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Inexperiência(Primeira parte)

Carlos atravessou em silêncio a estrada de terra batida que separava o improvisado estacionamento da casa noturna.O soldado da PM observou com atenção todos os veículos e constatou a presença,entre eles,do opala azul marinho.Exausto(estava trabalhando há mais de quarenta e oito horas),o vigilante olhou para cima e observou os grossos pingos de chuva,que caiam do céu como adagas de vidro,iluminadas pela claridade preguiçosa de um velho poste de luz.Com a tormenta,o chão barrento transformara-se num lamaçal fétido,que teimava em grudar nas botas do policial a cada passo dado,e o uniforme molhado em contato com seu corpo causava um desconforto terrível!

Quando entrara para a corporação,três anos atrás,Carlos já sabia que não teria vida fácil,mas nem em seus mais delirantes pesadelos ele havia imaginado o que teria de enfrentar:Assassinatos por motivos fúteis,traições entre parentes,bebedeiras que acabavam em trajédias,estupros feitos pelos próprios pais,drogas vendidas em escolas primárias...Tudo isso zerou sua confiança na humanidade!

O caso mais recente;que o levara ao local onde estava agora(confins da baixada fluminense)era um exemplo disto:Uma série de latrocínios vinha intrigando a polícia!Pelas descrições das poucas testemunhas existentes(uma,para ser preciso),dois marginais invadiam as residências,sempre de madrugada;Roubavam,estupravam(não necessariamente só mulheres),matavam,e sumiam na noite,dirigindo um velho opala azul turquesa!As autoridades políticas exigiram a imediata elucidação do caso,e todo o aparato policial foi acionado!Carlos já estava acostumado com a pressão do seu trabalho,mas seu parceiro de ronda,Silas,tinha apenas seis meses de corporação!Dava para Carlos sentir o quanto a situação mexia com seu colega!Por isso,ao deixarem a viatura,distante da boate,ficou combinado que Carlos iria na frente e Silas ficaria na retaguarda,dando cobertura!

O galho de uma mangueira caiu pesadamante no chão,derrubado pela ventania!O barulho serviu para despertar o PM,que resolveu contactar o parceiro.Pegou seu celular e fez a ligação.Com a voz baixa,perguntou:

__Algum movimento?

__Só o do meu estômago,roncando!__Silas era  bem-humorado.Carlos admirava isso.

__Não está pior do que o meu!__Carlos entrou na brincadeira para descontrair__Eu vou checar a boate...Você vai pelos fundos e vê se alguém "dá no pé",falou?

__Vou perder toda a ação?__O tom da frase foi um misto de ironia,decepção,e alívio.

__Perder a ação?Eu vou ficar contente se não achar nada lá dentro e poder ir para casa descançar !!__E desligou.Apesar de sua fala ser em tom de galhofa,era justamente isso que o PM esperava:Um fim de plantão tranqüilo!Carlos já vivera a situação angustiante de um confronto ocorrido no fim de um turno,quando os reflexos estão mais lentos pelo cansaço,e a vontade de voltar para a casa prejudica os julgamentos!Passou a mão no rosto,tentando em vão enxugar os olhos,e aproximou-se da construção.O letreiro de neon vermelho brilhava,diabólico,e a batida músical vinda lá de dentro completava a atmosfera infernal da casa noturna!

A construção era um muquifo,pensou o PM!Nem Leão de chácara tinha!Com certeza,tratava-se de uma residência transformada em boate!E uma boate de baixo nível!Daquelas que só marginais,ou amigos deles, frequentavam!

Com extremo cuidado,Carlos olhou através de uma das janelas.O vidro fosco,de cor escura,dificultava a identificação de quem estava lá dentro.Entretanto,dava para ver que tratava-se da fauna esperada: Garçons,fregueses sóbrios,fregueses Bêbados,prostitutas,pequenos infratores,homens que traziam escrito na cara a palavra estelionatário....Nada a que o PM não estivesse acostumado!

