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CHAVES PARTIDAS

De repente, como uma percepção tardia e inquietante, o pensamento é dominado pela imagem de chaves quebradas. A mão anônima me entrega os pedaços. Com os olhos trêmulos, observo o brilho do metal, dividida entre a perplexidade e a angústia. A lembrança do fragmento do sonho não revela a continuidade, apenas me devolve a chave partida e domina o presente. Restituíram-me as chaves, mas já não encontro os cadeados ou as fechaduras. Sou guardiã de uma ruptura definitiva que não poderá ser descerrada com a lembrança. Sou refém de uma percepção onírica que abre algumas fechaduras na tentativa de se encontrar como o todo.

Perco-me numa primeira interpretação. As chaves partidas poderiam ser o tempo desvirginado, a imortalidade ou a morte; a impossibilidade de dar corda no relógio, a negação ao domínio do tempo. Mas por quê as chaves retornam como reflexões recortadas, como uma interrupção metafórica para as amarras do esquecimento? Por quê quebrar as peças se não há engrenagens badalando a consciência?

As interrogações acompanham as fluentes aflições. Chaves? A memória é rastreada, alguma chave perdida, alguma chave reencontrada... O tempo percorre o leito em busca das fontes primárias e do destino liberto dos cursos: um território clandestino que fecha a estratégia contra as próprias fraquezas, um horizonte ostensivo que dispersa o olhar com o brilho do fragmentado artefato de metal. Sou a chave partida ou a fechadura que não se encontra? Sou o recorte do sonho ou a narrativa não concluída denunciada num ato falho?

Tantas chaves sem encaixe são entesouradas na gaveta da cabeceira. Troquei alguns segredos ao fechar portas, desisti de destrancar algumas confissões...

  Novos questionamentos montam e desmontam realidades como princípios e desfechos poéticos. As chaves de um poema que não escrevi, as chaves de uma leitura que abandonei, as chaves de uma decisão que não assumi, as chaves de um olhar que não retribuí, as chaves partidas que não me deixam esquecer...

Com chaves falsas tento encarcerar o que não domino, guardar a sete chaves os segredos denunciados nos fragmentos e completar as reticências olvidadas com um novo parágrafo a ser reconstruído em novos portais. Talvez amanhã a realidade desperte para ações destrancadas e jogue ao vento a vida sem obstáculos.

Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 13/02/2006
Reeditado em 13/02/2006
Código do texto: T111360
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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