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EXPECTORANTE ANTITUSSÍGENO


A expressão “expectorante antitussígeno” que encontrei na embalagem de aparência genérica de um xarope me fez lembrar de palavras farmacêuticas antigas como: ungüentos,emplastros, tônicos, bálsamos e emulsões. Nomes que destoam dos géis, efervescentes, injetáveis e hidrosolúveis modernos, mas que bravamente ainda encontram espaço nas prateleiras das farmácias. Eu mesma - quando das lesões que arrumo correndo – apelo para uns emplastros com forte cheiro de cânfora.

Lembrou-me também  de que, temendo as cólicas dos primeiros meses de meu  filho , a rede de informações de mães novatas me levou a um conhecido “xarope de chicória” que, com  apenas uma colherinha, era capaz de aliviar as dores do bebê. Funcionou com o menino, mas não com a minha menina dois anos mais nova.

Então me recomendaram um outro remedinho antigo.Um pozinho cor de rosa dentro de um pequeno frasco plástico onde se mergulhava a chupeta para que, depois de envolta no pó, fosse oferecida à criança. Cheios de dúvidas, pai e mãe  perguntaram ao farmacêutico se existia mesmo o tal remédio. Saímos surpresos com a naturalidade com que nos respondeu afirmativamente. A embalagem de papelão frágil e aparência de coisa do tempo de nossos avós inspirou uma certa confiança. Mas este também não funcionou. As cólicas de  minha filha só se resolveram com o tempo .

Pensando bem, esses remédios de cólica não deviam ser tão antigos. Para mim, surgiram para atender uma certa urgência em manter os bebês calados. Se eu tive cólicas, acho que foram tratadas com chazinho – feitos numa lenta infusão-e não com uma fórmula já preparada para “mães modernas”.

Mas , se não passei pelos remédios para as cólicas, vivi o tempo das emulsões para abrir o apetite. Naquela época, acho que toda mãe via em seus filhos sinais gravíssimos de inapetência. Escapei do óleo de fígado de bacalhau, mas ingeri o biotônico . Já havia uma certa influência da propaganda sobre as mães. Mãe que não dava remédio, estava fora do círculo das boas mães.  E dá-lhe emulsão.

Talvez fossem indícios dos hoje comentados casos de obesidade infantil. A TV já estava bem presente na vida das crianças e já havia uma programação voltada para este público patrocinada por guloseimas tentadoras.

Estava aí uma fórmula perfeita para vender remédios. "Crianças ficando sedentárias e comendo doces" somadas a "mães que precisavam ser perfeitas", igual a  "crianças sem apetite necessitando de remédios". Muitos pais  gordinhos  de filhos hoje também gordinhos devem ter começado por aí.

Começou o problema da obesidade e então, mudou-se o foco.  As emulsões para abrir o apetite começaram a ser substituídas por  fórmulas para emagrecer e vendeu-se  a idéia do  resgate dos produtos antigos e naturais, da vida sem sedentarismo e da alimentação saudável . Em meio a tudo isso, ficamos perdidos procurando receitas e um modo de vida melhor. Engolimos informações que se transformam numa energia confusa diante de uma prateleira colorida e diversificada de supermercado ou ,o que é pior, de uma colorida, diversificada e atraente prateleira de farmácia.
Maria Alice Zocchio
Enviado por Maria Alice Zocchio em 16/07/2008
Reeditado em 04/09/2008
Código do texto: T1083684
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Sobre a autora
Maria Alice Zocchio
São Paulo - São Paulo - Brasil
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