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O fim de Novembro era ainda tempo de azáfama. No alambique de cobre, cujo bojo reluzente assentava na fornalha, o bagaço de uva cozia interminavelmente. Do cano, que atravessava um comprido tanque de alvenaria, caía pingo a pingo, do outro lado, a água-ardente.
Provavam e faziam caretas, aventavam os restos dos copos, até que o pingo se transformava em fio e o líquido era recolhido num funil de zinco enfiado no gargalo dos garrafões empalhados pela paciência do António Figueiredo.
As bilhas do azeite chegavam da Vila, no dorso dos burros, que inteligentemente escolhiam com os cascos um caminho por entre as pedras que resvalavam ladeira abaixo.
Na loja, media-se e guardava-se em talhas de barro, parecidas na minha imaginação, àquelas aonde se escondiam os quarenta ladrões de Ali Babá quando planeavam os assaltos.
As borras turvas iam para um caldeirão enorme, suspenso na ponta de um gancho farrusco, cuja corrente se perdia no escuro incógnito.
Alteava-se o fogo, juntava-se soda cáustica comprada na mercearia do adro. Alguém tomava assento num tropeço de cortiça e, o dia inteiro, vira que vira com um pau, até que a mistura esbranquiçada se tornava espessa, era deixada a arrefecer, cortada em barras e arrumada em prateleiras.
De noite as geadas caíam e as manhãs acordavam branquinhas e frias. Até o cimo do castelo se embrulhava num manto cinzento.
Passara há pouco o tempo do reboliço das dornas e pipas, atravancando o terreiro de baixo.
Mil vezes esfregadas, acertados a martelo os círculos dos aros, vedadas a pez as tampas redondas e torneiras, embutidas as rolhas de cortiça, lá repousavam enfim na paz misteriosa da fermentação.
À medida que o frio se intensificava, os cânticos na missa dos Domingos, iam tomando maior alegria.
Eu, de véu branco entre os véus negros, saía da minha habitual abstracção, distraída com os movimentos do incensório, o palavreado inteligível do padre, que as senhoras muito sérias e compostas fingiam acompanhar nos missais, mesmo se analfabetas. Iam respondendo sabe-se lá o quê, num infindável latinório ora pró nobis....
Eu ajoelhava, juntas as mãos em frente do peito conforme me era ordenado, persignava-me com a destra, saltitava ora num pé ora no outro, enfadada.
Mas por este tempo, algo me atraía: as cantigas!
Cantigas que eu sabia, pois as lera nos livros do meu avô e não eram lamentos intermináveis, mas cantos alegres, cujo acento se prolongava muito nas últimas sílabas:
“Ó meu menino Jesus
Ó meu Menino tão belo
Logo tu foste nascer
No tempo do caramelo”
E, escorregando no caramelo, a água que embebia a terra saturada e os musgos, gelando os caminhos, voltava enregelada, sentando-me de mãos estendidas frente ás chamas da lareira.
Uma manhã havia em que a minha avó decretava que a Henriqueta pegasse numa escova de piaçaba, numa barra de sabão branca, e esfregasse a casa de ponta a ponta.
O Vicente armava com tábuas uma mesa comprida ao cimo da escada.
Minha avó abria as arcas e retirava as preciosas toalhas bordadas, ornadas de rendas finas.
Armava-se o “altar”, com pratos repletos de doces, douradas broas de mel, filhós, frutos e flores, garrafas de licores pacientemente macerados em garrafas cujos topos eram selados com cera.
A bisavó, na sua casaquinha com folhinho na cintura sobre saia rodada, tomava assento de rainha e esperava.
Minha avó, a roupa mais negra que nunca, remirava tudo, alisava aqui uma prega, compunha e ajeitava defeitos que só ela via.
Por fim, o padre chegava, montado num burro pardo, com o sacristão e os meninos de opa vermelha, palmilhando atrás.
Desmontava no terreiro, tirava do alforge um embrulho de pano branco, subia o balcão, onde nos enfileirávamos todos.
Enquanto o prior deitava um olhar de viés à mesa que esperava no interior, o sacristão desvendava a imagem de um menino nuzinho de dentro do pano e colocava-lha nas mãos.
Os meninos desencantavam a caldeirinha e o aspersório da água benta.
Fazia-se silêncio, colocávamos os véus e ajoelhados, beijávamos a imagem fria.
O padre abençoava tudo, murmurando monotonamente qualquer coisa que não se conseguia perceber.
A seguir, embrulhava de novo o menino, passava-o ao sacristão, que ia arrumá-lo no alforge e começava o alvoroço:
- Senhor prior faça favor de entrar! Prove disto, coma daquilo...
O senhor prior provava de tudo, se provava!
Ia abanando a cabeça, ignorando os guardanapos, limpava as mãos à batina e fazia sinal aos meninos, que iam levando o que restava nos pratos e os despejando nos alforges.
Provava o licor de laranja, de tirinhas cortadas muito finas, e dava estalidos com a língua.
Depois o de ginja, sempre abanando a cabeça, que sim, que sim, mas estava com pressa...
Corado, empanzinado como um cortiço, despedia-se das velhas, que o miravam com um sorriso contemplativo, as mãos cruzadas sobre as barrigas redondas.
Tão subitamente como chegara, assim partia o prior, o Menino no alforge repleto de doces, ao menos protegido pelo eterno pano branco e amarrotado, às três pancadas.
O padre de preto tomava assento sobre a albarda do burro e o sacristão e os meninos de opas vermelhas seguiam-nos palmilhando, pelos descampados agora no lusco-fusco, esteva aqui, tojo acolá, enquanto a geada caía, cobrindo tudo de um branco uniforme e frio.


Lisboa, 30/11/2003


Maria Petronilho
Enviado por Maria Petronilho em 01/12/2005
Reeditado em 23/09/2006
Código do texto: T79796
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Maria Petronilho
Almada - Setúbal - Portugal, 64 anos
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