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ANTÔNIO JOÃO

   “Sei que morro. Mas o meu sangue e o de meus companheiros servirão de protesto solene, contra a invasão do solo de minha Pátria!”

   Este é o preceito glorioso que deve ornar a mente e encher o coração de todo aquele que tiver legítima compreensão de seu dever.
Em 28 de dezembro de 1864, Antônio João Ribeiro, Tenente de Cavalaria e Comandante da Colônia Militar de Dourados, na Província de Mato Grosso, teve notícias de que um destacamento do exército paraguaio, comandado pelo coronel Vicente Barrios, invadira o território brasileiro, sem prévia declaração de guerra.
   Uma explosão de santa indignação patriótica expandiu-se, depois de ter sentido nela penetrar o encurvado espinho das terríveis novas de tão covarde e audaciosa invasão.
   Formulou, no patriótico  pensamento, a quantiosa soma  de energia que os defensores do Forte de Coimbra deviam ter gasto, para, depois, verem-se na extrema necessidade de abandoná-lo. Mediu o alcance magistral e estratégico da gloriosa retirada dessa centena de brasileiros, que queriam iludir a vigilância e o cerco posto, pelo inimigo, à praça, para deixá-lo admirado da ousadia do feito.
   Imaginou, depois, a raiva, o furor do atacante, ao ver-se logrado por algumas dúzias de homens que defenderam umforte esfacelado.    E, somando tudo isso, admirado de tanto valor, formou seu pequeno destacamento de 16 homens.   Tomou, dentre eles, o que mais confiança lhe inspirava. Escreveu a lápis, num pedaço de papel, aquele tesouro de patriotismo, ordenando-lhe que, a toda pressa, custasse o que custasse, fosse levar a notícia da invasão, ao Tenente Coronel Dias da Silva, Comandante do Regimento de Cavalaria da Província. Em seguida, mandou prevenir os habitantes da Colônia, do perigo que os ameaçava. Ponderou-lhes que deviam fugir, o quanto antes, levando o que de melhor possuíam, que ele, Antônio João, ali ficava, para demorar a marcha do inimigo, pois que obstá-la era impossível. Cerca de oitenta pessoas, aterradas, deixaram a Colônia, precipitadamente.
   Tomou, então, a espada e reuniu sua tropa. Quinze homens apenas! Foi com voz vibrante, onde não se notava a luta íntima, que falou aos seus comandados:
   --Soldados e amigos: sabei que os inimigos da Pátria, à falsa fé, estão de posse de toda a região dos rios Paraguai e São  Lourenço. Coimbra, Corumbá e outros pontos são deles. Sabei mais: que marcham contra a Colônia Militar de Dourados, confiada à vossa guarda e defesa. Eles se contam por centenas. Não podemos pensar numa vitória. Devemos sucumbir à primeira descarga. A primeira parte do nosso dever está cumprida: a salvação das famílias dos colonos. Agora... resta-nos a resistência e a morte!... Morramos pela Pátria, pela honra do Brasil!...

   No dia seguinte, 29, chegava a expedição que devia atacar Dourados. Eram 250 homens, comandados pelo Capitão Urbieta.
É o próprio Capitão Urbieta quem, em parte oficial  ao  seu comandante, relata, minuciosamente, o que se passou:
   “Fui, acompanhado  de um “clarim” e de um “bandeira”, até o fortim, a fim de intimar seu comandante a que se rendesse. Ele recebeu minha intimação com a surpreendente resposta: “Trazeis ordem do Governo Imperial para que eu me renda ou entregue a praça?”
“Não, -- respondi –- mas trago 250 homens, para tomá-la  à força!... E ele respondeu: “Então, meus senhores, retirai-vos. Enquanto me bater este coração, filho do pais em que pisais, só obedecerei a intimação de meus próprios chefes e superiores!...”
   “Quando me retirava para nossas fileiras, ainda pude ouvir seus últimos brados: “Atenção!... Preparar!...Apontar!...”
   “E, a uma descarga nossa de 250 armas, responderam 15 tiros!... E cessamos a fuzilaria, porque não havia mais quem a ela respondesse...”

   Quando Urbieta e seus comandados entraram, triunfantes, na Colônia, acharam estendidos, em linha, os corpos daquele punhado de bravos.
Mas o corpo de Antônio João, com o sorriso de desdém e de desprezo que pairava, ainda, no canto da boca, parecia repetir aquelas palavras, que são o monumento da honra e do patriotismo brasileiros:
   “sei que morro. Mas o meu sangue e o de meus companheiros servirão de protesto solene, contra a invasão do solo de minha Pátria!!..."
Julio Sayão
Enviado por Julio Sayão em 04/02/2006
Código do texto: T107957
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Sobre o autor
Julio Sayão
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 93 anos
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Julio Sayão