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Um show na minha vida

Naquela época a graúna do Henfil pousava todos os dias sobre nossas cabeças, vivíamos o tempo da abertura política. A gradativa volta da democracia devolvia, aos poucos, vozes e cores às pálidas paredes dos saguões da FAU, na ilha do Fundão, onde cursei Arquitetura de 1977 a 1982; e o ginásio, fechado por tantos anos, finalmente tinha suas portas abertas aos estudantes em um show de música festejando a volta da Une. O cheiro da umidade exalava das paredes encardidas pela falta de manutenção, respiramos fundo absorvendo o cheiro da memória e devolvendo ao ar a esperança do que seria para nós um novo tempo!...
O ginásio lotou com os estudantes, alguns corajosos amontoados numa precária arquibancada, para ter uma visão geral, e outros mais precavidos, entre eles eu, sentados no chão em frente ao pequeno palco improvisado com um banco de prancheta e duas caixas de som; e foi nesse banquinho de prancheta que João Bosco cantou uma música, ainda desconhecida, que meses depois se tornou o hino da anistia na voz inesquecível da Elis: "O Bêbado e a Equilibrista". Encantada eu ia absorvendo os versos... "a lua tal qual a dona de um bordel pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel... meu Brasil que sonha com a volta do irmão do Henfil... com tanta gente que partiu num rabo de foguete"... não podia ser diferente, era mesmo uma música fadada à eternidade.
O ginásio calado se curvou diante da voz e do violão do João Bosco, diante da determinada e meiga Joyce que com sua voz nos devolveu a "delicadeza perdida", e nos acordes do violino de Jorge Mautner ouvimos o som da liberdade. Sem dúvida, esse foi o show que marcou a minha vida.
Quando ingressei na faculdade minha visão se tornou mais nítida, não pelas lentes de contato que teimei em usar por um bom tempo, mas sim pelas informações que caíam como cascata de palavras e fotos em cartazes espalhados pela Atlética denunciando os casos de tortura e de desaparecimento de presos políticos. Saber da realidade vivida nos porões de nossas cidades, em prédios com sentinelas nas nossas esquinas, era a visão com nitidez daquilo que, antes, eu enxergava com a mesma dificuldade imposta aos olhos pela miopia. A faculdade não me ensinou apenas fórmulas e teorias, muitas abandonadas pela prática da profissão, mas também a entender uma parte, recém vivida, da história do nosso país, que muitos ainda queriam enclausurada e esquecida naqueles mesmos porões.
Cristina Nunes
Enviado por Cristina Nunes em 15/02/2006
Reeditado em 16/02/2006
Código do texto: T112308

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Sobre a autora
Cristina Nunes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 59 anos
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2 e-livros (97 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 12:57)
Cristina Nunes