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UM TIRO NO ESCURO
Victoria Magna
 
          Bartolomeu e Mariana tinham um filho criado com muito zelo e bem educado. Bom aluno, aplicado, moço simpático e atraente para as moças do bairro de classe média da cidade onde morava. O rapaz sempre fora brilhante nos estudos. Os pais tinham um grande orgulho dele. Era o “quindim” da turma local. Seu nome, escolhido pelos pais, era Felizardo, mas os mais íntimos, o chamavam de Feliz.
            Bartolomeu estava colocando dinheiro num cofre que era guardado atrás de um quadro com o retrato de seu casamento com Mariana. Ninguém sabia desse cofre. Bartolomeu não confiara a ninguém a existência desse cofre. Queria fazer uma surpresa para a família. Quando tivesse uma quantia vultosa, compraria uma casa para presentear ao seu único filho quando este se casasse.
            Neste dia, Feliz chegara à porta do escritório do pai que ficava ao lado do quarto dele, viu-o colocando umas notas no cofre. Surpreso com o fato, não fez nenhum ruído e saiu na ponta dos pés para não fazer barulho. Nada contou para os pais. Era um segredo que seu pai guardava, não queria se intrometer. Voltou para o seu quarto. Pensou: “ Porque papai nunca disse que tinha um cofre escondido em casa? Intrigado, mas ao mesmo tempo, satisfeito com a descoberta disse para si, ainda: “Deve ter uma boa grana ali. Que pai esperto eu tenho! Com um sorriso zombeteiro nos lábios, adormeceu.
            Felizardo, apesar de todos as qualidades descritas pelos pais e amigos,tinha um único vício: o jogo. Todo fim-de-semana entrava num bingo e jogava algum dinheiro que, ora ganhava, ora perdia, perdendo sempre mais do que ganhava nos caça-níqueis.
            Cansado do Bingo, aventurou-se a jogar num cassino clandestino que conhecera por intermédio de um colega, onde perdeu muito dinheiro, adquirindo uma grande dívida de jogo com dois parceiros com quem jogara até seu anel de brilhantes, presente de formatura que seus pai lhe deram.Na época, a dívida subia a mais de trinta mil cruzados (dinheiro da época), cujo pagamento só seria possível se retirasse o dinheiro da poupança que, infelizmente, estava preso pelo plano governamental que impedia as pessoas de fazer retiradas nas contas de poupança, o que, para muitos, foi uma catástrofe na economia. O plano só foi bom para quem tinha muito dinheiro acumulado em ações ou em contas correntes em bancos estrangeiros.
            Os credores estavam apertando o cerco. Não dava para esperar mais. Ou pagava ou iriam falar com seu pai para custear sua dívida, exigindo o pagamento delas em curto prazo. Ou, então, iriam à Justiça.
            Felizardo tremia de medo. Não queria que os pais soubessem desse vício que o envergonhava no íntimo de sua consciência. Muito menos, magoá-los!      Mas... os maus pensamentos chegam sempre quando o “azar” bate à porta.
            Feliz levantou cedo e na hora do café com os pais, dissera que gostaria de viajar, Aproveitar uns dias de férias e ir repousar numa fazenda do interior de Minas, pertencente ao pai de um colega do escritório de Administração, onde praticava como estagiário. Ficaria fora durante um mês. Os pais não se opuseram, para não desagradar o filho único, embora lhes custasse separar dele,mesmo por poucos dias. Felizardo merecia esse descanso, comentavam entre si. Talvez voltasse mais forte, mais sadio, mais corado e mais disposto após essas férias no campo.
            Passou-se uma semana.
            Uma noite, Bartolomeu levantou-se para ir ao banheiro e ouviu na sala um barulho de alguém mexendo na fechadura da porta da sala. Correu ao quarto e apanhou o seu revólver calibre 38, e sem acordar a mulher, foi silenciosamente para a sala, sem acender a luz. Estava preparado para o que der e vier.
