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Os Arquivos do Doutor Oswaldo - Arquivo 005: Passos à meia-noite

Ficar na casa de meus pais era bom. Eu podia pôr uma roupa bem folgada, me sentar na cadeira de balanço e ler todos aqueles periódicos médicos que não tenho tempo de ler quando trabalho. Dava para me sentir como na época em que era um adolescente grisalho e bonachão, estudando igual a um louco (hum... comparação ruim para um psiquiatra...) para o vestibular.

Era o que estava fazendo quando meu pai saiu discretamente de casa e veio me procurar, na varanda. Isso era um evento espantosamente raro: posso ser o filho “CDF que passou na Medicina de primeira”, mas definitivamente não sou seu favorito. Esse é o cargo do Rogério. O pai jamais perdoou esse humilde primogênito por ter se especializado em psiquiatria e não em geriatria ou algo assim mais útil. Muito menos por eu andar sempre com um pincenê do meu avô, cultivar suíças e usar chapéu. Tenho que admitir que sou um pouco teatral, um pouco mais do que um homem idoso do interior de Minas poderia perdoar.

Ninguém consegue imaginar, então, minha surpresa quando o “velho” se aproximou de mim e me convidou para ir com ele ao barzinho. Sou abstêmio, não gosto de futebol e não tenho ânimo para ficar falando mal do Governo até quando este acerta em alguma coisa. Portanto, sou uma vergonha para ele em termos de masculinidade. Se o pai estava me chamando para ir ao bar, algo de extraordinário devia estar acontecendo.

Sim... Sou abominavelmente curioso. Logo estava pronto. Realmente, o acontecimento devia ser da máxima gravidade, já que o homem nem sequer comentou nada sobre o pincenê. A curiosidade atingia níveis cada vez mais insuportáveis.



Ficamos no bar por vários minutos, mas meu pai resumiu-se a pedir uma cervejinha e a batucar impacientemente no balcão. Como o conheço bem, não foi difícil deduzir o que ele queria: estava ansioso para me apresentar um cliente. E, para que isso acontecesse, devia ser alguém SUMAMENTE importante.

Minhas suspeitas logo foram confirmadas. Um construtor aqui da cidade entrou e se sentou ao nosso lado. Ele e o pai foram amigos do peito antes que o homem enriquecesse muito e passasse a conviver em uma esfera social diferente.

Começaram falando dos velhos tempos. Parecia óbvio que o homem estava explodindo de ansiedade, mas não queria falar com o garçom espreitando. Fez o supremo esforço de pedir uma cervejinha só para disfarçar e, mal o garçom se retirou para atender, comentou:

_Ozzy, meu filho, a última vez que o vi você era desse tamanhozinho _indicou um tamanho impossível para um bebê. _Agora, já está aí formado, doutorado feito, famoso...

Fiz um gesto neutro que podia passar por modéstia, mas era apenas meu desagrado por encararem esses fatores como indicativos de sucesso.

 _... Será que não poderia passar lá em casa um pouco? A Kátia também deve estar querendo ver como você está. E se você puder passar os olhos na Camila...

Logo vi. Ricos tendem a ser sovinas, principalmente quando já foram pobres. Camila... Evocava-me boas lembranças. Beberam as cervejas em tempo recorde e fomos caminhando para a casa dele.



Era uma bela casa, fortemente murada. Ficava em uma esquina. À frente, tinha uma rua moderadamente movimentada. Em um dos lados, uma ruazinha sem saída que só comportava os fundos de outras casas. Do outro, uma casa mais modesta e, aos fundos, um barranco. Singularmente isolada, eu diria.

Por dentro, era bonita, pelo menos para mim, que não sou arquiteto. Tinha dois andares. Do lado que dava para a ruela, todas as janelas eram iguais, exceto uma, do segundo andar, que era a porta de uma sacada. Pelas cortinas rosa, deduzi ser o quarto de Camila.

D. Kátia veio lá de dentro e nos cumprimentou espalhafatosamente, talvez porque havia gente olhando, da rua. Bastou que entrássemos, entretanto, para aquela aura de jovialidade se desfazer completamente.

_Ah, doutor... Não sei o que fazer... Não sei em que pensar... A Camila, nossa filha, é uma pessoa sempre tão feliz, tão satisfeita... Está sempre muito bonita, de namorado novo... O antigo dela morreu, um rapaz muito bom... Talvez seja por isso que tudo começou, embora ela não pareça ter sofrido na época...

