Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

DESCANSE EM PAZ, MINHA MÃE...

Vou contar para você
Se o amigo me permite
A história da minha vida
Com certeza muito triste.
Sofrimento igual ao meu
Neste mundo não existe.

Muito jovem fiquei orfão
Com mais dois irmãos menores.
Pois meu pai matou minha mãe,
Nos causando muitas dores
E passamos muito tempo
Só vivendo de favores.

Tinha apenas onze anos
Quando isso aconteceu
Ainda hoje não entendo
Mas também ninguém entendeu
Por que um pai mata uma mãe
E ainda fere um filho seu?

Com apenas quinze anos
Minha mãe se apaixonou.
E o meu pai com vinte cinco
Também dela se engraçou.
Pediu ela em casamento
E a família concordou.

Se casaram na igreja
Com as bençãos do Senhor.
Tudo com simplicidade
Sem um pingo de explendor.
Prometeram um pro outro,
Viver a vida com amor.

No começo foi assim,
Mas depois tudo mudou.
A desgraça do ciúme,
A meu pai contagiou.
Minha mãe nunca o traiu!
Ele nunca acreditou...

Quanto mais passava o tempo
Mais minha mãe ia mudando.
Ao casar era bonita,
E mais bela ia ficando.
Via o seu corpo de menina,
Em mulher se transformando.

Meu pai não acreditava,
Existir tanta beleza,
Muito menos ter casado
Com esse exemplo de lindeza.
E a tratava com amor
E muita delicadeza.

Trabalhando de pedreiro,
O seu ganho era pouco.
E pensando em ajudar,
Arranjou minha mãe um tranco.
Ao saber da novidade,
Ele quase fica louco!

Disse ele muito bravo:
Pro trabalho ela esquecer,
Eu não quero mulher minha,
Tendo que a outro obdecer.
Se teimar entra na sola
E alguns dentes vai perder.

Pensando ser brincadeira,
minha mãe não lhe ouviu.
E ele muito enciumado,
Pra cima dela partiu.
Deu-lhe uma surra muito grande
Seu corpo todo feriu.

Minha mãe foi na polícia
E deu parte do meu pai
E chamado a depor,
Prometeu nunca mais vai
judiar com a minha mãe,
Pois a ele ela não trai.

Ele fez muitas promessas
Mas nenhuma ele cumpriu.
Começou a brigar de novo,
Pra polícia ele mentiu.
E a paz na nossa casa,
Nunca mais que nimguém viu...

Essa lei Maria da Penha,
Nesse tempo nem existia.
Se existisse, Essas brigas
Na minha casa não se via.
E talvez a nossa vida,
Tivesse alguma alegria.

Foi assim que começou
Essa vida de tormento.
O meu pai enciumado,
Brigava a todo momento.
Quanto mais passava o tempo,
Mais ficava violento!

E com todas essas brigas,
Minha mãe engravidou.
Com criança nova em casa,
Ele muda, ela pensaou...
E ao contrario do esperado,
Ele muito piorou!

Só por ter amor a ele,
Minha mãe o suportava.
Uma outra em seu lugar,
Nada isso aguentava.
E com muita ansiedade,
Eu nascer ela esperava...

Ia chegando o fim do ano,
Quando enfim cheguei ao mundo.
Minha mãe muito contente,
A mim logo foi mimando...
E as coisas lá em casa,
Foram aos pouco melhorando...

Os meus pais foram vivendo,
Numa melhor situação.
E assim eu fui crescendo,
Sendo o centro da atenção.
Minha mãe sempreme tinha,
Dentro do seu coração!

Ao chegar aos quatro anos,
Um irmaõzinho eu ganhei.
Tinha agora um companheiro!
Muito alegre eu fiquei.
Os meus pais pouco brigavam.
Alguma coisa eu mudei.

Eu já tinha sete anos,
Muita coisa eu já sabia.
Ganhei outro irmaõzinho
Que me deu tanta alegria.
O pior tava por vir,
Isso eu juro não sabia.

Enterei meus onze anos,
Minha mãe fez vinte e seis.
Trinta e seis meu pai já tinha,
Acreditem só vocês:
Começaram a brigar
Por ciúmes outra vez!

O motivo eu já sabia.
Mas também tava na cara.
Pois bonita igual minha mãe,
Era coisa muito rara.
E o meu pai sempre atendo,
Vigiava toda hora.

