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2-4-0: Assassinato, traição e chantagem (parte 11- Final)

           Duas semanas depois.
           
           Chegou o dia do julgamento final de João Paulo. O Tribunal do Júri estava lotado de espectadores que queriam ver o assassino ser condenado, queriam ver a justiça ser feita e assistirem a mais uma brilhante acusação da conhecida promotora. Os jurados estavam todos devidamente assentados em seus lugares, o juiz entrou na sala e ordenou que se fizesse silêncio no tribunal. O Ministério Público representado pela Promotora Janice e assistida pelo Promotor de Justiça Silvio e a defesa do cliente representada pelo Dr. Júlio, advogado do réu, estavam prontos para começar. Instaurada a ordem o magistrado mandou vir o réu, falou sobre o direito de ficar calado durante a audiência e só responder o que quiser, pediu uma declaração do assassino sobre os crimes, mas o réu nada quis falar.
            - Tudo bem. Por favor, queira a acusação começar – disse o juiz.
            Janice aproximou-se dos jurados.
            - Senhores, senhoras, vocês podem ver o réu daqui. Eu tenho perguntas e quero saber se vocês sabem as respostas. Não sei se vocês sabem, mas o réu herdou uma grande fortuna após a morte de seu pai e a primeira pergunta é: Que motivos teria alguém como João Paulo para cometer crimes? Ele precisava cometê-los? Certamente não. Outra coisa, ele assassinava pessoas que haviam cometido adultério, na verdade homens que cometiam adultério, que nem é mais considerado crime pelo nosso ordenamento jurídico. Então senhores, tendo o réu assassinado pessoas por um motivo torpe, e sequer os motivos tinham a ver com ele, pois o mesmo não era vítima dos referidos adultérios. Só é possível concluir que os motivos dele eram absolutamente torpes, não faziam sentido a não ser para o próprio réu.
            A promotora dirigiu-se ao réu.
            - Vamos Sr. João Paulo, você tem a chance de se explicar para os presentes por que e como realizava os crimes.
            O réu preferiu ficar calado.
            - Dr. Júlio, faça a defesa do seu cliente – ordenou o magistrado
            - Excelência, já disse o que tinha que dizer na primeira audiência e continuo sustentando. Meu cliente sofre de insanidade mental, não entendo o caráter criminoso dos fatos, eu tenho aqui como prova um laudo médico...
            - Protesto – disse a promotora no meio da defesa.
            - Negado – disse o juiz.
            - Como eu dizia, tenho aqui um laudo médico que comprova o meu argumento – continuou o advogado.
            - Meritíssimo – disse Janice – esse documento não tem validade, é falsificado.
            - Está atrapalhando a defesa promotora – alertou o magistrado. Tem tanta certeza assim do que está afirmando?
            - Absoluta – respondeu a promotora.
            - Prossiga – disse Plínio, esse era o nome do juiz.
            - Mas... – reclamou Dr. Júlio.
            - Eu conheço a pessoa que forneceu o laudo ao defensor do réu, ele era meu amigo.
            - Seu amigo forneceu um laudo falso ao advogado do réu? Como assim? Perguntou curioso o juiz.
            - Ela usou um amigo para investigar a vida do meu cliente – interrompeu o defensor.
            - Essa é a verdade promotora? Perguntou Plínio.
            - É sim.
            - Como ela fez Dr. Júlio?
            - O tal amigo dela se fez passar por filho do amigo do pai do réu, disse que devia um favor ao meu cliente e que queria me ajudar, com isso ele conseguiu vários dados do meu cliente e investigou toda a vida dele. Ele me enganou para tentar me prejudicar no processo, estava a serviço da promotora.
            - Doutora Janice, sabe que a senhora não foi muito ética nessa atitude não é?
            - Às vezes precisamos passar por cima da ética para fazer a justiça.
            - Eu estranho ouvir isso de uma profissional íntegra como você.
            - Pergunte ao Dr. Júlio o que aconteceu com o sujeito.
            - Dr.Júlio? Pode responder a pergunta?
            - Ele está morto Meritíssimo.
            - Como?
            - Eles o assassinaram – respondeu a promotora – e não é apenas isso Excelência, também causaram um acidente de carro de outro amigo meu além de voltarem a atenção para os meus filhos, colocando um homem para os observarem.
            - Seus filhos também foram colocados em perigo? Perguntou o juiz.
            - Isso mesmo, nem meus filhos foram poupados.
            - Sabe o quão séria são as conseqüências dessas atitudes para o processo Dr. Júlio?
            - Considero que seja uma pequena vingança pelo que ela fez ao meu cliente.
            - Mas eu não matei ninguém fazendo isso.
            - Mesmo? Quer dizer que não mandou seu amigo para a morte pagando a ele para executar o serviço?
            - Chega! Ordem no tribunal! Na próxima vez eu multarei os dois. Prossiga Dr. Júlio.
            - Senhores jurados, olhem bem para o meu cliente, ele sofreu a vida inteira por não conseguir diferenciar o certo e o errado, sofre de insanidade mental, aqui está o laudo médico que comprova minha alegação...
            - Eu já disse que o laudo é falsificado – gritou a promotora, levantando de sua cadeira.