_Calma, minha senhora _segurei suas mãos de maneira compreensiva. Pareceu-me que não extrairia nada de concreto dela enquanto estivesse naquele estado de nervos. _Calma. O que aconteceu com sua filha?

_Ela tentou se matar! _alteou ligeiramente a voz. _Duas vezes! Só que foi enquanto estava dormindo, o senhor entende? Quando está acordada, ela é a pessoa mais normal do mundo, como sempre! Mas, quando dorme... Não é todo dia... Começou semana passada, quando ouvi alguém batendo na porta do quarto. Quando atendi, não tinha ninguém. Pensei que fosse coisa da Camilinha, mas, quando entrei no quarto dela, lá estava a garota no beiral da sacada! Ela ia pular! Gritei e ela me olhou muito assustada. Depois, confessou que não sabia como tinha parado ali. A mesmíssima coisa aconteceu ontem. Só que, quando entrei no quarto e a tirei do beiral, ela se soltou de mim, pegou uma pistola e tentou atirar na própria cabeça.

Interrompeu-se e me olhou, com um olhar implorante.

_Acho que entendi muito bem, obrigado. O que acha, Sr. Afonso?

_O que acho? _o homem ficou cor de cerâmica. _Eu só tenho medo que seja... Bem, não sei... Você sabe, né, que nessa idade, os jovens adoram experimentar... Coisas diferentes...

_Drogas? _perguntei e ele recaiu na defensiva. _Isso é fácil verificar. Basta um exame rápido. Em tempo, onde ela pode ter conseguido o revólver?

_É do Afonso _D. Kátia disse, lançando a ele um olhar de reprovação.

O homem corou ainda mais. Peguei a arma e fiz um exame rápido. Totalmente carregada.

_Onde sua filha está? _perguntei.

_Lá em cima... _ela mordeu os lábios e estremeceu. _Dormindo... _a voz quase sumiu.

Subi com ela. Quando abrimos a porta, uma cena perturbadora estava nos esperando. Uma bela adolescente estava sentada na cama, com um olhar parado, e tentava acertar a própria boca com um copo, sem sucesso. A mãe gritou e a menina afastou o copo por um instante. A distância era segura e o instante foi o suficiente.

BANG!

O copo se espatifou na mão da garota. Ela soltou um grito estranho, largou o que restou do objeto e foi em direção à sacada, sem tirar os olhos parados de nós. Apontei o revólver para ela.

_Volte para cá e sente-se _disse-lhe, brandamente. _Ninguém aqui quer seu mal, mas você tem que parar com esse negócio de se matar.

Ela fez menção de subir no peitoril. Engatilhei a arma. Ela desmaiou.

O pai dela e eu a colocamos na cama. Todos me olhavam horrorizados. Era tão evidente o pensamento deles, que não me fiz de rogado. Peguei um frasco na cabeceira de Camila.

_Diazepam. Está quase vazio. Presumi que fosse o que está turvando a água do copo. Se ela bebesse, dificilmente a salvaríamos. Um raspão de bala me pareceu muito menos prejudicial. De qualquer forma, faço parte de um clube de tiro. Tenho boa pontaria e, se repararem, ela apenas se cortou um pouco por causa do vidro.

Ainda estavam com um ar escandalizado e pude ver, nos olhos do casal, que não estavam certos se me chamar tinha sido uma boa idéia.

_Quando ela acordar _expliquei _quero falar com ela a sós. É provável que ela não se lembre do que estava fazendo. Mas preciso sondá-la, se é que me entendem. Tirem daqui esse revólver e esse copo quebrado, e rápido. Esse tipo de desmaio costuma ser breve.

Fiz tudo aquilo que achei conveniente para reanimá-la. Os outros deixaram o quarto, levando, na medida do possível, os resquícios do pequeno drama. Fui até a sacada e respirei fundo. Tinha uma bela visão: abaixo, um pequeno caminho e uma faixa de terra cheia de flores, no canto do muro, além de uma magnífica árvore que crescia na rua e estendia seus galhos até bem perto da sacada, sombreando tudo por baixo. Claro que esses galhos não eram suficientemente fortes para que alguém entrasse na casa escalando-os, e uma cerca elétrica dificultava enormemente as coisas. Seria uma pena se cenário tão pitoresco se tornasse cenário de uma tragédia.

Por outro lado, considerei, a altura não era tão grande. A menos que ela caísse de cabeça e fraturasse o pescoço, o máximo que aconteceria seria fraturar os braços, as pernas e algumas costelas. Não que fosse de todo mau. Ela ficaria imobilizada por uns tempos.

