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Um olhar sob o domingo de Porto Alegre

Domingo para mim é um dia unsuportável. É algo atávico. Não

tenho nenhum motivo lógico para esse sentimento, esse não

gostar. É de graça! Dia destes estava pensando no que pode-

ria fazer num dia destes. Acho, pretensiosamente, que tenho

um aliado para esse dia: Deus, vejam só a que ponto chega

minha ozerija. Acho que ele também não gostava de domingo

visto que fez o mundo em seis dias e no sétimo (sábado) des-

cansou. Já pensei que se tivesse poder faria dois sábados

na semana. Meu único receio é que um deles ficasse com cara

de domingo, mas em todo caso aí vai a minha visão sobre esse

dia e o que fazem as pessoas. Ainda estou deitada e já ouço

os sinos da catedral badalando, coisa que acontece diariamen-

te  ao meio dia e as 5 da tarde. Depois ouço as badaladas da

igreja das Carmelitas que também se encontram nas proximida-

des de onde moro. Será que elas saem da clausura nos dias de

missa para receber hóstia,de um padre, naturalmente, por que

acho que é um dos sacramentos exclusivo dos homens dentro da

igreja.As mulheres conquistaram pouco espaço nesse campo

ainda.

Mas hoje é domingo, quem quiser và à missa, reze pelos peca-

dos que acha que cometeu e às vezes reze pelos pobres ateus e

agnósticos deste mundo, depois volte para o almoço com a fa-

mília, não sem antes tomar aquela caipirinha e beliscar  os

pedacinhos de salsichão que o assador sempre oferece como ti-

ra gosto.

Na praça, ali no Marinha do Brasil, as crianças brincam com

suas bolas coloridas, se balançam e escorregam, andam na gan-

gorra, enquanto as mães, olham para seus rebentinhos, felizes

por vê-los tão dispostos e dinâmicos em suas travessuras

infantis. Conversam com outras mães sobre os assuntos os

mais variados, entre eles, poderia estar, a trama das nove

da globo,quem ficará com quem,quem  assassinou a megera, será

que ela morreu mesmo?Devem falar das empregadas que este é

um assunto muito sério. Dos maridos ou da falta deles é

possível que falem também. De estética e celulite  de-

vem comentar, observando, principalmente, nas outras quando

estão na piscina do clube. Mas vamos lá, hoje é domingo!

Logo ali, atravessando a Borges de Medeiros, pode-se entrar

no Shopping Praia de Belas e observar o que acontece por lá.

Famílias inteiras esperam em enormes filas para almoçar, ou-

tros esperam as lojas abrirem para comprar alguma coisa ou

simplesmente bisbilhotar as novidade. Há pessoas sozinhas

almoçando, sem um vulto sequer para fazer algum comentário.

Uma moça loura, alta, bonita, come seu lanche no Mac Donald's

com o olhar perdido, certamente é por opção que está só, ou

não, quem sabe? Há os namorados que se abraçam e se beijam

aos olhos curiosos ou, quem sabe, invejosos dos que estão a

sua volta. Outros caminham,olhares atentos procurando garan-

tir uma mesa para então escolher seus pratos prediletos.

Alguns não me parecem felizes, percebo-os entediados, mesmo

os que esperam na fila, sentados em cadeiras, no Dado Grill.

Nesse dia todos saem de suas tocas e vão disputar uma vaga no

estacionamento também. Mas e daí? Hoje é domingo!

Pelas avenidas o trânsito não desenvolve seu fluxo normal. É

dia dos motoristas de finais-de semana. Há aqueles velhinhos

de chapéu, com estes deve-se redobrar os cuidados, a atenção

e ter muita, muita paciência, se alguém não está disposto a

seguir a procissão, ficar buzinando ou até chingando deve fi-

car em casa, afinal é domingo, quase ninguém tem pressa.

No Mac Donald's, aquele ali da Silva Só, perto das Faculda-

des de Odonto e Farmácia, da UFRGS, a criançada também se di-

verte no parquinho, depois de, naturalmente, terem se empan-

turrado com os famosos hamburgueres, com gosto duvidoso, dis-

farçado pelo pão que é muito gostoso e enganando o paladar

com a mostarda e o ketchup. Dá para engolir. Mas quem se im-

porta, hoje é domingo!

