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DEPILAÇÃO PORNÔ

 

 

Cansada  de minha cabeleireira que parecia ter aprendido a fazer um único corte, com variações do tipo "mais curto e menos curto", resolvi experimentar um cabeleireiro de um salão que uma amiga me indicou. Gostei de cara de tudo o que vi. Ambiente limpíssimo, aparelhos modernos e novinhos, amplos espelhos e atendentes muito simpáticos.

 

Um certo requinte, sim, mas sem exageros, exceto pela voz da recepcionista no alto-falante para chamar os profissionais requisitados. Parecia a voz de Íris Lettieri no aeroporto Tom Jobim nos anos 80. Sensualíssima, porém, no caso dela, um tanto exagerada e com aquele sotaque  de carioca recém-saído das “patotas” de praia. Costumam acentuar o final  de cada palavra ou frase com um som que lembra uma sirene de carro de bombeiros ou talvez um mantra. Por exemplo, ela chamava os atendentes e profissionais assim: Cabeleireira Rejane, uma cliente a aguarda da recepçãoaumm... !  A Sra. Aceita um caféoaum...?  E por aí vai.

 

Depois de aguardar tomando meu cafezinho na recepção, finalmente chegou Denilso (sem ene no final mesmo!). Um amor de pessoa: lindo, loiro, e com uma das orelhas cheia de brinquinhos.  Superdelicado, levou-me até a seu cantinho e já foi me dando mil idéias de estilos e cortes para meu cabelo, que ele achou “de boa qualidade”, porém um pouco seco e precisando colocar uma cor mais “eletrizante” para combinar com minha pele e minha personalidade! Isso mesmo! Só de uma olhada, ele já soube tudo sobre mim!...

Que tal rouge verão? disse-me. Agradeci e disse-lhe que ia manter a cor que estava só pra não chamar muito a atenção sobre minha “personalidade eletrizante”.

 

Fez um excelente corte e - pasmem! -  de acordo com o que eu havia pedido. Nem mais nem menos. Resolvi então, já que estava ali, fazer as unhas das mãos e dos pés e escutei a voz da Lettieri  carioca no auto falante: Bruna e Nelma, uma cliente as aguarda para manicure e pedicure, na cadeira de Denilsoaumm...!

 

Maravilha! Senti-me a própria rainha de Sabbat com três súditos, cada um cuidando de um embelezamento de meu corpo.  Soube de tudo que estava acontecendo nas novelas e com a vida pessoal dos artistas. Os três faziam questão de me mostrarem o quão aculturados eles eram em termos  de “vida televisiva”. 

_ A Sra sabe que aquela atriz do cabelão da novela das oito, tá quase careca de tanto que ela usa tinta pra ficar loira ? Aquele cabelo já nem é mais dela. Ta cheia de aplique, e minha amiga que trabalha no salão que ela freqüenta, disse que muito em breve, ela vai ter que fazer um interlace – diz uma.

_  É, querida, mas pior é a da novela das sete que depois que encontrou o marido, aquele diretor da globo, na cama com outra, encheu a cara de botox. Dizem que nem pode rir mais! – diz a outra

_  É, esse povo de televisão é tudo assim. Vive tudo de aparência. Sabe aquela “popozuda” do Faustão? É tudo silicone. Tenho uma prima que mora perto dela e que me disse que anos atrás, ela era uma tábua de passar roupa – rebateu Denilso provocando risos entre os demais.

 

E eu, apenas para participar daquela pitoresca conversa, concordava com tudo, e fazia perguntas evasivas do tipo: É sério? Jura? Qual delas? – ou exclamações assim: Nossa! Não acredito! Puxa Vida!

Porém, não posso deixar de admitir que o carioca é muito criativo e divertido em suas fofocas! Não parei de rir um só instante. Nesses momentos não costumo revelar minha identidade profissional, pois ou eles deixam de ser espontâneos e se tornam desconfiados, ou querem ser analisados numa sessão de duas horas, pois fazem tudo lentamente para terem mais tempo para incluir um pequeno psicodiagnóstico de seus parentes e vizinhos. 

