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MORTE E VIDA, DÉBORA CRISTINA

       Mais de uma vez - e acho que assim é com todo mundo – pensei em escrever minha autobiografia autorizada, apesar de a moda dizer que o que vende é a não autorizada. Como não vivo disso, a moda não me diz muita coisa. O que vi, passei e vivi, terminaram por confirmar em parte aquela história de que pra viver a gente mata um leão por dia. Pelo menos. Do pobre felino, não sei. Mas sei que pra viver, tenho tido que matar uma eu mesma – e por vezes, mais de uma – a cada vinte e quatro horas.
       Com estas e outras, concluí que tenho que ir mantendo em funcionamento dentro de mim, um cemitério e uma maternidade. A cada Débora que impiedosamente vou assassinando, vai-se parindo uma outra. Há, sem dúvida, um tempo destinado à agonia e ao coma da moribunda. E é, neste mesmo tempo, e do sangue desta que vai morrendo, que a que nasce vai se alimentando. Algo como se o sangue que escorre da primeira fosse sendo canalizado diretamente para o cordão umbilical da segunda.
       Houve tempos em que eu me acreditava uma espécie de fênix,que vai renascendo das cinzas, como a mitológica. Com o tempo concluí que o processo não é assim tão simples. Em primeiro lugar porque a que bate as botas não tem morte súbita e imediata. Sofre consideravelmente por um longo tempo, numa espécie de período sabático, revendo e revirando coisas antes de dar o último suspiro. Concomitantemente, o feto que vai crescendo, alimentado pelo sangue da quase morta, vai absorvendo parte dos feitos, desfeitos e desafetos da primeira antes que o alento o traga à luz e ele possa respirar seus próprios ares e ter suas próprias vontades.
          Assim que não há uma fênix renascida , no máximo uma fênix transformada. Encerrado o mea culpa do primeiro, dada a extrema unção e liberado o último e doloroso suspiro da moribunda, começa então o trabalho de parto da nova figura. Assim como o processo de morte da primeira é longo, doloroso e lento, o mesmo se dá no processo de nascimento da segunda. Há todas as contrações, no movimento de ir e voltar que corresponde à indecisão do ir ao encontro do mundo desconhecido ou voltar para o lugarzinho que, embora apertado e onde já não caibo mais, pelo menos me é conhecido e familiar. Dura um bom tempo essa dúvida, de vez que a nova criança veio sendo alimentada pelos medos da velha que morreu e continua a ser alimentada pelas lembranças deixadas pela dita cuja.
         Bom lembrar que os defuntos, mesmo depois de enterrados, deixam lembranças vivas nos que a eles sobrevivem por um tempo considerável. É fato que tais lembranças, após o ritual do enterro, seguem intensas e presentes por um período razoável antes que a poeira dos dias venha lentamente cobrir-lhes e tirar-lhes o viço. A propósito do enterro, é importante que seja feito da forma que lhe é devida, fiel ao protocolo de praxe, com direito a velório, funeral em ambiente apropriado, um certo ar de desterro e o choro, que afinal, lava a alma da dor da partida. Não podem também ser dispensados os punhados de terra lançados sobre o caixão que deve conter, além do corpo, as coisas que lhe foram caras : fotografias, cartas, objetos de época, lista de amigos e inimigos e outras do mesmo tipo. É preciso que a morta, a exemplo dos faraós, carregue consigo, seu baú de tesouros, de vez que para aquela que nasce não terão valia nenhuma, e podem inclusive ocupar-lhe um espaço vital. Feito o enterro, lançada a campa e colocado o epitáfio, é preciso voltar aos cuidados com a neonata.
         Muito embora os bebês requisitem tempo e cuidado, é certo que este é um momento fragilíssimo, já que ainda se sofre o luto da primeira e, geralmente, há outros processos de morte em andamento bem como outros fetos, decorrentes destes, sendo gestados. Não é um trabalho simples.
É aí que entra então o definir prioridades. O bebê deve vir em primeiro lugar de forma a que o trabalho resulte positivo, sem influências outras, para que nasça forte e destinado a crescer sadio. A ele não se dispensam também as flores, diferentes, evidentemente, daquelas que foram dadas à falecida e, a exemplo do epitáfio da primeira, um cartão de votos para a segunda. É preciso, também, atentar cuidadosamente para a vestimenta do bebê, de forma a que não sufoque de calor e tampouco não congela por falta de agasalho apropriado.
          Assim é que, então, fazer registros de memórias e escrever minha pretendida autobiografia vem se tornando trabalho um tanto quanto complicado, de vez que tanto mais sigo me construindo, o faço sobre os escombros daquilo que venho tendo que destruir. Desse modo, o que era parte de minha construção humana há pouco esfacela-se em nada e o que está em pé não tem tempo de vida preciso. E as minhas memórias, dia após dia, vão se tornando exatamente isso: memória. Posto isso, imagino que haverá, no próximo texto, uma Débora diferente da que escreveu este. E que possivelmente não se lembrará de todos os detalhes.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 06/04/2005
Código do texto: T10069

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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