No cinemark do Bourbon Ipiranga, no Arteplex Unibanco do

Bourbou Country, ali do  lado do Iguatemi as pessoas se aglo-

meram para ver os filmes mais comentados pelos críticos da

sétima arte. Fazem seus lanches onde for possível antes de

ingressarem nas salas. Mas antes se munem de seus pacotões

de pipocas e seu refri, isso acontece mais no Bourbon

Ipiranga, no Arteplex não notei esse detalhe. Acomodam-se

nas cadeiras e se deliciam, enquanto os demais têm de

suportar o cheiro nauseabundo das ditas. Bem quem não gostar

dessa situação vá para o Guion, lá as coisas são bem

mais "civilizadas" as balas são embaladas em plástico para

não causarem aquele "neurotizante" barulhinho mas, puxa

vida, quanta bobagem, afinal, hoje é domingo!

Quem quiser pode ir até Ipanema, olhar o rio ou fazer sua ca-

minhada, andar de bicicleta com o ventinho batendo no rosto.

Pode, também, levar seu cachorrinho(a) com suas capinhas das

mais variadas cores. Se for uma cadelinha pode colocar um

vestidinho, colarzinho no pescoço e fitinhas na cabeça. Fica

lindo, uma harmonia com a natureza. Sejamos complacentes, a-

final é domingo!

No parque farroupilha, mais conhecido como redenção há também

diversão  para quem quiser, desde àqueles que levam kit-chi-

marrão, com cuia, erva e água quente na térmica, óbvio, nin-

guém é louco de levar chaleira, só se for no Parque da Harmo-

nia, na época de comemoração da Revolução Farroupilha. Neste

mesmo Parque, do outro lado da rua, está instalado o bric,fa-

moso, com mil quinquilharias, artesanato também, para quem

gosta de encher a casa com essas coisas. Se não gostar pode

comprar um cesto dos índios que os confeccionam bem ali na

frente da Igreja  do Espírito Santo.

Há também as "estátuas humanas" pintadas de prateado, em cima

de um estrado, esperando a boa vontade de alguém que coloque

alguns níqueis em sua caixinha, para então, fazer uma mesura

de agradecimento.

Quem quiser pode caminhar pelos recantos da redenção, andar

de pedalinho ou então tomar um café num bar que tem logo ali,

dentro do lago onde as crianças olham as carpas que se movi-

mentam pelas margens. Outra opção é sentar nos bancos dispo-

míveis ou levar sua cadeirinha e ficar observando o movimen-

to e tomando um solzinho para evitar a osteoporose. Bah!

Peguei pesado,mas não dizem os médicos que caminhar e tomar

sol evita a temida doença? Só tô querendo ajudar!!!!

No campo de futebol, aí mesmo na redenção, estão os senhores

de meia idade (detesto esta palavra, mas assim a sociedade os

designa, vivo nela, logo os chamo assim também por falta de

melhor designação e/ou definição) com suas barriguinhas proe-

minentes jogam, faceiros da vida, sua bolinha. Amanhã, certa-

mente farão uso de algum gel nos joelhos ou nas costas. Mas

que isso tem a ver? Hoje é domingo, amanhã eles verão o que

fazer.

No parcão há passeios com cachorrinhos também, mas o cooper é

mais elegante. As madames desfilam com suas roupas esportivas

da última moda, correm ou caminham apressadamente para manter

a forma de seus "corpitios" que já foram, certamente, turbi-

nados ou lipoaspirados. Os rostos então já passaram pelas

mãos dos melhores cirurgiões da cidade, quiçá do Rio ou de

São Paulo, Nova York, enfim! Mas vamos lá, que incômoda   me

torno,  deixa prá lá, também quero participar de alguma

forma desse dia que deixa tantas pessoas felizes e outras nem

tanto assim.

