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OPS! É O NATAL OUTRA VEZ!!!

Então daqui a pouco já é Natal outra vez.  Pelas ruas, vai tomando forma a decoração clássica dos anos anteriores. Uma invasão, às vezes tímida, eu reconheço. Fico na dúvida se esse será como os anteriores. Depois de um ano que nem vi passar, eu me preocupei. As geleiras a cada dia estão menores.

Mas onde mora o Papai Noel? Meu filho me perguntou curioso esses dias sobre isso. É verdade, até aquele momento não tinha me dado conta. Logo nossas histórias terão de mudar, afinal, nesse passo, até o Papai Noel ficará sem teto. Um morador de rua.

O seu trenó, artigo de museu, enfeite de shopping ou monumento no meio de um parque qualquer. Mantê-lo seria muito caro. As garagens cada dia mais estão achando que carros valem ouro. E o pior é que não estão erradas. Carros valem ouro aqui fora. Imagina o quanto seria o aluguel de um trenó? Como não tem tabela, só pela fisionomia do Papai Noel, cobrarão horrores. Vou oferecer a minha vaga que não uso aqui no prédio. Ainda não comprei o meu sonhado fusca lilás. Antes seria mais útil uma bicicleta. Mais fácil andar com ela pelas ruas trancadas de Porto Alegre.

Com essa lógica, melhor vender o trenó no MercadoLivre e comprar um skate ou mesmo um pára-quedas. Já imaginou? Para as renas, pouco lhes sobra. Não sendo gente, um bicho que se adapta como as baratas a quase tudo, fico pensando qual seria o fim delas. Um zoológico, uma reserva florestal nas partes ainda frias do planeta? Logo elas seriam como os dragões, histórias da carochinha.

Tendo o Papai Noel de andar pelas ruas a pé, de ônibus pra ganhar isenção precisa comprovar que não tem quase renda e é aposentado, ficaria magrinho em pouco tempo. E, se o que alegra os olhos é a fartura, o Papai Noel assim tão saudável, nos parece que as coisas estão meio lisinhas como a nossa carteira. Nada de doces e bombons, apenas duas balinhas. Meu filho perguntou também porque ele pediu um presentão e Papai Noel só deu duas balinhas. Como dizer que o Papai Noel do shopping era de mentirinha?

Sem trabalho na maior parte do ano, Papai Noel vai vender de porta em porta, livros e utensílios curiosos de cozinha. Brinquedos da temporada de Natal do ano passado. Mas não gostamos de abrir a porta para estranhos. É perigoso. Vai que Papai Noel queira uma caminha e banho quente? Se nos escondemos até dos nossos parentes?

Este ano, que Papai Noel venha. Mesmo com tantas dificuldades. Não sou mais criança, mas o espírito de Natal é preciso conservar. Se até isso se for e desaparecer, o que será dos amores platônicos, da esperança e da fé? Todas as noites vejo menos estrelas no céu. Alguém diria que é por causa da poluição. Eu digo que isso somente colabora. Na verdade, prefiro imaginar que são as pessoas que estão doentes.

Cada dia mais as pessoas perdem o espírito de Natal e convivem com o sofrimento como se isso fosse bom e normal. Cada dia mais pessoas perdem a esperança, esquecem sua capacidade de amar e desistem de acreditar. Não tem mais fé. Daí, eu pergunto: E, então, assim, ainda somos pessoas?

Com o Papai Noel pedindo um dinheirinho pelas esquinas, fica difícil acreditar. Complicado até defender para as criancinhas que o Papai Noel existe. Eu acredito nele. Mas uma luzinha não ilumina sozinha as ruas escuras. Vamos acender as nossas luzinhas ainda mais uma vez?
Isadora Pitanga
Enviado por Isadora Pitanga em 04/12/2007
Reeditado em 21/12/2007
Código do texto: T764431

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Sobre a autora
Isadora Pitanga
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 36 anos
74 textos (8582 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/08/17 04:25)
Isadora Pitanga