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O Canto de Dona Teresa

O Canto de Dona Teresa

Dona Teresa, beata convicta, de um dia para outro resolveu, por conta própria, se admirar da própria voz. A partir daquele momento, onde havia um terço, uma novena ou um velório, lá estava ela para soltar a voz. E não se fazia de rogada, simplesmente enchia os pulmões de ar e imprimia o maior volume possível durante as rezas e durante os cantos. Dona Teresa nunca soube o que é afinação, nunca treinou escala e muito menos conheceu as notas musicais, mas sua felicidade era enorme em ouvir a própria voz. Seus ouvidos a presenteavam com o som emitido por sua garganta e ela chegava, simplesmente, ao êxtase. Porém, a voz de Dona Teresa começou a incomodar as pessoas do grupo do qual fazia parte, porque ninguém conseguia acompanhá-la, tamanha desafinação. Falando já era terrível, cantando parecia falar. E de um dado momento para frente, ela decidiu ser segunda voz nas cantorias. Aí, a coisa piorou ainda mais.
Realmente, por maior boa vontade que se tivesse, não dava para competir com Dona Teresa. O negócio era levar na esportiva e ficar esperando ela soltar a voz, se possível, sem rir.
Um belo dia, morreu um amigo do grupo e como não podia ser diferente, Dona Teresa foi cumprir sua obrigação de velar o corpo. Rezou, cantou, rezou de novo, cantou de novo, enfim, lavou a alma com o som de sua voz. Na hora do enterro, lá foram todos se posicionarem perto da cova para dar o último adeus ao tão querido amigo. Dona Teresa, por sua vez, colocou-se bem na cabeceira para não perder nada. Rezas feitas, triste despedida da família, os coveiros amarraram o caixão e começaram a descê-lo para levar o defunto a última morada. Dona Teresa, muito emocionada, pediu à família permissão para fazer a última homenagem ao amigo morto cantando Ave Maria, AAAAAVVVVEEEE MMMMMAAAARRRRIÍÍÍA. Na terceira AAAVVVEEE, Dona Teresa escorregou e caiu dentro da cova, bem em cima do caixão. Foi um alvoroço, ao invés de enterrar o morto, os coveiros tiveram que acudir Dona Teresa, que não era magra, amarrando cordas pela sua cintura para puxá-la para cima. Dos presentes, apoderou-se um misto de sentimentos. A tristeza embolou-se ao pânico e, ao mesmo tempo, à graça daquela cena hilariante.
Dona Teresa, por muitos dias, ficou apática, calada e assustada. Mas foi só dar uma brechinha, e Dona Teresa voltou, com força total, a soltar a voz.
Rosa Berg
Enviado por Rosa Berg em 02/02/2006
Reeditado em 22/11/2008
Código do texto: T107235

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Sobre a autora
Rosa Berg
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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