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Casa Branca

                             
                                       
A chuva fina que escorria pelo pára-brisa foi me dando uma quietude morna. Vontade de rodar mais sem chegar a lugar algum. Final de semana diferente de muitos outros. Cheio de ausências que frutificavam na alma com rastros de saudade... Sofrida, doída.  Naquele instante tive a certeza das partidas sem retorno.

À beira do caminho, no acostamento, fiquei a observar as rasteiras trifolioladas de pequenas flores rosas, tão comuns nos nossos campos do Sul e conhecidas por pega-pega, cujos frutinhos se destacam em pedaços e se fixam aos pêlos dos animais e à roupa das pessoas.

Tendo o pequeno filete verde musgo na mão, ainda umedecido pela chuva, senti logo os pequenos artículos colados à pele e num fechar de olhos transportei-me à Casa Branca (assim a chamávamos) próxima a Serra Santa Maria, no Cerro Chato, interior do Rio Grande do Sul.

Os símbolos desse quadro completos, tão cheios de vida, de expectativas, deram-me a certeza da menina feliz que se enchia de pega-pega a rolar no capim e, depois, manhosamente, vinha pedir para que a limpassem.

Numa outra cena, o quadro que outrora minha mãe pintara, em minha memória: mostrava a menina, tinha dois anos. Era, pois, muito pequena e brincava à entrada da porta da Casa Branca. Entretinha-se com pequenos objetos e pedrinhas.

A maioria das casas que ficavam no interior, especialmente no Cerro Chato, tinha à entrada das portas principais, pequenas pedras, ora retangulares ora ovaladas ou redondas, de forma a servir de entrada no portal. Pois justamente nesse portal, onde brincava a menina, passava, por obra do destino, por hábito ou porque ali morasse, uma cobra verde, dessas de cauda alongada e preênsil, típica de animal arborícola.

 De cabeça erguida e coleante, numa atitude autocrática, mostrava à menina, no seu passar serpeante, que o território ocupado era seu.

O que fez a menina? Fugiu? Não. Largou dos seus brinquedos, esquecida das pedrinhas que o pai cuidava para que não levasse à boca e, imediatamente, segurou o réptil na pequena mãozinha e mirou-o com encantamento. Tinha no semblante a certeza da proteção daqueles seres tão especiais que a rodeavam.

Assustada com a estranha recepção, a philodryas escorregou por entre os dedos da menina e foi refugiar-se nos altos capins, seguida pelo olhar encantado da pequena que chorava por tê-la perdido. Correram na Casa Branca para atender a menina que podia ter sido picada. Nada aconteceu. Talvez, não soubessem eles, que aquela menina agia com tal ousadia para mostrar ao mundo que era forte, e que seria casa habitável, pela soma dos afetos e daquilo que em pequena lhe transmitiram como essência de vida. Não teve medo. Havia uma rede invisível, de fortes fios entrelaçados, cujas tessituras protegiam-na.

Faz pouco tempo, quis voltar à Casa Branca na companhia de amigos. Quis ver a pedra da cobra, o capim das trifolioladas e encher-me de pega-pega.

Mas cadê a Casa Branca que o pincel pintara em minha memória?  Oh! Tempo! Mísero tempo! Por que destruíste a morada? Com certeza quiseste castigar a menina por ter partido!

Restaram as pedras, perfeitas obras de arte que trouxe como lembrança. Uma coloquei-a junto ao computador, amigo fidelíssimo a registrar lembranças. Várias se espalharam pela casa e, uma outra, em especial, guardei dentro do aquário. Os seus habitantes, especialmente uma cascudinha, que o pequeno Alexandre admirava pelo tamanho, fizeram da pedra sua morada.

Como foi bom trazê-las comigo. Visão positiva da minha infância.

Naquele momento, na umidade do asfalto, tive a certeza da força do destino que me fizera voltar, em tão agradável companhia, para sentir na pele o que disse Lya Luft, grande escritora de Santa Cruz, em seu famoso livro “Perdas e Ganhos:”

“ Depois de algum tempo, o amado acomoda-se de outro jeito. Está transfigurado, porém ainda existe”. É preciso continuar...
Vi, então que a menina feliz que brincava na Casa Branca tinha uma capacidade imensa de formar laços, curtir afetos e amigos. Podia abrir a janela e apreciar o dia, o sol, regar as plantas porque delas gostava, como gostava da florzinha rosa das trifolioladas. Entre uma crônica e outra, espiar o pé de buganvília que florescia na janela, fazer um ramalhete de flores amarelas florescidas às dúzias em seu quintal e colocá-las na mesa de trabalho, junto aos livros... Abraçar os filhos, oferecer um café passadinho na hora, ligar às amigas e bater um papo gostoso, fazer planos...

 A menina feliz que vivia na Casa Branca era uma mulher feliz, fruto do ambiente sadio onde nascera... Iria sentir sempre as ausências, a saudade...Mas havia muito que fazer e seguiu seu caminho, precisava fazê-lo, pois agora tinha sim pressa. Tinha pressa e queria chegar.
 
Eliza Fernandes
Enviado por Eliza Fernandes em 21/02/2006
Reeditado em 01/04/2006
Código do texto: T114705
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Sobre a autora
Eliza Fernandes
Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil
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Eliza Fernandes