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TUDO NO SEU DEVIDO LUGAR

        Ouvi essa história de uma amiga há algum tempo.  Ela me contou, com certa tranqüilidade, que rompera com o namorado depois de seis anos juntos.  A surpresa não foi o rompimento, coisa mais que normal, principalmente nos dias de hoje. Tampouco a tranqüilidade e o tom de conformismo. O que me espantou um pouco foi a iniciativa dela em terminar o longo namoro, embora ainda amando o falecido.  E a isso, agregue-se o fato, de que junto com a primeira notícia, vem ligeirinha a segunda: minha amiga resolveu casar com outro cara.
        Não é preciso dizer que fiquei pra lá de muda por algum tempo.  “Peraí...você gosta do ex-namorado, cuja história já dura anos, rompe com ele e decide casar com outro cara?  Com mil trombas de mamute, nem pensando muito dá pra entender... O cara te bateu, espancou sua mãe, matou seu irmão...o quê?”
        Não, caro leitor, segundo ela, a explicação é muito mais simples: “quero casar, cansei de esperar o dito cujo querer também, achei alguém que quer casar comigo. Vou casar e pronto.” Alguém aí com uma cabeça mais brilhante do que a minha pode até achar muito lógico, mas a minha cultura antiquadinha ainda me diz que só dá pra casar com quem a gente goste. E goste muito.  E mesmo assim, contas a pagar, ex-casamentos e agregados, problemas com encanamento, barrigas e outros assemelhados encarregam-se com certa eficiência de transformar o amor de filme dos anos sessenta virarem depressinha num cinema catástrofe da pior qualidade.
          Desnecessário dizer que a conversa se prolongou muito, graças às inúmeras perguntas e ponderações da romântica inconformada do lado de cá. Eu insistia em que é necessário muito amor pra segurar uma relação e ela, do lado de lá, dizia que apesar de todo o amor que o ex-namorado dizia ter por ela, não se decidia a assumir uma vida em comum. Eu voltava à carga, dizendo que talvez ela devesse considerar que melhor uma relação sólida sem casamento do que um casamento sem nenhuma base afetiva. Ao que me veio a resposta pra lá de antiga: isso se constrói com o tempo.
         Não resignada, passei a ponderar, do alto de dois casamentos terminados, que se amando muito já é difícil segurar a barra, imagine sem amor nenhum. Resposta: “viu? você foi atrás de amor, e deu no que deu...” E é lógico que fiquei com a maior cara de tacho.
         Argumentos daqui, argumentos de lá e ela permaneceu irredutível. Ia casar-se  com o tal sujeito e ponto final. Segundo ato: o ex-namorado liga, bate na porta de madrugada desesperado, toma pileques homéricos, descabela-se em mesas de boteco, chama as amigas e pede pinico, mas casar, neca.
          Resumo da ópera: a moça casou com o novo namorado em tempo recorde. Voltei a encontrá-la um tempo depois, levou-me as fotos da cerimônia maravilhosa, nos moldes dos figurinos; da lua-de-mel de fazer inveja a qualquer freqüentador assíduo das páginas da Caras, da casa mobiliada de acordo com as revistas de decoração e tudo aquilo que faz um belo casal de propaganda de iogurte. E estava com cara de feliz. Perguntei sobre o ex. Pensou um pouquinho, fez aquela cara de nostalgia de quem lembrou do pudim que a mãe fazia quando era criança e disparou: “Coisa do passado...e eu ia estar até hoje esperando que ele se decidisse, sem falar naqueles altos e baixos de gente muito apaixonada: será que ele liga, será que ele vem, será que a fulana do trabalho está dando em cima dele...será? será? Fiquei livre de tudo isso, casei como queria e não tenho sobressaltos. Não dá pra ter tudo ao mesmo tempo. Escolhi.  Tudo está como deve ser,  no seu devido lugar.”
          Talvez realmente as coisas pra ela estejam mesmo assim: tudo no seu devido lugar. Mas ainda tenho cá comigo a impressão de que, em algum momento ela comece a se perguntar o que é o tudo e qual é o devido lugar. Ela teve que escolher entre um sentimento real e a satisfação de um desejo, de um sonho. Em algum momento, o sonho realizado pode mostrar a porta aberta pra uma outra necessidade não realizada e esta necessidade, então, virar um sonho e o antigo sonho, de repente, não ter mais lugar no sonho novo e quem sabe até, transformar-se num peso, num pesadelo. Talvez nada disso aconteça e ela , acomodada à nova realidade, e com medo de sonhar, encontre desculpas e explicações para justificar a vida... Mas a verdade, é que mesmo que assim seja, vai ficar sempre a sensação de que faltou coragem pra ir atrás do sonho e juntá-lo com a realidade. Faltou coragem pra revirar as coisas tirá-las do seu devido lugar...
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 07/04/2005
Código do texto: T10197

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai