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UM LUGAR AOS DEDOS.

Os neobobos não sabem que os dedos da mão direita têm novas,
mais modernas e fascinantes funções. Alguns até cantarolam,
como cantarolava aquela lourinha, uma cançãozinha tolinha.
Acham que os dedos servem para o que servem: furar bolo, matar
piolho e mostrar que o corpo ao qual pertencem ainda está muito magrinho para ser comido pela danada da bruxa.
Os dedos sempre desempenharam importantíssimos papéis na ribalta da vida. Cada um tem sua própria função, gesto característico, movimento e postura significativos. Um deputado com o dedo indicador em riste apontado para um colega seu, apesar dos impropérios que dispara contra a mãe do companheiro não quer dizer absolutamente nada a notar pelo tratamento respeitoso do xingamento. Batidos uns contra os outros, fazendo clap,clap, podem indicar pressa, urgência; podem significar tempo passado. Postos lado a lado, dobrados em três partes e seguros pelo polegar podem ser uma ameaça.
Na antiga Roma, o dedo mais famoso era o polegar. Virado pra cima
apontava para a vida. “Não mate o infeliz!”, significava o gesto codificado do
augusto imperador. Virado pra baixo, apontava para o inferno. “Acabe com
ele”, determinava, se contorcendo de tesão e já à beira de um orgasmo, o
Bush Jr. deles daqueles tempos. Curto e grosso como ambos, o dedo polegar hoje é usado com mais ternura.
Outra função também é atribuída ao dedo polegar que quando
roçado no indicador quer dizer dinheiro. Se em falta ou em abundância,
depende do contexto. Se roçado rapidamente quer dizer muito; se lentamente significa pouco, ou quase nada.
O dedo indicador é o maldito da mão; serve para incriminar, entregar,
localizar e apontar. É muito usado durante as ditaduras políticas e nas seções
de tortura, promovidas nas delegacias das democracias. Serve para outras coisas também, mas depende do que a mão deseja fazer.
O dedo anular somente serve para se enfiar dentro de alianças e de
anéis, que, quando roubados, se vão, mas os dedos não.
O dedo mínimo, o menor de todos, é também o mais infeliz. Fininho,
magrinho está desprotegido do lado de fora da mão. Não serve pra nada e só
destaca-se na mão dos caipiras sofisticados. Quando a mão a que pertence
agarra um copo, fica apontando para o futuro, sem jeito, fora de seu ambiente
natural. Cafona que só!
O dedo médio é o mais importante de todos. No meio da mão, bem
protegido, divide os outros dedos: dois pra lá e dois pra cá, dançam um bolero.
Imponente, o dedo médio é o maioral. E não é médio por sua estatura, se não por sua posição. Quando todos os outros se curvam, ele se sobressai,
espalhando xingações e ameaças a quem se dirige com obsequioso silêncio.
Hirsuto e rijo distribui prazer, alegria e felicidade. Com movimentos lentos, no
início, e frenéticos da metade para o gran finale, é um herói e, às vezes, o consolo substituto; a prova metafísica da relativa participação necessária do pênis nos sempre olímpicos jogos do amor.
A sociedade tecnológica da terceira onda enfim chegou. Com ela novos produtos, dão aos dedos novas e desafiadoras funções. Os teclados das máquinas de escrever e dos computadores, entretanto, não intimidaram os dedos. Eles se deram bem com essas duas novidades, quando elas apareceram, pois já tinham muita experiência em ter que movimentar-se rapidamente, adquirida nos teclados dos pianos e no dedilhar das cordas dos violões, dos violinos e das harpas.
O primeiro grande desafio dos novos tempos foi o controle remoto dos aparelhos de televisão. O dedo polegar passou a exercer uma função para a qual não estava qualificado. A mão, com os quatro dedos irmãos, agarrou a primeira geringonça e deixou o polegar sozinho para teclar números; trabalho que o indicador fazia há anos nos discos perfurados dos telefones. Atrapalhando-se nos seus primeiros desafios, o polegar errou números, trocou de canais que não eram para serem mudados, levantou demasiadamente o volume e depois abaixou tanto que não se ouvia nenhum som.
Nem bem tinha se acostumado às novas e excitantes funções, o polegar recebe em sua mão o telefone digital. Ainda nessa época não estava
totalmente treinado, pois passava apenas algumas horas, diariamente,
comandando o controle remoto da televisão. Aos poucos, porém, foi se adaptando às novas funções e chegou à perfeição com o glorioso telefone celular. No início,
grandão, tipo tijolo, tinha o tamanho dos anteriores equipamentos
manipulados, melhor, dedados, pelo polegar. Mas em seguida, em pouco
tempo, os telefones celulares foram encolhendo. Diminuíram tanto que o
polegar está sempre tocando, sem querer, na tecla ao lado. O futuro é negro
para o dedo polegar. Os aparelhos deverão diminuir ainda mais de tamanho.
O que será feito do dedo polegar? Onde ele poderá ser usado? Em que
outros constrangimentos a mão direita irá metê-lo? pergunto suplicante e em
voz alta.Vulpino Argento, o demente, sempre atento, a espreita e solícito responde com seu insuportável tom de ironia: “Quer que eu diga, mestre?”



CESAR CABRAL
Enviado por CESAR CABRAL em 15/02/2006
Código do texto: T112246
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
CESAR CABRAL
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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