Sacudi a cabeça. Vez por outra me acudiam esses pensamentos sádicos. “Pensamentos vampirescos”, me diria uma amiga. Jamais entendi completamente o significado do adjetivo. É verdade que há uma boa dose de sadismo no culto que fazem aos vampiros, mas essa não é uma característica inequivocamente atribuída a eles.

Ora, esse não é um ensaio sobre a adequação ou não de adjetivos, é um relato de meus casos passados. Vampirescos ou não, é melhor deixar meus pensamentos de lado e voltar ao "métier" da coisa.

Camila moveu-se ligeiramente em sua cama e sentei-me na beirada, esperando que abrisse os olhos. Isso aconteceu logo. Ela mostrou-se surpresa com minha presença e balbuciou um “quem é você?”.

_Sou seu médico, querida. Você teve um pequeno desmaio e estou cuidando de você. Meu nome é Oswaldo. Como está se sentindo?



Não creio que será útil descrever minha conversa com a moça. Conversamos trivialidades, perguntei muito sobre a escola, os amigos, o namorado, os pais... Ela levava uma vida muito normal, como a de centenas de outras moças. Isto é, esforçava-se para tirar boas notas, mas não gostava muito de estudar, saía muito para as “baladas”, gostava do namorado, achava que os pais eram uns chatos... Falou com ternura no namorado morto, mas disse que já tinha dado a volta por cima, não valia a pena ficar remoendo o passado.

Perguntei sobre seu sono, se estava bem. Ela contou sobre pesadelos que tinha ao dormir. Sonhava que mãos a agarravam ou a obrigavam a beber alguma coisa ou outra coisa desagradável qualquer. Pelo que falou, não tinha a menor consciência das crises.

Examinei os olhos dela, tomei seu pulso e espiei furtivamente a parte interna de seus braços. Fiquei satisfeito.



_Ela não usa drogas, isso posso lhes assegurar _disse eu, ao Sr. Afonso e à D. Kátia. _E não me parece mentalmente perturbada. Naturalmente, terei que manter conversas mais longas com ela para fazer uma sondagem mais completa. Por ora, vou receitar um sonífero fraco para que ela tome antes de dormir, talvez assim, mais relaxada, ela não tenha novas crises. Escreverei a receita lá em casa e mandarei por um motoboy para vocês.

“Virei daqui a um ou dois dias. Estejam atentos: se acontecer novamente uma crise, chamem-me não importa qual seja a hora. Hora do almoço, de madrugada, qualquer hora.”

Apesar de alguma desconfiança a respeito de mim e de meus métodos ainda ser visível, reparei que estavam mais aliviados. Uma pena que, provavelmente, não gostariam do desfecho do caso. Comecei a repassar mentalmente o nome de alguns bons terapeutas familiares.



_Alô? Doutor? Uma nova crise, rápido!

Meus tímpanos quase estouraram. O celular poderia estar na esquina que eu ouviria perfeitamente. Resignado, esperei o momento propício e me encaminhei para a casa. Torci para que minha voz nada sonolenta e a pequena discrepância de tempo em minha chegada à casa passassem despercebidas. Felizmente, o estado do casal era tão lastimável que não prestaram atenção a nada.

A menina estava na cama, aparentemente desmaiada. Dessa vez, estava com minha maleta e pude lançar mãos de meios mais efetivos de acordá-la. Peguei o frasco do sonífero que receitei, à cabeceira e abri. Como suspeitei. Olhei severamente para a moça.

_Não era para ter essa quantidade de comprimidos aqui depois de uma semana, mocinha. Você andou se esquecendo de tomar.

Ela admitiu, muito envergonhada. Soltei uma série de muxoxos e retirei um novo frasco da maleta.

_Esse aqui é mais forte, por isso, deve ser tomado em duas doses. Vou entregar para a sua mãe, para ela garantir que você tome. É muito importante para você que nenhuma dose seja esquecida, ouviu?

Estudei bem o olhar dela e a contrariedade que aquela idéia causava. Sorri. Aqueles comprimidos seriam meu trunfo.

Antes de sair, D. Kátia me relatou mais calmamente a situação. O fato de eu ter lhe dado o controle da medicação da filha fez com que ela deixasse de ter qualquer prevenção comigo.

Parece que ouvira novamente aqueles passos e batidas em sua porta e, como sempre, ao entrar no quarto de Camila ela estava na sacada, quase se jogando.

_Só uma coisa, minha senhora. Peço que seja bem precisa. Você se levantou assim que ouviu as batidas?

