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  CASA DE TAIPA


Num "retorno" à minha infância,
Lembro o quanto fui feliz
Naquela casa de taipa.
Meu coração é quem diz.
E foi com o meu peito em festa,
Que esta homenagem lhe fiz.

Na chegada há um cajueiro
Curvo, cobrindo a estrada;
Uma palmeira frondosa;
Uma açucena espalhada
Cheia de flores que deixam
A estrada perfumada.

Na entrada, o terreiro limpo
Bem enfeitado de flores
Em toda a sua extensão:
Flores de todas as cores!
E plantas medicinais
Para dores..., suadores...

Dos lados, e lá atrás,
Há uma variação
De árvores frutíferas que
Vai desde a jaca ao mamão,
Onde os cajus e as mangas
Viram lama pelo chão.

Laranja-lima; a da terra;
A da baía; o araçá;
Goiaba; cana-caiana;
Sapoti; maracujá...
Algumas das várias frutas
Que lembro que havia lá.

Mas falo da casa em si!
De como era construída;
O material usado
E como era dividida.
Dos móveis utilizados.
Da dormida e da comida.

A casa tem duas águas
Como todas as demais.
O tipo "casa comum".
São quase todas iguais
No pequeno Jerimum,
Lugar dos meus ancestrais.

Na entrada, o "anti-cristo"!
Como minha mãe chamava.
Preto, comprido, com quatro
Pernas, que o descanso dava
Ao viajante cansado
Que no caminho passava.

Sendo protegido por
Pequena e simples latada
Feita de palhas de coco,
Do próprio sítio tirada,
Formando um alpendre tosco
Naquela tosca morada.

Uma porta e uma janela,
Que de tábua de caixão
De sabão são engendradas,
Completa a feia visão
Frontal do pobre casebre
Que o lembrar traz emoção.

Outra janela na sala,
Do lado do sol  nascente,
Deixando a sala arejada
Mesmo em dia de sol quente
E um mínimo de conforto
Dando àquele pobre gente.

Porta dividida ao meio,
Trancada com taramela,
Dá entrada à sala, onde
Ainda um coto de vela
Vê-se no fundo da xícara.
Do lado, uma rosa amarela.

Várias estampas de santos:
O Coração de Maria;
O Coração de Jesus;
São Bento, Santa Luzia;
A Santa Rosa de Lima;
Nossa Senhora da Guia.

São João Batista-menino
Com um carneirinho do lado,
Nossa Senhora das Dores,
São José com seu cajado
E o Menino Jesus
No seu braço bem sentado.

Todos em quadros suspensos
Na parede, e enfeitados
Com laços de várias cores
Que lhes foram ofertados
Em pagamento às promessas
Feitas, com fins alcançados.

Uma banca de três pernas,
Sempre de crochê forrada,
Tendo sobre si um frasco
Com uma flor que foi tirada
Ali mesmo no quintal
Onde foi mui bem cuidada.

Num canto uma velha mesa
Nua, já enegrecida
Pela idade, e três bancos
Que, na hora de servida
A refeição, não comporta
Todos da forma devida.

Alguns se sentam no chão,
Com certeza, a criançada!
Já que aos mais velhos costuma-se
A preferência ser dada.
Mas a turma não reclama
Pois já está acostumada.

Um joelho de madeira
Sai da parede, formando
Um armador, de primeira!
Com outro se defrontando,
Onde há sempre uma rede
Com alguém se balançando.

Da sala para a cozinha
Há um corredor escuro
Que passa na camarinha,
Ou quarto, onde, eu vos juro!
Sem um candeeiro aceso,
Não se vê nada. No duro!

Na camarinha, uma cama
De talisca, com colchão
Duro, de junco, comprado
Ali perto, no Grotão.
Do lado da cama um cepo,
Bacia d'água e sabão.

Tem ainda um candeeiro
A querosene, luzindo.
Fumo de rolo, tabaco,
E um penico, tinindo
De limpo, para o xixi
De quem ali tá dormindo.

Um velho baú num canto,
Com roupas especiais:
O vestido novo da moça
Da casa e, dos demais,
Uma roupa de sair
Pois não podem comprar mais.

Uma corda na parede,
Que é mesmo um grande aparato!
Onde se pendura as roupas
Servidas, meias, sapato,
Redes, lençóis e, por vezes,
Até os panos de prato.

Um caritó, no cantinho
Da parede, pra botar,
O penico e o candeeiro
Que não vai se precisar
Durante o dia, e o fumo
Que ainda está por cortar.

No final do corredor
A dispensa e a cozinha.
Na dispensa, há uma saca
Quase cheia de farinha
E uma lata de feijão
Pro plantio que se avizinha.

Na parede da dispensa
Há mais um outro joelho
De madeira, pra botar
Cordas, cangalha, aparelho
De barbear, um pincel
Para  espumar, e um espelho.

A cozinha é dividida
Em duas partes, que são:
Uma pequena saleta
Com janela para o oitão,
Um pote a um canto com água
Pra tomar, e um lava-mão.

Uma mesa ladeada,
No comprimento, por bancos
De madeira bem compridos
Que parece serem mancos
Por causa do piso bruto
Feito aos trancos e barrancos.

Na cabeceira, um banquinho,
De tamborete chamado.
E quando junta mais gente
Fazem acento improvisado
Com um tronco de coqueiro 
E um velho pilão deitado.