            - Promotora. Quer que se repita de novo tudo que aconteceu com você? Perguntou o advogado do réu.
            - Silêncio – berrou o juiz e mandou a promotora e o advogado se aproximarem.
            - Vocês sabem que a autotutela é proibida por lei. Nada será resolvido em outro lugar que não seja esse tribunal.
            O juiz fez uma pausa para o almoço.
            A promotora e o chefe foram almoçar juntos.
            - Não estou reconhecendo você, não é de se descontrolar assim, nunca fez isso.
            - Aquele advogado está me provocando, eu ainda me esforço para não bater nele.
            - Procure relaxar nesse pouco tempo que temos. Volte a ser a brilhante acusadora que eu conheço e admiro tanto como profissional.
            - Voltarei a ser, prometo.
            Após o almoço todos voltaram para o tribunal e Plínio, o juiz, recomeçou a audiência. Não havia testemunhas no processo, ninguém viu ou ouvir qualquer coisa nas noites dos crimes.
            - Promotora, é a sua vez.
            - Dr. Júlio, não é estranho você alegar insanidade mental de seu cliente, mas nem cogitar em trazer um psicólogo para sustentar seus argumentos? Onde está a testemunha que mais deveria te ajudar na defesa?
            - Ele me pediu para não testemunhar, não se sente a vontade no tribunal.
            - Vejam jurados, o próprio representante do cliente concordou que único que pode provar seus argumentos não testemunhasse a seu favor. Isso me leva a afirmar a invalidade do documento apresentado como eu já havia dito antes. Os argumentos apresentados pela defesa não têm uma base sólida. Se eu fosse o réu nunca confiaria nele para defender a minha liberdade. Percebam senhores jurados, não existe qualquer doença mental no réu, os assassinatos não têm qualquer fundamento. O laudo apresentado não é verdadeiro, pois como eu já disse, sei até quem o deu a ele.
            - Pensa que eu sou ingênuo doutora? Acha que eu ia usar laudo que seu amigo me deu? Não consigo acreditar que tenha pensado isso.
            - Chega Júlio – disse de repente o réu e todo mundo voltou as atenções para ele.
            - Silêncio, não é sua hora de falar – ordenou o juiz.
            - Calma vossa excelência, deixe-me falar algumas coisas.
            O magistrado nada disse.
            - Júlio, chega dessa brincadeira, você perdeu. Acha que eu me senti bem ouvindo você me chamar de débil mental? Senti-me um idiota, cansei de você, não quero mais que me defenda.
            - Mas senhor, foi você quem disse para fazer de tudo no caso.
            - Desconsidere o que eu disse anteriormente, não é mais meu advogado. Aliás, eu só te contratei como meu advogado em consideração ao seu pai, que era grande amigo da minha mãe, mas você passou dos limites, foi capaz de mandar matar uma pessoa, tentou matar outra, quis colocar em risco a vida dos filhos da promotora. Você me aconselhou a chantagear a acusadora para que ela desistisse do processo, pois já sabia que iria perder. Chega de enganar a todos doutorzinho.
            - Se o senhor está decidido a me demitir por que me contratou? Vai desistir de tudo agora?
            - Saia logo daqui – ordenou o réu.
            - Assassino – gritou o advogado.
            - Conte-me algo que eu ainda não sei. Não ligo para a pena que me for aplicada, só fiz minha vingança contra certas pessoas que não honram suas vidas.
            Após essa última frase o réu desferiu um soco contra o rosto do advogado, os oficiais de justiça detiveram João Paulo na hora.
            - Ordem no tribunal, chega de desordem – berrou o juiz batendo com o martelo na mesa. Prendam o réu e tirem o advogado desta sala.
            Após a confusão chegou a hora de os jurados votarem. Depois de terem visto tudo que acontecera ali condenaram por unanimidade o réu por homicídio. Algumas agravantes qualificaram o crime e aumentaram sua pena. O juiz leu a sentença, fixou a pena em sessenta e cinco anos de reclusão, em regime inicialmente fechado, dos quais o réu cumpriria trinta que era o máximo previsto na lei. O magistrado encerrou a sessão mandou que todos se retirassem.
           No fim deu tudo certo, o réu foi finalmente condenado e o advogado seria julgado pelos crimes que cometera, mas não pela promotora, pois ela se aposentaria de seu cargo para cuidar de seus filhos.
          - Excelente trabalho, promotora – disse Silvio.
          - Obrigada chefe.
          - Desculpe por duvidar de você.
          - Você estava certo o tempo todo, eu precisava descansar. Não se preocupe, esse foi meu último trabalho.
          - O quê?
          - É isso mesmo, estou deixando meu cargo. Eu sou apaixonada pelo que faço, mas tem duas crianças que são muito mais importantes na minha vida. Não quero mais colocar a minha família e meus amigos em perigo, especialmente após esse caso.
          - Mas onde vou arranjar um acusador tão bom quanto você?
          - Ora promotor, eu sei que vai aparecer por aí um gênio para ocupar meu cargo.
          - Então só posso dizer uma coisa: Foi um prazer trabalhar com você, promotora.
          - Igualmente, Dr. Promotor de Justiça.
           
