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MAGIA DO NATAL

MAGIA DO NATAL
Neli Neto

Lembro bem quando criança, da magia do Natal.

Cresci com minha mãe sempre dizendo: - "se você não for boazinha o ano inteiro, não estudar, não for obediente, não mentir, não ser malcriada, não respeitar os mais velhos, Papai Noel não vem no Natal e nem trará os presentes pedidos em sua cartinha."

E eu criança aguardava, obediente que só, com o coração cheio de esperanças, me empenhando em seguir tudo à risca, só para ter a alegria de sentir sua existência na noite de Natal.

E quando chegava novembro, com a certeza de ter sido boa menina já preparava minha cartinha e a dava para minha mãe ao Papai Noel entregar.

Dezembro chegava com as férias escolares. E era aí que a minha vida se transformava numa alegria tão grande e turbulenta, que nada mais perturbava minha espera pelo Natal.

Era um mês mágico, cercado de novidades. Sempre no dia 15 mamãe pegava a nós crianças e saia rumo às compras. Eu já até sabia onde iríamos. Ou na Sears, em Botafogo ou na Mesbla, no Largo do Passeio; lojas de departamentos onde tudo era encontrado.

E lá nos fartávamos. Ela, comprando as nossas roupas e calçados anuais. A gente, se deliciando com os brinquedos e a grande expectativa de tirar retrato junto ao Papai Noel. Depois o melhor de tudo, o lanche oferecido regado a sorvete farto na Confeitaria Colombo, antes de retornamos pra casa, carregados de embrulhos.

Todo ano era a mesma coisa: do esperar contando os dias; das compras do fim do ano; da alegria de armar o presépio; do decorar a casa e a árvore com seus enfeites e luzes coloridas; da ceia bem farta na mesa sem nada de luxo e riqueza, feita somente com amor e humildade; da missa do Galo à meia noite brindando o nascimento de Jesus e do colocar sapatos na janela para esperar Papai Noel.

Afinal de contas tinha sido uma boa menina, boa filha, irmã, neta, sobrinha, amiga e passado de ano na escola sempre com média entre os três primeiros lugares.

E no amanhecer do dia 24 começava a festa, com grande expectativa. Às 18 horas, minha mãe nos arrumava com as roupas novas compradas. Nós crianças ficávamos que nem pirilampos, brilhando pra cá e pra lá na espera que a noite terminasse e chegasse logo, o dia de amanhã.

Após meia noite, depois da Missa, ceávamos ao som mavioso do disco "Harpas da Cristandade" de Luís Bordon. Ao terminarmos começava então a romaria dos cumprimentos dos vizinhos, sinceros, hospitaleiros, num momento de grande amizade, indo de casa em casa, num abraço coletivo, brindando com taças de vinho, desejando um Feliz Natal.

Depois da ceia, hora de criança ir para a cama. E a gente ia, obedientemente dormir, sonhando com os presentes que encontraríamos ao acordar, no despertar da manhã. Sonhos coloridos de esperança, do acreditar em algo mais.

Quando acordava no dia 25, bem cedinho já saia correndo da cama indo em busca do que estava depositado na árvore de Natal. Era uma festa sem igual, a minha melhor parte, a concretização de um ideal. O Natal sempre foi melhor que todas as festas já vista em minha vida infantil, em minhas secretas esperanças.

Saia correndo pra vila, pra mostrar meus pequenos triunfos como verdadeiros troféus a todos os meus amigos.

E ficávamos juntos felizes por todo o restante do dia, esquecendo até de almoçar, numa sintonia perfeita, trocando nossas lembranças, partilhando a brincadeira. Não havia inveja, discórdia, nem qualquer disputa por nada, porque tudo ali era igual.

Esperávamos o ano inteiro, pela chegada dele, o Natal!

E hoje percebo com tristeza que toda esta magia acabou! Silêncio total nas ruas. A igreja celebra sua missa não mais meia noite e sim às 21 horas, acabando a tradição. As ruas vazias de gente, de carro, de ônibus, virando cidade fantasma. Por força da violência existente, todos  se trancafiaram dentro de suas casas.

E dentro de muitas casas a festa tradicional antes consagrada de Confraternização Mundial na Fé, ou a maior Festa da Cristandade, hoje está completamente alterada.

A ceias foram mudadas, por pura economia. Não mais as reuniões familiares com a comilança própria da época. Agora são comemoradas em cotização, cada um levando um prato, para ficar mais barato. E em muitas, somente churrasco regado a cerveja ao som de carnaval, com direito até a fogos de artifícios, antes somente libertos na chegada do Ano Novo.

Presentes distribuídos em amigo oculto, pois só assim todos ganham sua lembranças no valor estipulado. Com todos os preços aumentados, Natal passou a ser só comercial.

O Papai Noel então perdeu a sua crença e o seu emprego de distribuidor de presentes de Natal.

E no dia seguinte nem risadas, nem a alegria contagiante das crianças se escutava mais. Ou não existiam as crianças ou então nada ganharam, era só o que eu pensava.

O silêncio era maior ainda, chegando a ser sepulcral. Com o medo estampado no rosto ninguém sai mais de dentro de suas casas.

E eu só me sinto bem triste, pois tudo em que eu mais acreditava, na magia contagiante que era a noite de Natal, hoje se encontra enterrada, morta, completamente acabada, só existindo em lembranças ou pequenos sonhos, bem dentro de nós.

Tudo perdeu sua razão de ser, nada tem mais valor. A tradição terminou, se desvanecendo no ar.

Em mim, só restam as lembranças passadas, aquelas da minha infância, que ainda permanecem bem vivas, dentro da minha saudade.

Neli Neto
26.12.2003
13.08hs RJ

 
 
Neli Neto
Enviado por Neli Neto em 08/12/2005
Código do texto: T82713

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Sobre a autora
Neli Neto
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 64 anos
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