Pois é costume no sítio
O povo se reunir,
Vez por outra, em uma casa
Para conversar e rir:
Botando a fofoca em dia,
Para, assim, laços unir.

Mas, cheguemos à cozinha,
Na Segunda parte, então,
Onde se vê, lá no canto,
Uma espécie de fogão
Que é uma mesa de barro
Com pés fincados no chão.

Para explicar o feitio
Dos fogões, eu vou dizer
Do que é que eles são feitos
E a forma de os fazer.
Em assim sendo, lá vai!
Eu os tentarei descrever.

No fabrico dos fogões,
Veja o que se utilizava:
Eram quatro ou seis forquilhas
Que do mato se tirava,
Lá na "Mata do Chocalho"!
Pertinho d'onde eu morava.

Faziam-se umas grades
De varetas amarradas
Com cipós, de forma que
Ficassem bem apertadas,
Retangular -  oito pernas;
De quatro pernas - quadradas.

E, com barro, se fazia
A massa bem escaldada
Que se aplicava à grade
Já, de antemão, bem atada
À forquilha que, também,
No chão já estava fincada. 

E o acabamento rústico
Que era mesmo feito à mão,
Deixava à vista desenhos
Naquele rústico fogão
Feito sem nenhuma técnica
Mas com carinho e emoção.

E depois do barro seco
Punha-se, pois, na tal mesa
De barro, três pedras grandes
Entre as quais a lenha acesa
Cozinharia a comida
Para todos, com certeza.

Com o tempo, o fogão a lenha
Aqui descrito, mudou:
As trempes perderam a vez;
A pedra em barro virou;
Criou-se como se um forno
E ao jirau se anexou.

Uma espécie de casinha
De barro, com abertura
Arredondada, pra cima
Jogando toda a quentura
Das chamas sob a  panela
Que esquenta e abre a fervura.

Panelas, que também são
Feitas de barro. E o sabor
Da comida ali contida
Eu lhes digo, sim senhor:
Tinha um sabor diferente!
Pois era feita com amor.

Nem se pode comparar
Com as de hoje, meu patrão!
Feitas no fogão a gás
E à força de pressão
Que, às vezes, para comer,
Falta-me disposição.

Por mais tempero que bote
O sabor é diferente
Do daquele tempo em que
Era acrescido somente,
Ao feijão, umas folhinhas
De coentro e a semente.

Pois a semente do coentro,
Verdinha, e bem amassada,
Dá ao feijão um sabor
Que... Oh !... Pela madrugada!
A gente come purinho!
Sem precisar de mais nada.

Mas, saiamos do fogão
Que já está me dando fome!
Vamos para o outro canto
Mostrar... Como é mesmo o nome?
Um "caritó" - um cantinho
Onde a aranha a mosca come.

É o "caritó"  que é feito
Com pauzinhos enfiados
No cantinho da parede
Onde se vê pendurados
Um candeeiro e um quengo,
E uns algodões trançados.

Candeeiro - é a lamparina
A querosene, que é usada
No lugar onde a energia
Elétrica não fez chegada,
E que ilumina a raspagem
De mandioca à madrugada.

Quengo - é a concha, seu moço!
Feita do casco do coco
D'uma banda - uma quenga
Onde um pau raspado, um toco,
Atravessa e faz um cabo.
Uma herança do cabôco.

Trança de algodão: pavio
Que serve para sugar
O querosene de dentro
Do candeeiro - ao passar
Pelo bico - sendo aceso
Para a casa iluminar.

Veja-se o que na cozinha
Temos ainda a mostrar:
O jirau de lavar louças
E  pô-las para secar.
Em cima: cuias com água
Para lavar e enxaguar.

No canto, perto da porta,
Um pote numa forquilha
Que é para água de gasto.
E mais um’outra vasilha:
Uma cuia (de cabaço),
Com água fria. Maravilha!

Saindo para o quintal,
Ou "terreiro da cozinha",
Vê-se um balcão de coentro,
Um viveiro de galinha
E um cortiço de abelhas
Numa mangueira vizinha.

E ainda uma quantidade
De fruteiras, variada,
Das quais falei no início.
Também tem uma latada
De maracujá-mochila,
Que tem a pele engelhada.

Diante das nossas vistas,
Um terreiro "caprichado"!
Sempre nivelado e limpo,
Melhor que o encomendado!
Como se fora uma moça
Esperando o namorado.
               ...
É assim que na lembrança
Guardo, carinhosamente,
A casinha onde vivi
Com os meus, bem consciente
Que minha mais verde infância
Deu total significância
À vivência do presente.
                -
Rezei aqui o meu lar
Ou a casa onde nasci,
Sei que não posso agradar
A todos com o que escrevi!
Requeiro ao caro leitor
Entretanto, por favor,
Gostando, passe-o à frente!
Isto fará minha mente
Servir sempre com amor.



1ª edição: 2006
Revisto em janeiro de 2012


Nota: Parte deste cordel (as sete primeiras estrofes) 
foi editado no CADERNO INTEGRADO - LIVRO 4 - 
da COLEÇÃO CRESCER EM SABEDORIA  - ENSINO 
FUNDAMENTAL, do SISTEMA MACKENZIE DE ENSINO.
Rosa Regis
Enviado por Rosa Regis em 25/07/2006
Reeditado em 12/11/2013
Código do texto: T201886
Classificação de conteúdo: seguro

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