comparação com a detenta que havia conhecido.Além disso, alguns anos haviam se passado...
     
     Depois de breve conversa, disse que a sua intenção era me passar um recado da  parte da Neguinha, que estava muito agradecida pelo favor que lhe fizera, já que a medida que eu impetrara em seu nome, obtivera êxito e ela fora solta pouco tempo depois.Que ela (Neguinha) na ocasião, quis me agradecer pessoalmente, todavia não soube como me encontrar.

     Despediu-se polidamente, pediu permissão e me deu um beijo no rosto como sinal de admiração e respeito. Nunca mais a vi, nem soube dela... Nem da Neguinha...

Copyright © 2003 Emílio C.Alves.
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EMILIO CARLOS ALVES
Enviado por EMILIO CARLOS ALVES em 02/10/2005
Código do texto: T55608
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Sobre o autor
EMILIO CARLOS ALVES
Santos - São Paulo - Brasil, 69 anos
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