_Na mesma hora! Elas são como um anúncio de desgraça, doutor! Mal ouvi a segunda batida, já estava de pé.

_Ouviu os passos se afastando?

Ela pensou bem e balançou a cabeça.

_Nenhunzinho.

_Nem um ruído de porta se fechando?

_Nenhum barulho. Mas, sabe, eu não estava preocupada com isso, só com a Camilinha.

_Claro, claro. E ela estava na beirada da sacada, mesmo? Não se encaminhando para lá, talvez?

_Não. Estava em pezinha no beiral.

Torci o nariz. Malditos passos! Ainda teria uma chance de esclarecê-los e apenas uma. Tudo dependia de meus comprimidos, e de minha jovem paciente.



Uma semana. Sorri. O celular tocava, e eu sabia que D. Kátia anunciaria para todos num raio de 1 km dele que a filha tivera uma crise. Dessa vez, pensei, era melhor exercitar meu lado cirurgião e realizar uma intervenção rápida, eliminando o mal pela raiz.

_Escute aqui, minha prezada senhora _disse eu, com o máximo de autoridade que pude colocar na voz _temos algo grave a conversar. Deixe seu marido cuidando de sua filha e certifique-se que ela não deixe o leito sob nenhuma circunstância. Estou à porta de sua casa. Pode vir abrir.

Receio que a tenha assustado muito naquela ocasião, mas era o jeito. Quando a porta foi aberta, tomei as mãos dela nas minhas e a fiz sentar. Quanto antes terminasse aquilo, melhor.

_Dona Kátia _eu disse, sério. _A senhora precisa ser forte.

_Ai, minha Nossa Senhora! O que foi, doutor?

_A polícia está ali fora. Prenderam o namorado da sua filha. _A senhora empalideceu. Preparei a rajada final, sem tréguas ou piedade: _Ele estava agarrado à árvore, atirando pacotes de cocaína para a Camila vender na escola.


***


Não sei se resta muito a explicar. Não é de hoje que garotas fingem que irão se suicidar para conseguir a atenção dos pais, e foi o que achei que estava acontecendo, desde que soube das tais batidas à porta do casal. Para testar a teoria, afastei qualquer dúvida sobre a sanidade mental de Camila e passei o calmante. Com meu binóculo de visão noturna (presente de um antigo paciente, se vocês se lembram), vigiei o quarto dela todas as noites. Eu sabia que a garota não tomaria o calmante e arquitetaria novas crises, para chamar mais a atenção.

Pelo menos, foi o que pensei até flagrar o momento em que o rapaz subia na árvore e atirava pacotinhos brancos para Camila. O lugar era perfeito: pouco movimentado, nenhuma frente de casa... Tão logo a menina escondeu a droga, as luzes do quarto se acenderam e ela representou sua comédia.

E eu representei a minha, é claro. Esperei um pouco para que não desconfiassem que eu andava por perto, fingi que acreditava na inconsciência da garota e entreguei para a mãe dela comprimidos de farinha. Eu precisava fingir que estava fazendo alguma coisa e precisava deixar a garota livre para pegar o namorado em flagrante.

Uma conversa com meu amigo do Departamento de Narcóticos resolveu o que faltava.

Minha única insatisfação com o caso, até hoje, é que jamais pude explicar os passos e batidas à porta de D. Kátia. Camila as negou até o fim. Talvez fosse aquela maravilhosa intuição das mães assumindo formas desconhecidas. Talvez fosse a alma do namorado morto. Talvez fosse algo completamente diferente. Creio que não virei a saber.

Clarice está sobre meu ombro e comenta que não revelei o principal, isto é, o que me fez desconfiar que a garota não tinha nenhum problema de saúde.

É difícil dizer. Levei mais de dez anos desenvolvendo meu “olho clínico”, uma capacidade de observação que me permite classificar as pessoas entre sãs e doentes, mentalmente falando, com boa faixa de acerto. As atitudes de Camila, os desmaios evidentemente falsos, o sonambulismo descaradamente fingido... Dava para desconfiar!

Mas, se isso não convencer os mais rigorosos, bem... A garota se dizia suicida, mas não saltou da sacada quando a ameacei com o revólver. As pessoas cometem esse tipo de erro quando têm um objeto que estava em suas mãos esmigalhado por uma bala.

Droga. Pensamentos vampirescos de novo.
Strix Van Allen
Enviado por Strix Van Allen em 25/10/2007
Código do texto: T709928
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Sobre a autora
Strix Van Allen
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 29 anos
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Strix Van Allen