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Um dia

Um dia eu quis me sentar num banco de praça e observar o movimento na rua. E quis me lembrar de tudo que um dia eu quis e que minha mãe teimava em dizer ‘um dia’. Se pedisse algo fora de nossa realidade - naquela época, quando criança, tomar leite achocolatado era um luxo -, ela respondia ‘um dia’. Lembro-me como se fosse ontem, eu ali, menino de dez anos chorando por um Playmobil, ela só respondia ‘um dia’, mas eu pensava, um dia é quando? Um dia não hei de estar crescido? Então creio não precisar de um brinquedo de menino.
Coisa boba são os pais quererem tapear seus filhos com mentiras, quando poderiam sanar tudo baseados na verdade.

Um dia tudo poderia acontecer, a gente ter casa própria. Eu ter amigos, bola e poder ir pra escola. Um tênis da moda e uma bicicleta. Só eu, minha mãe e Deus – que nunca abandonava -, sabiam o quanto eu quis uma bicicleta, que um dia me presentearam, e eu ainda era menino, de uns nove anos. Depois disso só quando tinha quinze pra fazer o traslado de meus irmãos para a creche, de modo que não atrapalhasse o horário de minha mãe no trabalho, porém, a escola nunca esperava. Creio ter sido a partir desses dias que minha sina em chegar atrasado aos lugares tornou-se uma peculiaridade minha. Talvez não!

Voltando ao banco da praça e ao movimento das ruas, percebo o giro do tempo perpassando meio lento, contudo rápido em outros quesitos. – Quais? Hmmm, diria que ‘rápido’ se tratando das coisas que um dia pensei ter, e daquilo que muito queria fazer como poder comprar roupas e calçados, tomar sorvete, passear de carro, sair a noite, comer churrasco, ouvir CD’s e trancar a porta do quarto. Claro que tem muitas outras coisas que foram aparecendo a medida que crescia e descobria ainda mais sobre a vida.
Já se tratando do processo ‘lento’ do descobrimento, a insatisfação é a que menos perece; insiste ser continuada e por mais coisas que antes desejadas se façam nunca consigo me satisfazer, e ainda protelo essa possível realização para um dia.

E observar a rua caminhar tranqüila ou apressada não diz muito sobre as perguntas que gostaria de esclarecer. Perguntar se Deus – aquele por quem eu tanto pedia a bicicleta na infância -, realmente existe, mesmo depois de tê-la ganhado. Se ‘um dia’ a vida vai ser tão completa quanto incompleta, se pensada nas entrelinhas e descobrir o sentido de toda a teoria já inventada nessa vida. É, quem sabe essas respostas surjam ‘um dia’, quando menino eu não mais seja, e possa simplesmente contemplar a vida como um animalzinho que faz tudo que o seu instinto peça.

Porém há sempre questionamentos sobre a chegada deste dia em que tudo será resolvido de acordo com a vontade de cada um que o espera. Ainda hoje um pequeno desejo para mim é ao mesmo tempo grande para àquele menino que vigia os carros, mas um dia, quando eu ‘crescer na vida’, talvez poderei cuidar para que ele tenha a bola prometida, isso se eu não estiver apaixonado demais por alguém que só queira ‘um dia’ a atenção de outrem por quem este meu amor suspira. Ou, se não, precisar trabalhar demais para assumir com as despesas do cartão de crédito e todas as contas que devam ser pagas.

Opa! Mas se assim o fizer, nessa regrinha estarei ocupando o lugar de minha mãe, que nunca se cansava de me responder ‘um dia’.
Túlio Henrique Pereira
Enviado por Túlio Henrique Pereira em 08/02/2006
Código do texto: T109398
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Sobre o autor
Túlio Henrique Pereira
Itumbiara - Goiás - Brasil
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Túlio Henrique Pereira