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CRUZES E VAMPIROS

Todo mundo já ouviu falar em cruz. Até porque, muita gente se não as carrega, em geral é a cruz de alguém, deliberada ou involuntariamente. Ou ainda é apontado como sendo. Ou faz os dois papéis, de crucificado e de cruz ao mesmo tempo. Como a minha teoria é que tudo depende do ângulo pelo qual você olha as coisas, tenho a minha própria classificação das cruzes e seus usuários. Mas para entender bem esta classificação, falta ainda compreender um outro uso da cruz, muito divulgado pelos amigos do oculto: espantar vampiros. E aí entra também a definição e classificação dos nossos amiguinhos do sangue alheio.
Até quem não acredita nos vampiros concorda que eles de fato existem. Não necessariamente se alimentando da matéria vermelha e líquida que muitos de nós parecem não ser dotados ou daquele sangue menos nobre de alguns: o de barata. Mas existem. Sugam a nossa paciência, o nosso tempo, e, principalmente
a energia que nos dá a sensação de que somos mesmo seres vivos, apesar do esforço devotado de alguns em nos transformar em robozinhos ou vegetais.
Começo pelo uso mais amplamente divulgado das cruzes: servem para crucificar alguém. E , obviamente, daí surge a primeira classificação: a dos crucificados. Estes são facilmente identificáveis e existem em larga escala no gênero humano: são aqueles com cara de bonzinho, mais popularmente conhecidos como “o coitadinho”. É aquele seu conhecido que anda sempre olhando para o chão ou de lado, na melhor das hipóteses e para quem você jamais deve dirigir o  clássico cumprimento “Olá. Como vai?” , sob a pena e o risco de que ele responda. Esteja certo: tudo está ruim e nada presta, desde as células dos fios dos cabelos à ponta do dedão do pé. O pai dele não queria que ele nascesse, a mãe gostaria de casá-lo com aquela mocinha igualmente boazinha da vizinhança, tão coitadinha quanto ele. Os amigos – quando os tem – morrem de peninha dele, mas não aparecem nem telefonam por falta de tempo suficiente para ouvir seu rosário de desditas. Viu? Você já achou entre seus conhecidos um vasto número de coitadinhos. Para estes, a cruz tem exatamente esta serventia: ficarem eternamente pregados a ela, de tal maneira que a humanidade inteira se apiede e ninguém, a não ser aquelas criaturas sem coração, veja o vampiro que se esconde atrás do cordeiro imolado.
Ah, sim, ia esquecendo: sem dúvida, o crucificado nos leva ao outro uso das cruzes. Cruzes são pesos a serem carregados antes que preguemos o coitadinho neles. Aliás, carregados de preferência por um longo tempo visto que isso satisfaz melhor às vítimas. E evidentemente, as cruzes são justamente aquelas criaturas sem coração de que falamos antes, que fazem a vida dos coitadinhos insuportável. O que estes últimos não confessam é que se não fosse pelas pessoas-cruzes e pela sua extrema habilidade em transformar-lhes a vida num calvário, os coitadinhos teriam imediatamente que ser enterrados, visto que morreriam de tédio por não terem do que se queixar. Há um detalhe importante no caso das pessoas-cruzes: na maior parte das vezes elas nem sabem que desempenham este importante papel na vida dos coitadinhos. O que ocorre é que um coitadinho precisa de uma ou mais cruzes e, em não havendo uma ostensivamente pronta para o papel, ele escolhe uma. Qualquer uma.  É lógico que também  há  tipos que adoram o papel de cruz. A sensação de pesar sobre os ombros de outro, e de preferência com direito a fraturas e arranhões, lhes  dá um prazer quase orgásmico. Neste caso, eu diria que há uma espécie de simbiose entre este tipo e o coitadinho. Um alimenta a doença do outro. E ambos vampirizam-se mutuamente, sem deixar de levar em conta que seguem vampirizando qualquer infeliz  mortal nas redondezas num raio de muitos quilômetros. Isso porque, quando não é possível o contato físico, hoje dá pra vampirizar por telefone, pela internet e toda parafernália tecnológica de que dispõem os vampiros modernos.
Chegamos finalmente ao uso das cruzes, que ao meu ver, é o mais prático e o meu predileto: espantar vampiros. Como disse antes, tudo depende do ângulo de visão.  Você acha que é um crucificado? Mude de lugar com aqueles que tem que agüentar o seu blablablá lamurioso. Rapidamente você vai se ver como uma  cruz sobre os ombros de alguém.  E das pesadas.  E é bom lembrar que nem todo mundo tem a sua vocação e competência para crucificado e qualquer hora te derrubam do cavalo, digo, da cruz. E pisam em cima. Em resumo: cruz ou crucificado, somos de alguma forma, vampiros. A nós, cabe tão somente olhar o espelho com um mínimo de sinceridade e identificar o tipo vampiros que somos. Sair de cima da cruz. Tirar a cruz de cima de nós, mesmo quando ela insita em ficar. Esquecer o outro: só podemos existir como vampiros quando existe um outro, que termina sendo nossa vítima ou, num processo inverso, um outro de quem nos permitimos ser vítimas. Espantar os vampiros com uma cruz? Sim, bem pesada, de pedra e devidamente colocada com direito a uma lápide sobre os túmulos do nosso passado.
Em último caso, se não funcionar, procure um analista. Para você. O outro não existe e quando existe, não é problema seu.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 15/04/2005
Código do texto: T11447

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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