Minha mãe não fazia nada.
Era só desconfiança.
E o meu pai sempre dizia:
Vou fazer uma matança!
Se pegar você com outro,
Na minha faca você dança!

Minha mãe sentia medo
mas fingia não sentir.
Com três filhos pra criar,
Sem lugar pra onde ir,
Era o jeito aguentar...
Não tinha como resistir.

Eu vivia assustado!
No meu pai não confiava.
Minha mãe corria perigo,
Longe dela eu não ficava.
Mas um dia aconteceu,
O que tanto ele jurava..

Começou de manhã cedo.
Minha mãe toda arrumada,
Meu pai logo quis saber:
Vai pra onde sua safada?
Minha mãe por causa disso,
Ficou muito magoada.

Vou ao centro fazer compras!
Ela logo respondeu.
Já que sou uma safada,
Vou doar o que foi seu!
Não entendi o que ela disse,
Mas eu acho ele entendeu!

Depois que ela disse isso,
O meu pai pulou pra cima!
Agarrou em seus cabelos,
Segurou que nem um ímã.
Foi ai que eu percebi,
Que tinha esquentado o clima.

Ver o meu pai fazer aquilo,
Eu não pude suportar.
Era uma grande covardia,
Não podia eu aceitar!
Todo o medo que eu tinha,
Era ela ele matar...

Parti eu pra cima dele,
Com tamanho desespero.
Recebi um grande chute
Que doeu o corpo inteiro.
Pelo chão caí rolando,
Levantando bem ligeiro!

Minha mãe gritou: Safado!
Por que bateu na criança?
Só tu sendo um covarde!
Acabou-se a confiança!
E comos olhos cheios d'agua,
Do dedo tirou a aliança...

Ele disse prostituta!
Já que tu não quer ser minha,
Não será mais de nimguém!
Pegou a faca da cozinha,
Aplicou-lhe um grande golpe
Com toda a força que tinha...

Presenciando a triste cena,
Eu não pude me conter.
Joguei uma panela nele,
Tentando ela defender.
Ficou ele enjuriado
E eu sem medo de morrer!

Virou ele pro meu lado,
Com os olhos faiscando.
Disse seu fila da puta!
Sei tu tá é procurando.
Vai morrer junto com ela!
Aprovita e vai rezando!

Quando ia me esfaquear,
Minha mãe entrou no meio.
E a facada que era minha,
Acertou bem no seu seio.
E do sangue da minha mãe,
O chão todo ficou cheio...

Com a faca ensanguentada,
O meu pai saiu correndo.
Abracei a minha mãe,
Vi que tava ela morrendo...
Da facada no seu seio,
Vi o sangue escorrendo...

Com a cabeça no meu colo,
Ela disse filho querido
A mamãe tem que partir.
Mas lhe faço um pedido:
Cuide bem dos seus irmãos,
Que esse mundo tá perdido...

Não mãezinha! Por Favor!
A senhora tem ue viver!
Não me abandone, mamãe!
Você não pode morrer!
Se a senhora for embora,
O que é que eu vou fazer?

Ela disse escuta filho,
O que a mãe vai lhe dizer:
Ja estou quase morrendo,
Não há nada a fazer.
Você é um rapaizinho,
Mas um dia vai crescer...

Faça o bem para as pessoas,
Seja um grande cidadão!
Perdoe o seu  pobre pai.
Não pense em vingança não.
Pense só em coisas boas,
Tenha paz no coração!

Eu ouvindo tudo isso,
fiquei cheio de emoção.
Minha mãe tava morrendo
me doía o coração.
Eu então disse pra ela
Mãe me preste atençao:

Eu sou só uma criança
comecei viver agora.
Como posso eu dar conta
Dos irmãos sem a senhora?
É por isso que lhe peço:
Por favor não vá embora!

Ela disse amado filho
Onde você estiver
Estarei junto de você!
Pode vir o que vier,
Sua mãe vai estar presente,
Faça o filho o que fizer!

Ao dizer essas palavras,
Beijou ela as minhas mãos.
Deu um último suspiro...
Pensei eu nos meus irmão,
Tão pequenos e inocentes,
Eram agora todos orfãos...

Sua cabeça prendeu pro lado,
Acabou o seu sofrimento.
Minha mãe tinha morrido,
Não esqueço esse momento.
Para os filhos começou
Uma vida de tormento!

