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A noite




O grande poeta Alceu Valença sintetiza o que se escreve ou se pensa da noite nos seus versos sobre a solidão. Sim. A solidão é fera/É amiga das horas/Prima-irmã do tempo/E faz nossos relógios caminharem lentos/Causando um descompasso/No meu coração/A solidão dos astros/A solidão da lua/A solidão da Noite/A solidão da rua.
A genialidade do poeta está em correlacionar o tempo, o relógio lento, a solidão e a noite. Pois a noite é o ponto de encontro entre a biologia dos ritmos chamados de circadianos – em torno de 24 horas, em torno de um dia – dos ritmos do corpo e da interioridade.
É como se as nossas vidas internas e externas se sincronizassem numa linha acima do horizonte, onde pontifica o sol, a luminosidade e a claridade, com outra abaixo do horizonte onde é majestosa a noite, a escuridão e os mistérios escondidos do coração.
De dia, o sol, a luz, a mesma luz que Goethe – que tanto estudou as cores – pedia ao falecer. De noite, as sombras, o medo, o pavor, o terror. Para o escritor alemão as cores seriam o choque entre a luz e as trevas.
A biologia tem nos ensinado muitas coisas e junto à neurociência têm-se dado as mãos no estudo dos ritmos biológicos. Há horas onde os hormônios, como o cortisol, são secretados mais ou menos, a temperatura aumenta ou diminui, o sangue flui melhor ou pior, células se multiplicam com mais ou menos velocidade, o coração acelera ou desacelera. Há mais de cem alterações no organismo, conforme o dia ou a noite.

No silêncio das madrugadas as emoções explodem
em êxtases de amor ou violências do ódio.

Há algo de mitológico na noite. Filha do Caos, na mitologia grega, traz sempre conosco a idéia da separação do dia. Pouco importa, aqui, analisar as noites do círculo polar ou do equador. Vale, para os sentimentos e emoções, os versos de outro gigante, Raul Seixas: “E quão longa é a noite/A noite eterna do tempo/Ser comparada ao curto sonho da vida/Chega enfeitando de azul/Guardando do sol, seu beijo em comum”.
A noite pode ser longa e quase interminável por conta de produções bioquímicas no cérebro de serotonina, noradrenalina e acetilcolina. A cabeça química favorece o aparecimento da cabeça sentimental. Desliga-se, na noite, o interruptor do imanente e surge o transcendente. Apaga-se a luz do objetivo e entra em cena o temor do subjetivo.
As crianças, os sismógrafos da ontogenia e da filogenia, muito cedo descobrem os mistérios da noite. Já no segundo ano, podem recusar irem sós para cama. Mas é no terceiro ano de vida quando começam os medos específicos da escuridão. Começam a sonhar com ladrões, animais, seres fantásticos, agentes destruidores em pesadelos de angústia de separação. Deixar os outros membros da família e enfrentar a solidão é como sentir-se abandonada. A escuridão da noite, a incerteza, associa-se aos ladrões, aos fantasmas, aos bichos dos porões. Há sempre a idéia de destruição, de desamparo, de coisas devoradoras. A semelhança com os versos de Alceu Valença é evidente: “A solidão é fera/A solidão devora”. A noite é a boca sinistra dos devoradores.
Quando crescemos e fugimos da solidão da noite buscamos a intimidade “hora do lobo”. Intimidade por sinal demais perigosa. No silêncio das madrugadas, as emoções explodem em êxtases de amor ou violências do ódio. Os casais se amam no entendimento ou se desintegram no desentendimento. A culpa fica por conta da ansiedade da noite.
Dizem os cientistas que a ansiedade é devida, em parte, a uma substância neurotransmissora chamada serotonina. Os novos avanços da ciência médica nos ensinam que a ansiedade aumenta durante a noite. Os poetas, os escritores entendem disso mais que nós psiquiatras. Sabe-se: as tentativas e os suicídios acontecem mais à noite. Os crimes passionais. Os desenlaces e os enlaces. Afinal, ansiedade é sinal de vida. E de morte.
O drama da noite é tão patente que o cair da tarde torna-se, para alguns, nostálgico. Lembro-me, agora, de uma música cantada por Cauby Peixoto e por Ângela Maria: “Tarde Fria”. Como também me recordo de uns versos de Vinícius onde ele diz que a tarde é a máscara da noite. Genial. Há um trecho assim:

“Por que vens, noite? Por que não adormeces o teu crepe?
Por que não te esvai-espectro neste perfume tenro de rosas?
Deixa que a tarde envolva eternamente a face dos Deuses.
Noite, dolorosa noite, misteriosa noite!”

Em realidade, o cair da tarde é prenúncio de depressão para muitos que, como diz Van-Den-Berg em “O paciente fenomenológico”, vêem ruas estreitas, telhados cinzentos, saudades do passado, os amores que poderiam ter sido e não foram. Com o anoitecer, as angústias ressonam no corpo.
Só resta os bares da vida. Entusiasmo no início. Entusiasmo ou tristeza no fim da noite. Quantas pessoas se enchem de felicidade na esperança do dia seguinte? E quantas se frustram na claridade, quando se foram os devaneios e as fantasias, dizem, da serotonina da noite? – É esse o ritmo bio-psicossocial da vida: tristeza, esperança, depressão, quase vida, pseudo-vida, vida, quase – morte, mini-mortes, morte total. A noite intermedia o processo entre o ocaso e o nascer do sol. Do nascer do sol ao ocaso do dia, fica a ilusão do concreto, do trabalho, da tentativa de sobreviver. A ilusão do concreto, do dia, se opõe à ilusão do subjetivo, da noite.

Angustia é sinal de vida. E de morte.

A noite, como a morte, traz a ressurreição da vida. A ausência de cores que o preto, o escuro representa é a dialética da necessidade de cores múltiplas no dia seguinte. Daí os muitos perfumes, homens e mulheres coloridos na busca desesperada dos encontros da noite. A germinação se faz noturna através dos frutos caídos na terra. A noite é o fundo do poço, a profundidade da terra onde, após a morte, há o renascimento, pelo menos no sentido da esperança.
Os versos de Augusto Frederico Schimidt expressam no melhor possível, o reviver da vida nas angústias da noite:

“Perfumes velhos das coisas que se encendeiam obscuramente.
Das coisas invisíveis que estão ardendo esta hora;
Perfumes rubros, que brilham, que ascendem os desejos.
Que vibram, que tremam que agitam os sentidos”.

A noite é como o sexo e a morte.













Maurilton Morais
Enviado por Maurilton Morais em 23/01/2006
Código do texto: T102910
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Sobre o autor
Maurilton Morais
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 69 anos
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Maurilton Morais