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Vovó e os doces*

Aos 37 anos, ela amarrou o cocó(coque), como se diz lá no sertão. Foi no dia 30 de novembro: a filha mais velha, de 20, chegava para as férias; a filha de 7 chorava com o pai no colo sem entender porque o tiro, que era pro capote, foi parar no olho do pai; outra filha inteirava 2 naquele dia, por isso o capote morto à escopeta pro almoço de aniversário; e o filho mais novo, de 3 meses, dormia sossegado na rede enquanto ela amarrava o cocó. Os sete filhos restantes sertaniavam ainda sem saber do tiro saído pela culatra.

A dona desse monte de filhos é a minha avó materna, que é uma graça: de uma política incrível, da qual eu não herdei. Toda vez que me encontra, faz perguntas sobre coisas que eu nem sabia ela saber. Mas na minha família é assim mesmo: todo mundo sabe de tudo de todo mundo, o que pode ser bom ou não. É, no mínimo, engraçado: quando se vai contar qualquer coisa, ninguém consegue: a pessoa pra quem a gente está contando já tem um terceiro detalhe desconhecido pra nos contar. E a vovó, é a que mais sabe das coisas.

Vovó faz hoje 77 anos, de cocó amarrado, 11 filhos e 27 netos criados, e 7 bisnetos sendo. Sobe em cavalete, varre casa, lava roupa, faz reforma, agüenta longos passeios ao shopping com minha tia e sente saudade do sertão e do vovô (que é uma das pessoas que eu mais queria ter conhecido na vida). Vez em quando vovó fala dele e diz que ele vem buscá-la em setembro, não sabe de que ano, mas é em setembro. Ele diz pra ela, ela diz.

Sempre faladora pelos cotovelos (coisa que eu adorava, mesmo sem prestar atenção, ouvir a melodia da vovó confabulando a respeito de planos mirabolantes do passado), hoje ela está mais quieta, penso eu que mais saudosa por não poder estar no sertão que ela tanto gosta. Veio pra capital cuidar da filha que estava com “aquela doença que faz o cabelo cair” (e chorou quando ela mesma chegou a essa conclusão: “ah, é aquela doença que faz o cabelo cair?”, e era.).

Semi-analfabeta, mas de uma inteligência sem tamanho, vovó não pode ver um livro, um jornal por perto que vai lendo, mas nem termina por achar muito confuso. Gosta é das novelas do SBT por serem mais simples (sertanejo gosta de vida simples) e adora o Silvio Santos.

“Vó, a senhora queria o Silvio Santos pra senhora?”
“Eu queria.”
“A senhora tinha coragem?!”
“Eu tinha coragem.”

Coragem a ela é o que nunca faltou. Preza por uma rede, por um doce, por todo mundo da família (que é o ofício de toda avó) e acha o máximo ouvir as aventuras das netas e dos netos, ri como quem quisesse viver as histórias todas. Mas vovó tem fama mesmo é de testar a nossa força: quando vem falar com a gente, bate forte nas nossas costas pra ver se estamos firmes. Se bombear, já sabe. É uma graça.

Ultimamente ela anda ainda mais calada, o que me deixa assim: pensando que a depressão natural da velhice está-se achegando. Mas outro dia, bem ao estilo dona Glória de ser, ela me pegou. Eu chegava por volta de uma da manhã quando a encontrei dormindo no meu quarto. Entrei com as pontas dos pés, mas, de sono leve, vovó acordou e assim que me viu, mesmo duas semanas já passadas da minha volta da viagem que fiz à Salvador, ela foi direto ao assunto, como quem continuava uma conversa interrompida há pouco:

- Kika, mas foi bom mesmo aquele teu passeio, hein?
“Passeei demais vó”.
- A cidade é grande?
“Enorme, e bonita.”
- Maior do que o Rio de Janeiro?
“Não, vó, menor, bem menor.”
- Ah, tá bom. Eu estou aqui na tua rede, tu quer dormir nela?
“Não, vó, eu durmo na cama.”

Toda vez que a vovó vem aqui, ela pede permissão pra deitar na minha rede. Ela gosta de ser é adulada: “vó, não é minha essa rede não, vó, é nossa”. E enlarguece o sorriso: “pois eu vou dormir”, e vai.

Quando acorda, vai, feito criança, nas pontas dos pés, atrás de uma coisa pra comer.

“Vó, a senhora tá procurando o quê?”
- Uma coisinha doce, eu estou com um gosto amargo na boca, é da velhice...

Vovó é esperta, se aproveita de certas coisas pra saciar o desejo por doces. E eu, corro e, junto com ela, mato minha vontade por doce. Quanto mais eu a ajudo a surrupiar doces e chocolates, mais magra eu fico.

- Kika, tu tá mais magra.
"São os doces, vó, são os doces.”
E a gente ri.

*crônica originalmente publicada no site www.patio.com.br/cronica.

Cristina Carneiro
Enviado por Cristina Carneiro em 17/02/2006
Código do texto: T113085
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Sobre a autora
Cristina Carneiro
Fortaleza - Ceará - Brasil, 34 anos
56 textos (2431 leituras)
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Cristina Carneiro