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Os meus natais

Meu Natal não tem neve, hoje ele é tropical, caliente, brasileiro, mas nem por isso feliz.
Guardo duas lembranças bem distintas, os meus poucos natais em Portugal, na mais tenra idade e os natais do Brasil.
O último passado lá foi em 1966, pois o de 67, passei-o no navio, "botando a alma pra fora", a caminho do Brasil.
Meu natal em Portugal era simples, pobre até, pelos padrões descritos pela TV,   havia poucos presentes, a única fruta seca era a castanha, que vinha da nossa "quinta", as carnes nobres, eram a galinha, o porco ou raramente um cabrito ou uma ovelha criados ali no quintal ( país pequeno não tem pasto para animais de grande porte).
Tinha fular, uma espécie de panetone salgado... quem levava era minha madrinha, tinha rabanadas (que adoro até hoje!), não faltava vinho, nem animação.
Papai Noel... não havia!!!
Mas havia presépio, com a manjedoura vazia, à espera, onde o menino Jesus só aparecia no raiar do dia 25. Se eu fosse uma boa menina, ele me traria um presente e eu ansiosa, à espera, sem sequer questionar como um bebê poderia trazer tantos presentes ao nascer.
Ah, a ingênuidade abençoada das crianças!
São lembranças tênues, distantes, meio apagadas pelo tempo, mas até hoje me emociono ao ver um presépio e é a ele, o menino Jesus que faço meus pedidos de paz, saúde, dinheiro e tudo o mais que já quis.
O meu primeiro natal no Brasil não dá para esquecer, estavam lá meus avós, meus tios/tias, meus primos, meu pai, minha mãe e eu. Já estava quase com 6 anos, havia sido um ano difícil para meus pais.
Moramos em um cortiço e minha mãe me alfabetizava ao costurar, para que eu tivesse o que fazer. Fui alfabetizada em casa, tal qual dizia Paulo Freire, usando palavras do cotidiano, como agulha, linha, máquina... palavras difíceis, de uma realidade mais difícil ainda.
Meu pai, andava quilômetros para fazer carrocerias de caminhão até comprar um carrinho e ir trabalhar "na praça" (naquela época pobres ainda tinham oportunidade de comprar carros... o Brasil era o país da esperança, do futuro e nós lá... esperando o bolo crescer para ser repartido).
Do 2º natal eu não lembro quase nada, o terceiro foi um horror... minha mãe já não estava mais e nunca mais esteve...
Daí em diante por mais que minha avó tentasse nunca mais tive o espírito natalino... sequer consegui acreditar em Papai Noel.
Cresci, casei, tive filhos... tentei dar-lhes os natais que nunca tive... acho que não consegui, pois juntar, duas famílias antagônicas, que se uniam nessa data por pura obrigação, não se pode descrever, de forma alguma como uma comemoração feliz.
Me separei (em 2001), e no ano passado, pela 1ª vez não estive com meus filhos, os cumprimentos foram via celular. Achei que meus natais da adolescência haviam sido terríveis, mas esse foi o pior.
Hoje, às vésperas do "dia fatídico", não fiz árvore, não armei presépio, mas encontrei a paz.
Meus filhos estarão comigo, meu companheiro também... o que mais posso pedir ao menino Jesus?
Ano que vem, já prometi, haverá maior empenho na comemoração, montaremos um presépio, sem o menino, que só chegará no dia 25, trazendo os presentes e o espírito fraterno / feliz que há tanto eu não tinha mais.
 
 
FELIZ  NATAL!
(Escrito em novembro de 2002)
Fernanda Maria
Enviado por Fernanda Maria em 02/11/2006
Código do texto: T279886
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Sobre a autora
Fernanda Maria
São Paulo - São Paulo - Brasil, 54 anos
92 textos (6748 leituras)
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Fernanda Maria