Ali, pela Vasco da Gama, há a pista de ciclistas que não dei-

xam por menos. Ocupam as vias, todos com roupas especiais, ca

pacetes, cotoveleiras, joelheiras, óculos, luvas, entre  ou-

tros, como por ex. a garrrafinha de água que tem seu lugar es

pecial. Curioso! Os ciclistas, todos eles, que se dedicam

realmente ao esporte, tem pernas bem fininhas. Já me disseram

que é puro músculo. Sei lá! Nunca vi nenhum com coxas e per-

nas grossas. Interessante não? Jogador de futebol também exer

cita os músculos, mas todos tem pernões. Mas quem se importa

com esses detalhes, hoje é domingo!

Ainda não explorei a Cavalhada, onde estão os motéis, devem

existir em outros bairros também. Não conheço. Para lá vão os

casais apaixonados, os entediados, qualquer um que queira fa-

zer amor ou simplesmente fazer sexo, uma transa sem compromis

so, tomar um vinhozinho, uma cervejinha ou quem sabe um cham-

pagne se a moça for de primeira ou a primeira. Mas cada um

faz o que quer. Hoje não é domingo?

Há os intelectuais e os pseudos que se embrenham pelas livra-

rias a dentro em busca de alguma leitura. Muitas vezes nem e-

les mesmos sabem o que querem. Para os que sabem a Saraiva é

ótima. Tem todos os recursos que a informática pode oferecer.

Tem um ciber café, lojinha com cds e dvds e é muito agradável

estar por ali. Há mesinhas e sofás para se dar uma olhada nos

livros antes de comprá-los.

Alguns escolhem Nietzsche, Simone de Beauvoir, Clarice Lispec

tor, Cecília Meirelles e até Pablo Neruda no original e para

não ficar muito inteclectualizado levam os dois últimos do

Sidney Sheldon e Dan Brown: Código da Vinci e Anjos e Demô-

nios. Bem, agora vão para suas casas e começam a ler. Se não

quiserem há ainda o domingão do Faustão.  Ô loco, meu! Depois

vem o maravilhoso, sensacional Fantástico, com a eterna Gló-

ria Maria e o Pedro Miau (já não tão miau assim)ou Bial? Como

essa mulher consegue se manter tanto tempo na mesma emissora

num país que dizem ser extramamente racista.Claro ela é

muito competente e muito inteligente, mas quantas outras

também não são?

Existe ainda a possibilidade de visitar a Usina do Gasômetro

totalmente remodelada e que serve, durante o ano, para algu-

mas exposições de artesanato daqui da cidade, de outros Bra-

sis e também de países vizinhos.

A avenida beira-rio, próximo ao Gasômetro, é fechada ao trân-

sito de automóveis aos domingos e pode ser aproveitada para

caminhadas, passeios de bicicleta, de skate, de novo na moda

e outros esportes afins. Próximo à chaminé há um barquinho

flutuante que serve de bar. Dá para treinar para um dia,

quiçá,fazer um cruzeiro pelas ilhas gregas, tão em voga

atualmente.

Quem possui um jet-ski pode atravessar o rio e ver as lindas

mansões que estão à beira deste, que alguns chamam de lago.

Por terra também se pode chegar àquelas ilhas mas, se verá as

belas casas pelos fundos. Não faço a menor idéia que tipo de

gente mora ali.

Passando por Ipanema,outra vez, se pode ir, devagarinho pela

avenida,onde o trânsito é lento devido ao número de carros

que prá lá se dirigem,até o Guarujá e se quiser ir a Belém

Velho ou Belém Novo como lhe aprover  e ouvir o canto dos

pássaros.


Se não gostar de ares tão bucólicos ligue o som do carro com

as músicas que gostas e divirta-se. Claro que não vai faltar

algum apressadinho que vai buzinar para ti, não esquenta,dê

passagem e siga teu rumo aproveitando mais um domingo.

Para terminar a maratona deste dia esfusiante, chegue em ca-

sa, tome um banho demorado e  um relaxante muscular e vá

se deitar em sua caminha e durma, sonhando, quem sabe, com o

próximo domingo, quando poderá realizar algumas das ativida-

des que hoje deixou para trás. Boa Noite! Ah! Amanhã, feliz-

mente é segunda-feira!!!!!!!!!!!
Marla
Enviado por Marla em 24/02/2006
Código do texto: T115542

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Sobre a autora
Marla
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