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A DESCOBERTA DO HOMEM-ENCICLOPÉDIA

Por alguma razão científica, mística, psicológica ou sei lá de que departamento parece que estou predestinada a estar o tempo todo  metendo meu bedelhinho nas praias masculinas. Quando não me vejo trabalhando em áreas essencialmente de interesse masculino, estou ouvindo as histórias que algum amigo (e neste caso o masculino não é genérico – é masculino mesmo)  me conta, sem que eu (apesar de mulher, não tenha perguntado nada) e ainda pede opinião. Afora isso tudo, andei descobrindo que meus leitores mais assíduos na rede são, em noventa por cento dos casos, criaturas do sexo masculino. E a maioria, quero crer que, não por delicadeza, parece gostar do que escrevo.  Devo dizer que isto me parece lisonjeiro, dado que escrevo muito mais poesia do que prosa e que aprendi de pequenininha que homem mesmo não é chegado nessas viadagens poéticas. Bom deixar claro que isto é o que eu ouvi dizer, não a minha opinião.
Há coisa de dias, navegando pelas ondas internéticas, acabei lançando âncora numa praia que me parecia interessante, de vez que era cheia de crônicas que passeavam de um lado a outro da orla. Como ando querendo ver se aprendo a escrever em prosa (e olha que para chegar até esta linha, estou suando em bica), e alguns títulos rapidinho me chamaram à leitura, resolvi fazer uma pequena abordagem, assim meio inocente e sem maiores intenções, e quem sabe poderia, além de aprender com alguém mais experiente que eu no gênero, ganhar aí algum assunto para minhas futuras crônicas. Duas despertaram-me a curiosidade: O homem bonzinho e seus colóquios e Mulheres bonitas. Ambas escritas por um homem.
Como os assuntos homem, mulher e relacionamentos (associados ou em separado) muito me interessam, achei que seria de bom tom dar uma espiada nas opiniões do rapaz sobre os dois casos. Em geral, gosto de como os homens pensam: são muito práticos, e quando resolvem ser espirituosos, são imbatíveis. Mas lamentavelmente,  a despeito do humor interessante e por vezes ácido do autor, o que deu pra ver foi alguém que classifica pessoas. De cara, já fiquei meio de má vontade.
Já escrevi em outro momento que não há homens perfeitos. Da mesma forma não há mulheres perfeitas.  Pareceu-me um tanto inapropriado, pra não dizer ressentido, o rótulo do “bonzinho”, adjetivo que o autor generosamente iguala a outros ainda mais bonzinhos: mané, paspalho, insosso, inepto ou zé ruela.  E de quebra, aconselha os ditos cujos a fazerem um curso de canalhice, o que então nos leva à conclusão de que, pelo menos na opinião do moçoilo, mulher gosta mesmo é de canalha...Tenho aí um palpite de que o moço é leitor assíduo de Nelson Rodrigues e anda fazendo MBA com o Alexandre Frota.
Segui adiante na leitura, porque apesar do festival de abobrinhas empurradas com ares catedráticos, para quem gosta de ler, o moço até tem certo estilo. Além do mais, sou daquelas que lêem até bula de remédio, então por que não? Segue o rapaz discorrendo, do alto de sua sabedoria provavelmente adquirida por longos e árduos anos nas noites dos botecos e com as moças que costumeiramente  são chamadas pelo pessoal da balada por “pistoleiras” ou “caçadoras”. Realmente, uma fonte de aprendizado das mais recomendáveis.  Sobre as bonitas, tratou logo de ir desbancando e dizendo horrores: são problemáticas, inseguras. Daí tirou até um axioma que recomendo que registre como algo de sua criação, tamanha a profundidade: “É comum presenciarmos uma escala inversamente proporcional: quanto mais bonita, mais insegura. Logo, mais complexada.”
Não nego: adorei a leitura. Realmente uma oportunidade e tanto para quem queira se divertir muito com tanto besteirol e aprender exatamente o que fazer para não se tornar um homem chato e dispensável. O tom acre e ressentido dos dois textos me levou a concluir o óbvio: o rapaz está muito chateado porque em algum momento de sua vida ele tentou ser o que não era (elegante, fino, interessante) e justamente porque era apenas um arremedo disso tudo, quebrou a cara.  Segunda conclusão: mulher bonita não quer nada com ele, e como todo  mundo que não sabe lidar com as frustrações partiu para o clássico “as uvas estão verdes”.
O ruim de tudo, é que lendo seus textos, realmente aprendi algo de seu estilo: aprendi a criar rótulos. E o primeiro vai para ele mesmo, em sua homenagem: o homem-enciclopédia. Cheio de informações, teorias, definições, e principalmente arrogância. E devo agradecê-lo : me deu assunto não para uma, mas para muitas crônicas. Em tempo: como sou do tipo “boazinha”, achei que seria delicado não declinar-lhe o nome.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 08/04/2005
Código do texto: T10345

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154035 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 11:40)
Débora Denadai

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