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Frio no Planalto Central


No início da construção de Brasília, fazia muito frio. Nos meses de inverno, frequentemente a temperatura caia perto de zero grau, sendo que chegou a haver algumas geadas. A última, temporona, foi em 1984. Mas nos anos 60, era só mato prá todo lado e ainda pouco asfalto. Como eu era moleque assanhado, quando estava de férias no colégio, logo cedo caía na rua. Nem ligava pro poeirão. Queria ser como meus amigos, que andavam só de calção e descalços, fizesse o frio que fosse. Assim, meu corpo e meu espírito foram se temperando com essas variações climáticas. Quando saía de casa, minha mãe invariávelmente recomendava que levasse agasalho, o que eu não fazia. Foi assim que finalmente em 1967, depois de quase uma década de vida ao ar livre, tive que tomar os estudos a sério e entrei no CIEM, um colégio público que tinha "vestibular" para entrar - menos para os filhos de políticos, é claro. Era um colégio de excelência - foi lá que comecei a me desenvolver intelectualmente de verdade e aprender a aprender. Em grande parte, os alunos eram filhos da elite pensante e mandante da capital da república. Estranhei muito, porque tínhamos que ficar o dia inteiro no colégio, que funcionava no campus da UnB. Mas também especialmente pelos tipos humanos que passei a conhecer. Eu ficava impressionado como eles sentiam frio. Iam à aula totalmente empacotados e ainda assim reclamavam do frio. Eu era o único que ia sem agasalho e não entendia como eles sentiam tanto frio. Outra coisa que me chamava a atenção era que muitas meninas e meninos nesses invernos se resfriavam. Eu não sabia o que era adoecer havia muitos anos. Nunca havia visto meu pai resfriado e não compreeendia porque eles ficavam com um lencinho o dia inteiro na ponta do nariz. Eu ouvia falar numa tal de coriza, mas nem sabia o seu significado. Eu achava que o lencinho era sinal de "status" para eles. Hoje rio-me disso. Certo dia, um professor de portugues que era um gaucho forte  mas muito humano e sensível, vendo essa polêmica do frio e a insistência dos meus colegas em me arranjarem um agasalho (eles sabiam que eu morava em acampamento e pensavam que eu não podia ter um agasalho), resolveu incumbir a classe de fazer uma redação sobre a desigualdade social no Brasil. O exercício foi precedido de uma preleção mais do que suspeita, porque entendi perfeitamente que o mote era eu mesmo. Eu já percebia a preocupação do professor com a minha pessoa, meio discriminado pelos colegas "riquinhos", que usavam roupas importadas, muito diferentes das minhas, que eram rústicas e feias. Nós lá em casa economizávamos bastante em tudo, tínhamos passado por períodos difíceis e eu sabia que meu pai estava "quebrado" financeiramente.  A nossa salvação foi que Brasília começou a ser construída e um colega dele, que era dono de construtora, convidou-o a vir, sabendo que estava desempregado. Mas esse aperto não era nada em comparação aos operários.  Esses sim, viviam de forma espartana. E era com eles e seus filhos que eu convivia nos acampamentos das construtoras. Bem, voltando à redação do colégio, o professor cochichou-me ao ouvido que contava comigo para dar uma lição aos orgulhosos "filhinhos de papai". Fiquei um tanto receoso com os desdobramentos que aquilo poderia dar, mas fui em frente corajosamente. Fiz uma redação que até eu mesmo me surpreendi, emocionada e contundente. Narrei o meu aprendizado do dia-a-dia com aquelas pessoas rudes e pobres, os artífices da construção da nova capital. Desafiei as consciências para acordarem para a verdadeira tragédia humana que era o Brasil real, dos milhões de analfabetos, verdadeiros cidadãos de terceira categoria, que eu conhecia tão bem a alma. Quando terminou o tempo estipulado pelo professor, ele disse que iria "sortear" dois alunos para fazer a sua leitura. Primeiro foi uma menina que eu me lembro perfeitamente da sua figura, mas não me recordo o nome. No íntimo eu a chamava de "Tininha", porque me parecia uma menina frágil e assustada. Ela fez um trabalho superficial, intelectual e teórico, muito longe da vida real. Após a sua "performance", quem é chamado ? Eu, é claro. Estava temeroso do que tinha escrito, mas não havia mais chance de alterar nada. Assim, comecei o meu relativamente longo relato. À medida que ia lendo, vislumbrava os olhares cada vez mais espantados dos meus colegas, que não esperavam algo tão forte. De vez em quando, mirava o professor, que tentava manter-se impassível, mas que estava visívelmente tocado. Eu parava e ele dizia: "Vá em frente !" Aos poucos vi alguns olhares femininos rasos d'água e aquilo começou a me atingir o coração. A voz começou a me faltar e o clima na sala estava mais prá velório do que prá outra coisa. Quando não consegui mais prosseguir, meu professor tomou-me das mãos o papel e terminou ele mesmo. Voltei para o meu lugar cabisbaixo, constrangido pelo que havia provocado. No final, o professor completou a aula com uma verdadeira  lição de moral e de humanismo. Foi uma experiência tocante para todos nós. Daí em diante, senti que meus companheiros, silenciosamente, passaram a ter mais consideração por mim e a ponderar com mais atenção aqueles assuntos.

Brasília, 27 de janeiro de 2006
Humberto DF
Enviado por Humberto DF em 28/01/2006
Código do texto: T105006
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Sobre o autor
Humberto DF
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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