Eu sentado alí com ela
Não vi o tempo passar.
Foi aí que os vizinhos
começaram a chegar.
E ao verem aquela cena,
Não puderam acreditar...

Ao ligaem pra polícia
relataram o que ocorreu.
Veio também o rabecão,
Que o chamado recebeu.
Colocaram minha mãe dentro,
Minha vista escureceu...

Perdi a noção das coisas
Vi o mundo então girar.
Minhas pernas adormeceram
O coração quis parar.
Era grande a minha dor.
Comecei a desnmaiar.

Ao tornar estava zonzo,
Muita gente ao meu redor.
Eu pensei que era sonho,
mas me veio logo a dor.
E a Deus pedi baixinho:
Me ajude meu senhor!

Meus irmãos taam na escola,
Meio dia iam chegar.
Como eu ia contar a eles,
Quando a mãe não encontar?
Ao pensar em tudo isso,
comecei logo a chorar.

Como todo mundo sabe,
Nada anda mais ligeiro
Como a notícia ruim.
Logo o nosso bairro inteiro,
Já sabia da tragédia.
Sendo eu quem vi primeiro...

Ao chegarem da escola,
Já estavam eles sabendo.
E ao verem tanta gente
Nada mais tavam entendendo.
Onde está a nossa mãe?
O que é que está havendo?

Ao notarem eu chorando,
Eles logo entenderam...
Nossa mãe não tava alí,
E um choque els tiveram.
Começaram a passar mal.
Nada mais eles fizeram...

Nossa vó apareceu,
Pra sua casa nos levou.
Tava ela também sofrendo
Pois sua filha Deus chamou.
Nos cobriu com o seu casrinho,
Nunca nos abandonou...

O meu pai logo foi preso.
A policia o pegou.
Perguntado sobre o crime,
Ele nada explicou
Tava muito alterado.
Na cadeia ele ficou.

Pra chegar do IML,
Foi uma espera angustiante.
Senti uma tristeza imensa
E a dor era gigante.
Também os meus irmãozinhos,
tavam sofrendo bastante.

Nossa vó nos deu um chá
E eu fiquei bem sonolento
Acordei no outro dia
Precisando de alento.
Tava tudo preparado...
Iam fazer o sepultamento.

Minha casa tava cheia,
Quando cedo lá cheguei.
Segurando a mão da vó,
Do caixão me aproximei.
Lá estava a minha mãe...
A pessoa que mais amei.

O seu rosto não mudou nada.
Parecia estar dormindo...
Suas uhnas estavam roxas.
Senti lágrimas caindo.
E ao pegar nas suas mãos,
Me lembrei dela sorrindo...

Assistir aquela cena,
Era duro aquntar.
E o povo ali reunido,
Começou logo a chorar.
Uma dor tão grande assim,
Leva tempo pra sarar...

E durante muito tempo,
Não me afastei do caixão.
Gente entrava e saia,
Demonstrando compaixão.
E eu sentia aquela dor,
Dentro do meu coração.
Vez por outra eu ouvia
Alguém chorando perguntar:
E agora meu Jesus?
Dos bichim o que será?
Sem ter mãe e nem ter pai,
Comko é que vai ficar?

E a vovó calma dizia:
Quando Deus fecha uma porta,
Ele bre uma janela.
A mãe deles está morta,
Mas a vida continua.
Fé em Deus é o que import!

Eram quase novehoras
Vi o povo se agitar.
Era hora do enterro,
Vi o carro estacionar,
Alguém disse já é hora,
E o caixão vamos fechar.

Eu pensei já er pasado
Pela minha maior dor.
Logo vi tava enganado
Pois la vinha mais horror.
Quando fecharam o caixão,
Gritei valha me Senhor!

Minhas pernas fraquejaram
Minha vó me agarrou,
Apaguei no mesmo instante.
O coração não aguentou.
Era duro ver partir,
Quem na vida só me amou.
Quando me recuperei,
Minha mãe já haviam levadp.
E fiquei mais triste ainda
por não ter acompanhado.
E então eu percebi,
que tudo tinha acabado...


LEIA A SEGUNDA PARTE COM O TÍTULO
DESCANSE EM PAZ, MINHA MÃE. PARTE II








 
valdenir
Enviado por valdenir em 08/12/2008
Código do texto: T1325669

Copyright © 2008. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
valdenir
Fortaleza - Ceará - Brasil, 51 anos
25 textos (32453 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 25/10/14 20:50)



Rádio Poética