          Janice voltou para casa, abraçou os filhos e disse que agora poderiam viajar para a casa da avó. Deu um beijo no marido.
         - Acabou finalmente acabou. Estamos fora de perigo.
         - Graças a deus, nosso pesadelo chegou ao fim.
         - Em troca disso eu abandonei meu cargo.
         - Como?
         - É isso mesmo, vocês são meu maior tesouro, não posso arriscar toda vez que for acusar alguém. Eu larguei uma paixão minha por uma paixão maior ainda, nada pode pagar o que vocês representam na minha vida, nada.

         Janice e a família viajaram para visitar a mãe dela em outra cidade. Após a visita eles deixaram as crianças com a avó e foram para o aeroporto.
         - O que é que você quer Marcos? Por que estamos indo para o aeroporto?
         - Abra o guarda-volumes do carro e veja.
         Janice assim o fez e para sua surpresa encontrou duas passagens para Paris.
         - Prepare-se, pois tenho outra surpresa.
         Janice olhou no de novo para o compartimento e viu um pacote e um guia da França.
         - Fiz reservas no Ritz para nós dois, vamos ficar uns dias na cidade e depois vamos viajar de trem pelo país.
         - Você planejou tudo? Perguntou Janice.
         - Tinha feito os planos para as suas férias forçadas, achei que três semanas na França te faria bem.
         - Eu te odeio sabia? Disse sarcasticamente a promotora.
         - Nós merecíamos isso, planejei tudo, falei com sua mãe para deixar as crianças lá.
         
         Durante o vôo Janice se perguntou se teria agido certo ao largar o emprego, mas concluiu que sim, nada podia ficar acima do valor da família e dos amigos. O seu valor de justiça teria que ficar abaixo de tudo isso.
 
         Durante um passeio por Paris Janice parou numa loja para comprar presentes para os filhos. Enquanto escolhia o que levar uma coisa lhe chamou a atenção. Na televisão era anunciada a notícia de um assassinato numa cidadezinha do interior da França, o mais curioso de tudo é o que foi encontrado, uma cruz desenhada à faca no peito da vítima e um papel com um número.

Tiago Gevaerd Farah
Farah
Enviado por Farah em 26/10/2007
Código do texto: T710847

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