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As Desventuras Amorosas de Marcos, o Escravo.

 
As Desventuras Amorosas de Marcos, o Escravo.
(memórias)

Adolpho J. Machado.
 
Meus bisavos maternos receberam certa vez a visita de cortesia de um fazendeiro vizinho. Veio acompanhado da esposa e da mucama.
 Marcos, um crioulo(*) da fazenda, com a devida anuência da Sinhá visitante, ficou passeando pelas redondezas e conversando com a mucama, mostrando-lhe algumas dependências da sede e esse passeio preencheu a maior parte das horas em que os visitantes permaneceram na casa.
Durante todo esse tempo os dois jovens trocaram confidências e se deram, mutuamente a conhecer, o que encorajou Marcos a ir mais além e declarar à moça, sua intenção de tê-la como namorada.
Apesar de saber das dificuldades que certamente surgiriam em um relacionamento entre escravos, a moça cedeu.
Após a saída dos visitantes, Marcos levou ao conhecimento de meu bisavô as suas intenções, pedindo-lhe que procurasse comprar a mucama.
Meu bisavô explicou-lhe que a moça também era crioula, além de ser a mucama da casa e por isso o outro fazendeiro jamais a venderia.
Para não contrariar Marcos, meu bisavô fez a proposta e, confirmando o que ele dissera ao rapaz, o outro fazendeiro  recusou-se em vender a moça  e fez a proposta contrária: Compraria o escravo.
Meu bisavô disse que não era  seu costume vender escravos. Comprava-os por não haver outro jeito de adquiri-los para cuidarem da fazenda, mas se Marcos quisesse, poderia ir para a outra fazenda, sem problemas.
Marcos sabia ler e escrever, o que aprendeu com minha avó e suas irmãs. Por conseguinte, era o chamado "escravo de dentro"(**).
 Dada a impossibilidade de outra alternativa, o rapaz aceitou ir para a outra fazenda, para se juntar à namorada.
Com o tempo meu bisavô soube que ele foi para o eito como qualquer outro escravo, sem possibilidade de produzir nada, pois nunca havia desempenhado serviços mais brutos.
O pobre do rapaz adoeceu logo  pelos maus tratos recebidos. Chegou inclusive a apanhar do feitor, amarrado num “tronco”.
Até que um dia ele reapareceu na fazenda de meu bisavô; Estava doente e todo machucado!
Havia fugido da outra fazenda!
 Minha avó e irmãs que eram ainda bastante jovens cuidaram dele como se fosse da família.
Aliás, como todos os escravos eram tratados na fazenda.
Mas com o tempo notaram que ele estava perdendo a razão: Andava se escondendo atrás de portas com um machado às costas, amedrontado e amedrontando o pessoal da casa!
Acreditava-se que a fuga da outra fazenda lhe emprestara essa idéia de perseguição.
Até um determinado dia em que minha avó e uma das irmãs foram dar uma volta pelo pomar e encontraram seu corpo pendurado em uma das árvores!  Havia se enforcado!
Coisas da época ; Se fosse hoje, ambos fugiriam e viveriam em paz em algum lugar...
Quanto à moça, nunca souberam o que aconteceu com ela.
Tenho a impressão de que meu bisavô cortou relações com o vizinho para sempre e nunca procurou saber de mais nada sobre o assunto.
Fim.
 
Observações no texto:
(*) Termo usado para designar o escravo nascido e criado na mesma fazenda.
(**) Designava o escravo que possuía alguns conhecimentos a mais que os outros e fazia pequenos serviços, auxiliando também na administração da sede da fazenda.
 
 

Adolpho José Machado
Enviado por Adolpho José Machado em 18/01/2006
Código do texto: T100294
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Sobre o autor
Adolpho José Machado
São Paulo - São Paulo - Brasil, 87 anos
32 textos (2148 leituras)
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Adolpho José Machado