Ao tentar enxergar melhor através do vidro,Carlos esbarrou em alguns sacos de lixo que estavam encostados na parede.O leve esbarrão nos plásticos negros atiçou as baratas que estavam lá dentro!Uma delas saiu por um orifício,e começou a escalar o braço esquerdo do guarda!Surpreendido com o contato repugnante das pernas do inseto,o vigilante sacudiu-se todo,esquecendo momentâneamente  sua situação de espreita!A barata caiu no chão e Carlos a chutou,enraivecido!Sua bota atingiu o inseto de lado,contra uma pedra,separando o pequeno animal em dois pedaços.A cabeça ficou virada para cima,antenas movimentando-se,enquanto a outra parte agitava as pernas sem coordenação alguma!Por alguns segundos Carlos tentou ignorar o pequena drama,concentrando-se novamente na tocaia!No entanto,a dramaticidade da cena:O inseto vendo seu próprio corpo decepado agitando-se,obrigou-o a acabar com aquilo!Esmagou as duas partes com um pisão!Neste exato momento,um tiro ecoou alto e seco,parecendo vir dos fundos!Como um predador que parte sobre sua caça,o PM correu naquela direção.Ao contornar a casa,deparou-se com umas trinta pessoas,fregueses da boate certamente,circundando um corpo caído no chão.O homem vestia o uniforme cinza da PM!Era Silas!De um orifício circular,bem acima do seu olho esquerdo,saía um grosso filete de sangue.O corpo  estrebuchava!Silas estava agonizando!Quase em transe,Carlos empurrou as pessoas e ajoelhou-se ao lado do companheiro ferido.Em vão tentou reanimar o colega,que não esboçava o mínimo sinal de consciência!Virou-se então para uma moça loura,que estava com uniforme de garçonete,e disse,ríspido:

__VOCÊ!VEM CÁ!!__Puxou a mulher pelo braço__FICA AQUI JUNTO DELE ,E NÃO DEIXA O SANGUE ENTRAR NO NARIZ!!__Tirou um lenço do bolso,e deu à jovem__Espantada,a garçonete fez o que ele havia ordenado como se fosse um militar cumprindo uma ordem expressa.Depois disso,Carlos pegou seu celular e pediu ajuda;médica e policial!Sacou da arma e entrou na boate.Estava molhado e furioso!Bloqueou em sua mente a visão do parceiro semi-morto,pois do contrário enlouqueceria,ordenou que desligassem a música e perguntou,em alto e bom som,para que todos ouvissem:

__QUEM  BALEOU MEU PARCEIRO!

Só depois da pergunta feita é que Carlos viu o quanto ela era ridícula:Se nem nos interrogatórios os marginais admitiam a culpa,como ele poderia esperar uma confissão pública de assassinato?O desespero pela situação do amigo e o cansaço começavam a fazer seu estrago!A boate permanecia em silêncio.Atento ao menor movimento,Carlos percebeu que um homem sentado numa mesa próxima à ele,estava colocando a mão direita na parte de trás da calça,como se estivesse  procurando alguma coisa.Uma arma?O pensamento deixou-o apavorado!Ordenou ao suspeito:

__Você aí, de jaqueta jeans!Mãos na cabeça!!

O homem respondeu,marrento:

__Por que?Eu não fiz nada!!

__Não interessa!AS DUAS MÃOS NA CABEÇA!!Eu estou mandando!!!

O homem levantou-se rapidamente.Durante o movimento,sua mão direita permaneceu atrás da calça!Por causa da jaqueta jeans,que parecia ser de um número maior do que o ideal,e da iluminação precária,Carlos não identificou o porquê do gesto!Em pânico,gritou:

__Larga o quê você está segurando!!Agora!!!

__O quê?Tá maluco?__E a mão continuava no mesmo lugar.

__Eu não vou repetir!LARGA AGORA!!

Os outros fregueses começaram a procurar proteção em qualquer anteparo disponível,temendo o pior!O suspeito retrucou uma vez mais:

__Você está bêbado?Eu só estou...__E fez um movimento brusco,puxando a mão direita,que continuava atrás,para frente!O PM visualisou um objeto escuro.Um revólver!Num gesto de puro reflexo condicionado,Carlos apontou seu 38 para o meliante e disparou!O tiro atingiu em cheio o peito do alvo,atirando-o uns dois metros para trás!Todos jogaram-se no chão,protejendo-se!Um barulho de carro arrancando foi captado pelo PM,que,elétrico,correu até a porta de entrada.Chegou à tempo de ver o opala azul passar,na direção  da estrada!Dois homens estavam dentro dele.O carona apontava uma automática para a entrada da boate.Carlos mal teve tempo de abaixar-se!Os tiros acertaram a moldura da porta!Ao cair,o vigilante bateu violentamente com o ombro direito na parede!
arqueiro
Enviado por arqueiro em 02/12/2007
Reeditado em 09/12/2007
Código do texto: T762315
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arqueiro
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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