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O Dono da Festa

Elas riem, correm, pulam, fazem barulho...
Eu não.
Umas parecem ter a minha idade, outras até um pouco menos, têm as maiores também.
Roupas limpas, cabelos penteados, garanto que não sabem de modo algum o que é  fome – de a  barriga doer,  a mão tremer e a cabeça ficar girando, elas não sabem...
Eu sei, e como.
Andam de mãos dadas com suas mães, recebem carinho, sorrisos das pessoas que passam por elas.
Eu, jamais soube  o que é ter mãe, carinho e sorrisos. Risos só dos que vêem graça no pedaço de gente que eu sou.
Só sei que é época de Natal porque a cidade se ilumina, fica bonita, toda decorada. Até as pessoas ficam diferentes, mais sorridentes...
Outro dia, em frente a uma loja, vi um cara vestido com roupa de Papai Noel. Ele colocava as crianças no colo, conversava, distribuía doces. E eu ali, no canto da porta, observando. Acho que de tão magro, fiquei invisível, porque ninguém me viu, nem o tal Papai Noel. As crianças faziam fila para poder chegar perto dele, e quando elas iam embora, até pintava uma pequena esperança de que ele me visse e me chamasse, fizesse carinho, me desse colo e doces. Nada, nem uma olhada de rabo de olho. Fui até o chafariz da praça, molhei os cabelos e penteei com  a ponta dos dedos, esfreguei as mãos molhadas nas roupas para ver se pareciam mais limpas. Voltei para a porta da loja, e nem me encostei, fiquei lá, olhando para ele, pelo resto da tarde.  Não recebí sequer um sorriso, um aceno...
Fiquei com vontade de chorar, mas eu não chorei! Caminhei rapidamente, sem ter pra onde ir (como sempre)... Pisadas fortes, pra mandar embora todo aquele sentimento de dor que me consumia o peito, vontade de gritar para o mundo que eu existo!
E esse caminhar sem direção conduziu-me até a porta da Catedral. Portas abertas, entrei, sei lá, deu vontade, acho que naquele momento o que eu queria mesmo era me refugiar... Ao observar mais atentamente, pude perceber que dentro da igreja não havia a imagem do Papai Noel, nem renas ou bolas de Natal.
Havia sim, uma decoração diferente de tudo o que  eu tinha visto nas fachadas das lojas e das casas: alguns animais e algumas pessoas ao redor de um Bebê, vestido de apenas uns trapinhos. Todos olhavam carinhosamente para o Bebê, um olhar doce e carinhoso. A caminha em que Ele estava, era feita de palha, bem parecida com o monte de capim que eu durmo, lá  embaixo da ponte. Cheguei mais perto, estava me sentindo bem melhor. Parece que aquelas figuras feitas de isopor estavam me aconchegando, a mim e ao Pequenino. Deu vontade de acarinhar a cabeça Dele,  e eu o fiz. Dei até um beijo em Seu rostinho...
Um senhor, com certa idade, olhar simpático, aproximou-se de mim e também parecia envolvido por aquela decoração diferente. Ele pôs a mão na minha cabeça, e disse-me, com voz calma e serena, que aquele bebê era o Menino Jesus. E que Ele devia estar muito feliz por eu ter  comparecido em sua casa, próximo ao dia do seu aniversário. Aí ele me explicou que as pessoas comemoravam no Natal o dia do nascimento de Jesus.
Agora observo as crianças felizes,em ver o Papai Noel no Natal... Alegres, saltitantes...
Mas quem realmente  é o dono desta festa, é quem me enxergou e me acolheu em sua casa.
Isso, "eu" sei!
Catia Schneider
Enviado por Catia Schneider em 07/12/2005
Reeditado em 07/12/2005
Código do texto: T82110
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Sobre a autora
Catia Schneider
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 38 anos
147 textos (33309 leituras)
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Catia Schneider