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Menina Veneno




Não era a primeira vez que precisava me conter para não rir, enquanto ouvia sua história. Minha amiga possui o dom de atrair situações inusitadas. Não acho que seja falta de sorte. Trata-se de um traço muito particular de sua personalidade, e imagino que algum psicólogo possa destrinchar melhor este atributo.
Estava em meu escritório às voltas com um artigo que deveria entregar ainda naquele dia. O telefone tocou e atendi um tanto distraída, sem a intenção de esticar a conversa, tão envolvida estava com o que escrevia. Era minha amiga. Só pelo modo de cumprimentar-me senti que alguma coisa estava fora do lugar. Reticente, quase lacônica, mencionava o fato de fazer dias que não nos víamos.
Logo fui me justificando, desculpando-me pela correria, mas antes que pudesse discorrer meus motivos, fui interrompida e precisei de um segundo para compreender o que ela havia dito. Comunicava-me que estava no hospital.
Prontamente interrompi o que dizia e perguntei, espantada, o que havia acontecido, como estava passando e o porquê do hospital.
Passou então a relatar-me o ocorrido.
Havia tirado o dia para ajudar a mãe, que estava mudando de casa. Não era tarefa das mais fáceis, uma vez que sua mãe morava em uma casa bem grande, há mais de trinta e cinco anos, o que implica um acervo considerável para se organizar.
Estavam ambas esvaziando o guarda roupa quando foram mexer no maleiro. Pegou a escada e foi logo subindo. No entanto, sua mãe insistiu que desejava ela mesma organizar seus guardados, pois já fazia bom tempo que lá não mexia.
Mesmo a contragosto, concordou que sua mãe subisse e continuou a mexer nas gavetas do mesmo guarda roupa. Estava preocupada com o fato de sua mãe estar no alto da escada e a cada intervalo de tempo, olhava para cima para ver como iam as coisas.
Então, diz ela que em uma das vezes que olhou para cima, sentiu uma pancada e caiu sentada no chão. Não estava entendendo bem o que havia acontecido. Uma dor assolou-a de imediato e ao passar as mãos na cabeça, onde o latejar era intenso, percebeu-a tingida de sangue.
Entrou em desespero, uma vez que tem uma ligeira tendência, bem ligeira mesmo, à hipocondria.
Acudida pela mãe que se assustou tanto quanto ela, descobriu que havia levado uma coronhada na cabeça... O revolver caiu lá de cima e a acertou com uma precisão espantosa.
Assim, seu dia terminou um tanto diferente do que planejou. Foram dados três pontos em sua cabeça e depois de duas horas de observação, finalmente retornou para sua casa.
Fiquei sensibilizada com o ocorrido e logo me dispus a visitá-la.
Ao desligar o telefone fique imaginando quantas pessoas no mundo conseguiam experimentar situações tão únicas como minha querida amiga.
Ainda vou trocar idéia com alguma psicóloga sobre a questão... certamente que vou.








Priscila de Loureiro Coelho
Enviado por Priscila de Loureiro Coelho em 05/02/2006
Código do texto: T108120
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Sobre a autora
Priscila de Loureiro Coelho
Jacareí - São Paulo - Brasil, 65 anos
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Priscila de Loureiro Coelho