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   O verdadeiro artista não se conforma com uma arte. Ele deseja todas as artes para si, e o senso estético ( que é a captação do prazer através da beleza ) que maneja na atividade artística, libera-se desta, se convertendo em um imperativo que afeta a toda ação não profissional. O artista , então, não pode ser um profissional especializado ( embora seja possível que dê mais rendimentos numa arte que em outra, por questões de capacidade natural), já que para ele a ARTE é pouca coisa. Dai que a simples existência de um artista seja provocativa, inquietante e revolucionária no sentido mais profundo, pois o único campo capaz de conter todas suas energias criadoras e retroalimentar a totalidade de suas expectativas em níveis adequadamente altos é a vida social no seu conjunto. Qualquer outra situação, qualquer sucedâneo, qualquer esforço sufocador ( como é hoje a propaganda mais espetacular e efetiva da história) no serão capazes de silenciar a queixa do verdadeiro artista, quem tem como meta o gozo estético através da existência em si e não só uma atividade mais ou menos gratificante por meio de escritos, imagens ou sons em um tempo específico.
O artista que unicamente se conforme com isso, com a mutilação das possibilidades totais do seu SER, é só um burocrata podendo ser até admitido na sua sociedade e inclusive recompensado. A persistência do artista na exigência de satisfação total dentro de uma existência ampla é produzida por um Ego poderoso, não submetido, não desvitalizado. Tal atitude “egoísta” é social na medida em que o objeto da personalidade criadora é a SOCIEDADE no seu conjunto e não simplesmente, como no caso do burocrata artístico, o próprio desenvolvimento parcial, através de uma atividade parcial. O artista não pode ser valioso pela sua popularidade senão  pela sua rebeldia, pelo senso agudamente crítico, pela sua loucura*. E embora todas as forças apontem contra ele, tampouco pode ser um mártir, dado que encontrar prazer ( um prazer que represente sua existência ) na própria tragédia, na própria extinção é oposto ao terrível erotismo criador que surge da sua natureza. Nem o suicídio, nem a loucura, nem o submetimento aliviarão suas profundas demandas. A única forma de alívio, de libertação da dor de uma vida fragmentada é a transformação da civilização de forma que esta permita a propagação  do exigente ideal estético em cada um dos seus membros e a subseqüente expansão e satisfação existencial. Fora disso, não haverá para o artista verdadeiro nem remédio, nem descanso, nem consolo.

* o artista não pode respeitar as instituições ( personalidade, família, escola, trabalho, religião, governo) por quanto que estas são responsáveis e incubadoras diretas da mentalidade repressiva anti-artística.

valentina
Enviado por valentina em 16/09/2007
Código do texto: T654902
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Sobre a autora
valentina
Nova Lima - Minas Gerais - Brasil, 38 anos
46 textos (2060 leituras)
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valentina