 

Depois  uma hora de sessão “cultural” com meus comparsas da fofoca,  finalmente, vi minhas unhas dos pés e mãos ganharem uma linda aparência rubra (cor que adoro!) e meu cabelo, lavado, cortado e escovado, prontinho pra provocar aquele fiu-fiu (sim, isso ainda existe!) de um gentil cavalheiro que me notasse.

 

Foi quando, olhando-me no espelho, percebi que faltava um pequeno detalhe: minhas sobrancelhas precisavam ser depiladas. Aproveitei a boa vontade do Denilso e perguntei-lhe se ele poderia fazer-me aquela gentileza, ali mesmo, com uma pinça, como minha antiga cabeleireira fazia.

 

Qual foi minha surpresa quando ele me disse: Vou chamar a especialista da casa!  Antes que eu me desse conta, escutei a voz da carioquíssima recepcionista falando no alto-falante: Depiladora Shirley, uma cliente a aguardoaum...!

 

Resolvi passar um baton e antes de terminar, escutei pisadas de saltos altíssimos às minhas costas. Virei  e deparei-me com uma enorme e ofuscante cabeleira vermelha (seria aquele o tom rouge verão?), com calças de lycra justíssima e um par de cílios que me lembravam dois leques chineses. Com um simpático sorriso, cumprimentou-me:

_ Dona Marisa é você, querida? Eu sou Shirley, especialista em depilação. Queira acompanhar-me por favor!

 

Segui-a sem muitos comentários imaginando onde ela me levaria. Subimos uma escadaria e lá em cima, fui convidada a entrar numa confortável sala de depilação com uma enorme cama, ar condicionado e muitos potes de cera depilatória. Um tanto apreensiva, fiz alguma perguntas e tivemos o seguinte diálogo:

_ Que tipo de depilação você faz, Shirley?

_ Todas, querida! De cima a baixo, deixo tudo lisinho!

_ Bem, no meu caso, eu quero só as sobrancelhas....

_ Claro, querida! Tudo bem. Vou deixá-las tão lisinhas que tenho certeza que depois você vai querer voltar e fazer o resto!...

_ Resto? Ah, você se refere às pernas, axilas e virilhas....

_ ...e à perereca também, meu amor! Deixo você do jeito que veio ao mundo!...

_ Você quer dizer....toda ela?

_ Deixo um bigodinho na frente que é pra dar um charme. O resto, dos grandes ládios até o anus, eu arranco tudo! E numa só puxada!...

_ Ui!...

_ Pode até doer um pouquinho na hora, mas depois, os prazeres que você vai sentir... Nunca mais vai querer outra coisa na vida, querida!...

_ Bem, eu acho que nem toda mulher tem essa coragem, não é?

_ Como assim, meu bem? Essa é a mais nova tendência da mulher contemporânea, a depilação pornô.  Os homens pedem, as mulheres adoram e não querem outra coisa.

_ Os homens pedem? Que tipo de homem pede isto?

_ Ué, meu amor, todos, principalmente os garotões. O meu filho, por exemplo, traz todas as namoradas para que eu faça depilação nelas. Já fiz em bem umas trinta. E elas ficam lindas! Poderosas!

_ Imagino! Mas, será que não é mais seguro preservar uns pelinhos que a natureza mandou como proteção?

_ Proteção de quê, meu amor? Quer se proteger da felicidade? Pra quê? Pra os vermes comerem depois?

 

Depois daquela argumentação da especialista em depilação pornô, resolvi encerrar o diálogo com a promessa de que, Sim! eu iria pensar seriamente sobre o assunto.  Já na rua andando apressada em minha volta para casa, escutei um fiu-fiu (sim, isso ainda existe!) em meu ouvido. Olhei e descobri um gentil cavalheiro a me olhar. Como sempre faço, sorri e continuei a caminhar. Só que desta vez um pensamento insólito instalou-se em minha mente: 


Será que aquele cavalheiro também estaria ligado naquela nova tendência feminina? Teria ele  preferências pela depilação pornô?  Será que ele me achou com cara de “poderosa”? 

Sorri novamente e pensei:  
_ Ainda bem que quem vê cara não vê coração!  

 

 

 

 

 

 

Marisa Queiroz
Enviado por Marisa Queiroz em 24/08/2008
Reeditado em 05/09/2008
Código do texto: T1144293

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Sobre a autora
Marisa Queiroz
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