            De repente, a porta se abre e um vulto encapuzado entrou. Bartolomeu não esperou. Atirou na direção do vulto, duas vezes. Este caiu no chão, dando um grito! Bartolomeu acendeu a luz e quando se voltou para ver o estranho que viera roubar a sua casa, compreendeu, horrorizado e aturdido, que o invasor era o seu próprio filho, Abaixou-se para socorrê-lo, mas, este, já estava sem vida. Seu último suspiro foi entrecortado pelas palavras: -- Perdoa, pai! 
-- Meu filho, meu filho! Meu Deus, o que foi que eu fiz? Gritava angustiado, Bartolomeu—Matei o meu próprio filho. Minha mãe do Céu e chorou como nunca. Mariana tendo acordado com os gritos, veio ver do que se tratava e ao ver a triste cena, teve um ataque e desmaiou. Bartolomeu só teve tempo de ampará-la e levá-la para o quarto, ainda desacordada. Arrumou-se depois  e foi à Delegacia próxima de sua residência e se entregou, aniquilado, ainda murmurando: Meu filho, meu filho...//
            Alguns dias se passaram, mas a dor ainda não superada, mesmo tendo Bartolomeu ficado livre deste crime que foi julgado como um engano, uma fatalidade, mais o apoio dos amigos e vizinhança que o defenderam prontamente. Bartolomeu era um homem bom, ótimo vizinho, prestativo,jamais faria isso com seu próprio filho que era seu maior orgulho na vida.
            O tempo passou, não curou as dores dos pais, apenas amenizou-as.
            Uma noite, Bartolomeu acordou com um ruído na sala. Parecia que uma rajada de vento entrara e batera as janelas. Bartolomeu não acendeu a luz, havia uma penumbra cortada pela luz do luar que entrava pela vidraça da janela. Não temia mais os ladrões.
            Uma luz foi-se formando e crescendo. Bartolomeu petrificado perguntou:
-- És tu, meu filho? Estás vivo? Como pode ser?
-- Não, meu pai, estou vivo sim, mas em outro plano. Vim aqui para te pedir perdão.
--Não, meu filho! Eu é que devo te pedir perdão de joelhos pelo mal que te fiz. Tirei a vida que eu e tua mãe te demos e eu a cortei na raiz da tua plena juventude! Não mereço teu perdão!
-- Espere, pai! Tenho que confessar-te um segredo meu. Aquela noite que entrei nesta casa, sorrateiramente, eu vinha com o intuito de roubar a fortuna que amealhastes com teu sacrifício.
-- Que fortuna, meu filho/
-- Essa que tens no cofre atrás do quadro, no teu escritório.
-- Sabias, então? Perguntou, atordoado, Bartolomeu.
-- Sim, pai , eu contraí muitas dívidas de jogo. Não fui aquele filho tão perfeito, assim, como todos me julgavam.
-- E porque não me falastes disso, filho? Eu te ajudaria a pagar as dívidas. Porque não me contastes esse teu dilema?
-- Não queria magoar-te nem à mamãe. Seria um golpe para ela.
-- Mas pior foi este golpe que te dei. Ela nunca me perdoou. Vivemos como dois estranhos nesta casa.
-- Conte para ela que estive aqui e tudo que te confessei. Ela saberá entender
um dia, quem sabe?  Ainda nos encontraremos novamente em outro lugar.
Vivam as suas vidas. Saiam, passeiam, procuram se distrair. Há muitas crianças e idosos que necessitam de ajuda. Vão visitar os orfanatos, as creches, os asilos. Verão quanta gente sofre mais que nós... Pai, dá-me tua bênção e teu perdão!
Bartolomeu banhado em lágrimas, não pode resistir e ajoelhou-se abraçando as pernas de Felizardo, que, neste momento, desapareceu, deixando a sala inundada por um perfume suave. Bartolomeu se levantou e sentiu uma paz que nunca sentira antes. O seu filho esteve ali, com ele, estava vivo e o perdoara. OBRIGADO MEU DEUS! Suas únicas palavras até adormecer em paz nessa noite em que Feliz viera lhe visitar...
 
 
Victoria Magna
Enviado por Victoria Magna em 08/11/2007
Reeditado em 08/11/2007
Código do texto: T728827
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Sobre a autora
Victoria Magna
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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