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NO DESVIO**

Paulo Piolho dançou bonito,
fizeram peneira do seu corpo,
estancaram a fúria do moleque
crescido no morro, solto.
Anjo torto, 38 na cintura,
dedo no gatilho, sem erro,
nas desavenças era sempre o primeiro.

Chegado de todos e temido,
na favela tinha guarida
quando aparecia intriga.
Os barracos se abriam
quando pintava sujeira.
Quando a polícia o perseguia.
ninguém falava, nada viam.

Sua estima não era gratuita,
crescido nos braços da favela
a ela retribuía, do seu jeito.
Certo dia veja o que fez:
um carro de coca-cola desviou
e toda a carga distribuiu.
Foi farra como nunca se viu.
Deu dinheiro pra batizado.
Dos capoeiras era o patrono
e até investiu na comunidade
quando a chuva arrasou,
e tudo virou calamidade.
 
Paulo Piolho era assim:
o dono do pedaço.
Ninguém punha a cara,
pois sabiam da sua capacidade
com arma em punho,
sua fama corria a cidade.
Jogado desde cedo na vida
cresceu no desvio,
conheceu o inferno de perto,
iniciou roubando na feira,
e logo, nas quebradas da vida,
foi apresentado ao diabo.

Não lastimou nada,
foi à luta, revoltado.
Cresceu destemido, marcado
destino iguais a outros iguais.
No morro só dava ele,
a pivetada dava toque
era feito Charles, Anjo 45,
da música do Benjor,
mas seu dia já tava contado,
foi cercado, crivado de bala
por mais de 50 soldados.

Foi desta pra pior,
Mas deixou herdeiro pra todo lado,
pois tudo ali ainda é igual:
Falta instrução, atenção – governo,
cultura e trabalho.
A escola continua na rua montada,
com aula prática todo dia,
Não tem jeito
é destino Brasil,
pr’aqueles que nasceram,
cresceram e como Paulo Piolho
morreram no desvio.


cp-araujo@uol.com.br
Célio Pires de Araujo
Enviado por Célio Pires de Araujo em 15/07/2005
Reeditado em 21/10/2006
Código do texto: T34604

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Sobre o autor
Célio Pires de Araujo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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