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SONHO - PARTE VII


                             SONHO - PARTE VII

Sózinha,  com o pretexto de passeares o Dekinho, saíste à rua e deixaste em cima da mesa da cozinha um papel que dizia o seguinte:  Sr. António, vou dar um passeio ao Dekinho. Não sei quando chegarei. Esteja tranquilo. Assim mesmo, recado telegráfico.
Percebia-se que o cão não era o verdadeiro pretexto da saída, apenas justificação. Algo muito mais importante determinava a saída. Uma inquietação estava latente no teu coração e a liberdade de pensamento também requeria liberdade de espaço para reflectir e sonhar.  Pegaste numa mochila às costas e dentro puseste óculos de sol,  livro, papel e caneta e telemóvel. Vestida levavas uns jeans, blusa simples e de padrões bonitos e ténis calçados.  Na cabeça sonhos, Imensos sonhos. Tomaste a direcção do jardim público. A meio paraste na esplanada de um bar para beber uma água fresca, compraste um bolo de arroz, que não comeste e chocolates. Passaste os olhos pelo jornal A Folha e por duas revistas, uma de informação geral e outra de vida mundana que se encontravam no escaparate. Após este momento, seguiste acompanhada pelo Dekinho, que feliz saltitava à tua frente.  Trezentos metros adiante fica o jardim, com bonitas e frondosas árvores, um lago com peixes de diversas cores, um viveiro com variadas espécies de patos, desde os vulgares aos mais exóticos e um pombal cujas pombas desfrutavam de liberdade, apenas se recolhendo para pernoitar ou chocarem os ovos. Em toda a área dispersavam-se inúmeros bancos onde idosos, pares de namorados e pais e avós com filhos e netos repousavam ou garantiam momentos de prazer, a que não faltavam a vozearia da criançada ou o chilreio da passarada. Deste uma volta ao jardim e escolheste para te sentares um banco que estava bem próximo do pombal.  Ao fundo os patos acediam ao lago.  Aqui repousaste algum tempo com observância dos animais, que felizes evoluíam.  O Dekinho, deitado a teus pés, de quando em vez exigia alguma atenção que tu muito generosamente acariciavas na cabeça e a que ele respondia com sorriso e abanar de cauda.  Esta postura de observância terá durado cerca de meia hora, finda a qual, tiraste da mochila um pequeno livro que continha as cartas de amor, escritas por Soror Mariana Alcoforado ao seu amante, um cavaleiro Francês. Estas cartas escritas com elevada qualidade e sentido de amor e paixão deixaram em ti uma sensação e um desejo de tentar "plagiá-las" . Depois de lidas, não resististe a relê-las, agora com mais redobrada atenção,  tendo-te imaginariamente colocado na pele da autora e a mim na pele do amante que apaixonadamente centra as tuas melhores atenções. Finda a leitura, pegaste no bolo de arroz e esmigalháste-o e em pequenas porções deste às pombas que habituadas a estas rotinas saltaram para a tua mão, para comerem. Dentre estas, havia um casal de pombas que depois de comerem, se beijaram, tendo feito crescer em ti um desejo de beijar que tu mesma e solitariamente esboçavas com movimento de lábios, os beijos que efectivamente querias sentir.
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 01/11/2007
Código do texto: T718662

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Sobre o autor
Povo Lusitano
Portugal, 62 anos
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