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A Experiência de Não Se Ter Um Título

Esta crônica bem que poderia ser um conto, mas não o é. Um amigo, muito querido, passou pela situação de ser rejeitado num emprego, quando precisava muito dele. Uma pessoa respeitada, um  mestre na sua profissão, que sonhara toda uma vida em cursar uma faculdade, mas não havia disponibilidade de tempo pois trabalhava quatorze horas por dia para ajudar a sua família (irmãos mais novos, depois filhos) a terem um destino melhor que o seu.
Em sua homenagem escrevi esta crônica.




Ele acabava de descer a ladeira, quando seus olhos marejaram. Não pode conter as lágrimas descontroladas descerem pelo seu rosto. Nem o nó na garganta lhe garantiu privacidade. Ele chorava. Afinal, acabara de sair de uma entrevista de um emprego tão sonhado. Foi ultrajante a rejeição ao seu tempo de vida e a sua experiência. Todos os conhecimentos adquiridos durante toda uma vida de luta e dedicação a estudos por conta própria não lhe valeram de nada. Tudo estava no lixo, literalmente, no lixo. O diploma de doutor não foi possível e esse título era tudo que precisava.
Estava atordoado. Havia feito planos para um recomeço brilhante e a oportunidade de cursar uma faculdade estourou como um bolha de sabão. Não havia mais nada que pudesse querer naquele momento. Tudo fugiu de seu controle.
Tentou engolir o choro e passou a caminhar em passos lentos, ritmados pela batida de seu coração, buscando no fundo de sua alma uma justificativa para dissipar o seu desespero. A cada passo dado o peso de sua tortura pesava mais e mais.
Parou, respirou fundo e atravessou a enorme avenida a sua frente, tentando adivinhar o pensamento de tantas pessoas desconhecidas que cruzavam o seu caminho. Pensava em quantos corações compartilhavam de sua mesma aflição. Quantas daquelas pessoas nunca sequer tiveram a oportunidade de ao menos sonhar com um começo, quiçá com um recomeço.
Respirou fundo mais uma vez, deixando o ar percorrer todo o seu corpo, permitindo conscientemente a oxigenação de todas as células do seu corpo e forçando a calma a se tornar dona da situação.
O ônibus chegou quando ainda seus pensamentos fervilhavam e quase lhe saltavam da cabeça. Procurou um assento individual para não dividir sua miséria momentânea. Olhou pela janela e tentou esquecer o episódio, convencido de que a vida é assim mesmo. Tudo tem seu tempo e lugar e o seu tempo havia se extinguido.
Prometeu a si mesmo a não confessar a ninguém a sua derrota. Porém, em algum lugar, bem no fundo de seu intimo, algumas perguntas ferozes insistiam em lhe atormentar:
- O que você fez da sua vida?
- Aonde você quer chegar?
Os anos ensinaram-lhe a ser paciente consigo mesmo e ele, naquele momento, precisava dessa paciência.
Respirou ainda mais fundo, já não havia lágrimas em seus olhos e de bem consigo mesmo pensou:
Camarada! PARE, OLHE, VEJA a sua trajetória. Até que é uma bela trajetória, confie e SIGA EM FRENTE, afinal, a vida sempre se renovará a cada novo amanhecer. E os sonhos, precisam continuar sendo sonhados.
Rosa Berg
Enviado por Rosa Berg em 31/01/2006
Código do texto: T106490

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Sobre a autora
Rosa Berg
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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