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TUAS MÃOS

         Ah! as tuas mãos...Mais de uma vez já te falei de como me agradam, do quanto me são caras. Mais de uma vez vi teu olhar meio admirado, meio sem graça, meio desentendido, de quem pensa: “Mãos: ora, o que há de mais em minhas mãos?” . Respondo-te fácil: são únicas. Não há nada como as tuas mãos.
         Tuas mãos me chamam desde muito. Desde quando nada mais me chamava. Desde quando meus ouvidos já não ouviam outros chamados. Tuas mãos não: chamavam-me e eu escutava perfeitamente. Um chamado eloqüente, ainda que silencioso. Chamavam-me ostensivamente, ainda que tu mesmo não o soubesses. E eu as ouvia, compreendia-lhes a fala e atendia prontamente.
          Olhava tuas mãos caminhando pelos ares, em algum gesto expressivo, e entendia o que elas diziam. Terás que me perdoar pelas muitas vezes em que não ouvia tuas palavras: é que estava a ouvir tuas mãos. Ouvia os sinais em cada pequena linha, em cada curva, no desenho das unhas, a perfeição das proporções. Podia ouvi-la e entender seus sinais com precisão.
          Em um determinado momento, acho que passaste a perceber que eu as ouvia, ou quem sabe compreendeste que eu te percebia através delas. E então, um pouco intimidado com minha invasão de privacidade, tirava-as por vezes do alcance dos meus olhos. Tarde demais. Eu as ouvia de qualquer forma. E, acho que não erro em dizer, elas gostavam das conversas que mantínhamos.
          Mas houve um dia em que, inadvertidamente (ou não?), a ponta dos teus dedos de leve, muito leve, encostou nos meus. Neste ponto, emudecemos. Um segundo ou menos. E corremos de volta a uma posição mais segura. Inútil. As mãos agora haviam se falado diretamente. Sem intermediários.
          Mais um tempo depois, e ousaram se tocar. E descobri que, mais que ouvir e entender tuas mãos, eu agora sabia na minha pele cada pequeno detalhe da tua mão. Como um carimbo. Uma tatuagem. E mais do que isso: tuas mãos agora eram parte do meu corpo e foi com ele que passei, então a ouvir e compreender ainda com mais força as mensagens que me mandam as tuas mãos.
         Compreendes agora o que digo? Tuas mãos são únicas porque me sabem tanto quanto as sei desde sempre...
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 07/04/2005
Código do texto: T10191

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154025 leituras)
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Débora Denadai