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O Arauto da Dor

Quando foi que o ouvi pela primeira vez? Já não me recordo... Tampouco das outras vezes. Lembro-me somente dos sinais: A inquietação que assolava a alma sem razão aparente, o medo do nada, a ansiedade excessiva. Ainda que em mais de uma ocasião tais sentimentos tentassem prevenir-me da tragédia iminente, eu jamais consegui identificá-los a tempo. Os “proclamas” do Arauto sem rosto atingiam-me repentinamente, de maneira cruel e impiedosa, informando apenas que era o momento de sofrer novamente, de uma nova perda, de uma nova dor, sem margem para protestos ou qualquer reação de defesa. Restava somente a resignação, o aceitar dos fatos, digerir a dor e tentar outra vez recomeçar. Acostumei-me a perder... Todavia, algo em mim tentava resistir, revoltava-se com a injustiça dos acontecimentos que culminavam sempre em perda irremediável. Passei a questionar minhas convicções, rever minha crença, analisar minha postura diante da vida, e minha atitude em relação ao meu semelhante. Reavaliei meus sonhos, meus ideais e esperanças. Nada encontrei que justificasse a repetição da dor e da perda. E o tempo passou. Durante anos o Arauto silenciou... Eu o esqueci, assim como a dor pelo que havia perdido. Recuperei a auto - estima, a confiança do viver, acalentei novos sonhos e esperanças...
O arauto se fora, não haveria mais proclamas, nem os conhecidos sinais.
Concluí enfim, que pagara minha dívida, embora não soubesse porque ou para quem. Falava-se em vidas passadas, em missão por cumprir, em um “carma” e inúmeras outras deduções, que a mente racional e lógica do geminiano se recusa a aceitar e entender.
Optei por acreditar nas circunstancias adversa,  em minha incapacidade de programar o futuro, o amanhã... Ao menos, era mais simples administrar esta conclusão, e lutar por uma vida melhor. Senti-me feliz novamente... A vida era bela, apesar das rugas, dos cabelos brancos e da situação econômica quase sempre delicada.
De certa forma, sentia-me recompensado por todas as dores e perdas do passado...
Recebera um bem maior, que acalentava meu corpo, supria de paz minha alma, e saciava minha sede de carinho... Estava feliz assim. Comecei a fazer poemas, textos e crônicas de amor, de dor e saudade, relativas a um passado distante, esquecido no tempo.
Passaram-se dez anos.
Não notei os sinais... Não pressenti a antiga e esquecida inquietação, a insônia, o desespero sem causa aparente. Tardiamente ouvi o som dos proclamas, o ritual já conhecido, e novamente a dor da perda. Desta vez, definitiva, sem direito ou chance de lutar para reverter ou amenizar o fato...
Não!! Um grito incontido de revolta e indignação explode em meu peito! Não aceito mais, exijo uma explicação da Vida, de minha crença, de alguém! Onde foi que errei, o que fiz para merecer tal castigo? Preciso saber! Não haverá conformismo diante desta injustiça!.. Impassível, sem pronunciar uma única palavra, o Arauto revela-me sua face e seus olhos me fitam... Perplexo, emudeço diante da Luz! A compreensão me invade tal qual uma avalanche de bálsamo, cura minhas feridas, remove cicatrizes, desfaz minhas dúvidas e mostra-me o caminho da Verdade... Enfim, a paz.
   
Carlili Vasconcelos
Enviado por Carlili Vasconcelos em 24/01/2006
Código do texto: T103356
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Sobre o autor
Carlili Vasconcelos
São Paulo - São Paulo - Brasil, 67 anos
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Carlili Vasconcelos