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PEDAGOGIA DA PALAVRA



          Adepta da não-violência, criei minhas duas filhas na pedagogia da palavra, onde chinelo não é argumento. Cultivei a arte do convencimento, justificando, incansavelmente, meus “sim” e meus “não”, ouvindo seus contra-argumentos e avaliando-os na decisão de ratificar ou retificar minha posição inicial.

          Nessa dedicação fervorosa ao culto da palavra, só era permitido falar aquilo que fazia sentido pra gente. Palavrão pra ser repetido tinha que ter seu significado esclarecido. Naquela época, eu era o dicionário. Hoje, talvez necessitasse de me valer do Aurélio, de tão rápida a proliferação desses vocábulos, crescendo dia-a-dia em volume e peso... Havia também a restrição quanto ao local em que, após entendidos, podiam ser repetidos: nunca diante dos mais velhos, em respeito ao direito dessas pessoas de não serem incomodadas por um vocabulário impróprio.

          Já me desviei do eixo. Retomo-o: educar pela palavra, pelo argumento. O verbo e o exemplo como instrumentos de inserção da criança no meio social. A compreensão e não a imposição de comportamentos aceitos pelo grupo. A possibilidade de inserir novas formas de comportamento, contanto que se respeite os direitos de cada um. Sem violência, sem agressão: física ou verbal.

          Minha teoria foi sendo construída na prática, com uma razoável facilidade, até que um dia, um episódio provocou um abalo estrutural no edifício das minhas coerências: minha filha mais nova – Annaclara -, na época com uns dois anos de idade, aborreceu-se comigo e me cuspiu. Pacientemente, disse-lhe que cuspir era sujo e que ela não deveria fazê-lo de novo. Ela fez. Aí eu tornei a dizer que ela não deveria cuspir em ninguém porque... E ela nem me esperou terminar: cuspiu pela terceira vez. Zangada, segurei-a pelo braço e dei-lhe uma palmada - de mão mole - na bunda, por cima da fralda descartável que ela ainda usava pra dormir. Foi um escândalo! O bairro inteiro deve tê-la ouvido gritar. Não era dor, era o inusitado. A cena passou-se na varanda. Quando olhei pra porta da sala, lá estava a minha consciência, então com uns 4 anos de idade: Anna Carolina. Seus olhos chispavam. Olhou-me com muita raiva e sentenciou: "Você foi covarde! Bateu numa criança!"

          Abracei as duas e choramos juntas. Pedi desculpas  pela agressão, mas mantive a censura à atitude da Annaclara. Custei a me desculpar por ter traído nossos princípios. Na verdade, acho que até hoje não me perdoei. Relevei-me. Aqueles dois serezinhos, que eram as “cobaias” da minha teoria, foram responsáveis pelo controle de qualidade: uma criou a situação-problema e a outra avaliou meu desempenho, demonstrando que as raízes da argumentação estavam definitivamente fixadas.
Rosane Coelho
Enviado por Rosane Coelho em 02/02/2006
Reeditado em 02/02/2006
Código do texto: T107194
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Sobre a autora
Rosane Coelho
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 62 anos
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1 e-livros (108 leituras)
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Rosane Coelho