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A inveja

As pessoas, na pressa do cotidiano, quase nunca distinguem o ciúme da inveja. Embora andem juntos e passeiem de mãos dadas pelos corredores da vida humana, são dois afetos diferentes. Ambos em nível patológico, grave, tornam-se sentimentos dolorosos e guardam pequenas nuanças entre si.
O ciúme é mais ligado ao medo de repartir ou dividir alguém ou alguma coisa de que gostamos com outra pessoa, como nos versos do compositor baiano Luís Vieira: “O ciúme é o medo daquilo  que  é nosso possa ser de outros também”. Por mais perfeita que se queira imaginar a relação amorosa sempre faltará algo e se não soubermos manejar bem essa parte incompleta, achamos que o Outro vai buscá-la nos demais. Em condições corriqueiras saudáveis, o ciúme é normal e se manifesta pelo zelo e cuidado. Em nível patológico torna-se projetivo e delirante, prejudicando qualquer relação amorosa.
Já a inveja é o sentimento onde prepondera a raiva, pesar ou tristeza pelo fato de vermos alguém feliz. Como no ciúme, também falta um pedaço em nós e a diferença está na inveja de querermos possuir tal pedaço que supomos no outro, embora nos falte coragem de possuí-lo. Como no ciúme, em condições saudáveis, até determinado limite, a inveja é até estímulo para a competição. Torcemos, lá no íntimo, contra nosso rival. Mas quando vem acompanhada de ódio, rancor, ultrapassa o limite do normal e torna-se doente.
O fator nutriente da inveja é a sensação de humilhação que o invejoso tem quando o Outro adquire ou consegue fazer o desejado. O sucesso do outro humilha o lado frágil do invejoso. A partir daí, ele desenvolve complexo sistema de pensamentos e afetos carregados de raiva e mágoa contra o bem-sucedido, fazendo o possível e o impossível para destruí-lo. O invejoso sofre com a beleza ou a felicidade do Outro. Embora nãossa viver sem beleza e felicidade, não sabe como conquistá-la, seja porque a natureza lhe foi cruel, a vida não lhe ofereceu meios ou a sua realidade interna é pobre e caótica.
Quem tem inveja patológica vê a vaidade, o egocentrismo, o seu narcisismo, balançarem, tal como acontece na depressão. A diferenciação fica por conta da forma de reagir. O depressivo, ao sentir-se impotente em conseguir o desejado, dirige a raiva e o ódio contra si, ficando sem comer, sem dormir, sem prazer pela vida. O invejoso explícito lança ódio no Outro.
No fundo, bem lá no íntimo, o invejoso tem admiração pelo bem sucedido, o qual gostaria de imitar. Nesse ponto, amor e inveja ficam próximos, pois só amamos o que admiramos. Tanto andam perto, um do outro, que muitos casais não conseguem viver bem por carregarem – ao lado da admiração do amor – a frustração de não possuírem o lado admirado do Outro. A inveja compete com o amor na mistura de admiração e ódio. O amado possui tantas qualidades em si que mobiliza, no amante, a inveja de não as ter. Ela surge na impossibilidade de se possuir as qualidades admiradas no parceiro.
Quanto maior a inveja, pior é a avaliação de si que faz o invejoso. Quem tem olhos carregados de inveja, além de sentir-se humilhado, não gosta de si. Aliás, sente-se humilhado por não possuir uma boa auto-imagem. O narcisismo, a vaidade e o orgulho do invejoso são aparentes, como forma de enganar. Senão, evitaria a agressividade contra o elemento objeto da inveja. O invejoso não se suporta no espelho. E, ao se ofender com a felicidade do invejado, passa para si o atestado de incompetência diante da vida. Pode ter dinheiro, mas lhe falta a riqueza.  Pode ter uma boa companheira, porém lhe falta o lado feminino. Pode possuir bom marido, mas seu lado masculino é frágil. Por incrível que pareça, a psicanálise, embora diga estar a inveja por trás de várias psicopatologias, de diversos distúrbios emocionais, a descreve de forma pífia.
Já os ritos afro, o candomblé, a umbanda, como intérpretes dos contraditórios sentimentos e paixões humanas, dedica bem mais espaço à inveja, “ao olho gordo”, ao “seca-pimenteira” do que a psicanálise. Os mitos e lendas de Xangô, Iansã, Ogum, Oxum, por exemplo, falam com freqüência em inveja e desejo de matar o invejado. Neste aspecto, as benzedeiras, os pais-de-santo, as cartomantes e quiromantes fomentam inveja de forma popular: o mau-olhado, a figa para proteção, o “encosto”, as quizilas dos rivais e adversários. O candomblé explora no cotidiano a inveja pelo lado mágico.
Da inveja não escapam nem os intelectuais que se dizem racionais e civilizados. Tolstoi detestava e emitia conceitos desairosos sobre a obra de Dostoiewski, Miguel Ângelo e Wagner. Goethe desprezava Beethoven. Saint-Beuve repudiava Balzac e ignorava Baudelaire. A grande utopia seria reunir, na Capitania das Artes, pelo menos um terço dos intelectuais de Natal. Tarefa árdua e inalcançável. Pois o nível intelectual pode não caminhar lado-a-lado com o nível emocional. A idade cognitivo-intelectual nem sempre avança em paralelo à maturidade afetiva. A pessoa pode ter idade intelectual de 15 (quinze) e idade emocional de 8 (oito). A inveja habita o coração dos imaturos emocionais, dos narcisistas, dos centros-do-mundo. E quanto mais imaturo, mais o invejoso reage ao sucesso do outro com agressividade. E tanto mais intensa, a inveja, quanto mais o indivíduo não define em si próprio os limites do possível e do impossível, do grandioso e do medíocre, das qualidades e dos defeitos.
A inveja é um afeto universal entrelaçado a duas condições humanas, também universais: a luta pelo poder e a busca da felicidade. Para Adler – discípulo dissidente de Freud – o homem tem no íntimo do ser um intrínseco Complexo de Inferioridade e só se libertará da inveja e da agressividade patológicas se desenvolver capacidades e valores ou acreditar em suas possibilidades.
Quanto à busca da felicidade, trata-se de procura complexa e difícil. A vida é a procura do prazer e fuga da dor, em condições saudáveis do existir, da mesma maneira que a felicidade centra-se na vida interna, no cultivo e com boa realidade interna, o Homem enfrenta as adversidades. Mas como nem todos sabem driblar a infelicidade interna, surge a inveja de quem sabe fazer e sente-se feliz. Se o invejoso não agir em função da verdade, mesmo relativa; se não se afastar da mesquinhez, e apelar para a criatividade e produtividade mentais, tornar-se-á cada vez mais invejoso. A sua personalidade será um grande poço de inveja.
Maurilton Morais
Enviado por Maurilton Morais em 02/02/2006
Código do texto: T107360
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Sobre o autor
Maurilton Morais
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 69 anos
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Maurilton Morais