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Cólica de divórcio


Ana Rita estava decidida. Iria dizer naquela noite mesmo que o namoro estava acabado. Gostava de Felipe, admirava-o em alguns aspectos, mas definitivamente não era o homem que ela queria pro resto de sua vida. Já fazia certo tempo que demonstrava desinteresse pelo relacionamento, mas Felipe parecia estar cego. Era o rapaz mais apaixonado da cidade. Não havia sonho em que Ana Rita não estivesse além, é claro, de ser sempre a protagonista. Já havia esquecido o significado da palavra pesadelo e não precisaria jamais de Freud pra decifrar o que era apenas uma cópia autenticada de seu cotidiano. Era preferível que se lhe roubassem a alma a ver-se afastado de Ana Rita. Era o que possuía de mais precioso, sentia-se um homem feliz e realizado, e seria assim sempre que estivesse ao seu lado. Pronunciava o nome da garota quatrocentas e oitenta e nove vezes por dia, tanto nos úteis quanto nos inúteis. Andava meio maltrapilho. O dinheiro que conseguia com rios de suor, escapulia de suas mãos feito bolas de sabão, convertido em presentes e momentos de lazer junto à sua amada. A hipótese de uma separação surgia aos olhos de Felipe como a total demolição de sua estrutura humana, tornaría-se para sempre um tetraplégico emocional. Amava Ana Rita assim, mais do que a si, mas do que a tudo. Por ela tudo faria. Mas o trenzinho da alegria estava chegando à estação final. Ana Rita tomara três caixas de tranqüilizante e estava psicologicamente preparada para pôr um ponto final na estória.

A campainha tocou. O perfume que invadira todo o recinto acusava a presença do rapaz. Ana Rita, que estava sentada no sofá com as duas mãos sobre as pernas, olhando pro quadro à sua frente que retratava um pintor italiano com aquele bigode extravagante, levantou-se num pulo, respirou fundo e dirigiu-se à porta medindo os passos. Tocou na maçaneta, girou. Quando se viu frente a frente com o indivíduo, demorou três segundos e disse... Não, não disse. Convidou-o simplesmente para entrar. Sentados os dois no sofá, Felipe estranhava a frieza dos gestos e expressões de Aninha, como ele a chamava. Incomodado com aquele iceberg que se erguia segundo a segundo entre os dois, resolveu perguntar por que ela estava diferente, embora no fundo não quisesse ouvir a resposta.

Ana Rita decidira previamente que seria direta, em poucas palavras esclareceria sua posição. Olhou nos olhos de Felipe. Com lábios trêmulos que pareciam flâmula ao vento, mãos umedecidas e pernas quase trepidando, Ana Rita sentia um calor que lhe subia dos pés a cabeça. Queria falar, mas as palavras não saíam. Respirava dando pausas. Desviava o olhar pro bigode do italiano e depois pro namorado. Foi quando Felipe correu para a cozinha a fim de pegar um copo d’água. Teve medo de que a menina desmaiasse. Voltou e ela bebeu. Felipe já pressentia que se tratava de algo muito sério. Desconfiava de todas as possibilidades sem querer acreditar em nenhuma. Impaciente e confuso, Felipe já alterava a voz, quase suplicando a Aninha que falasse tudo de uma vez por todas. Pediu, mas se arrependeu. Seu coração gelou instantaneamente e ele não saberia sua reação diante da suposta fatalidade. Coçando o braço esquerdo feito um cão sarnento, Felipe já estava apavorado, com o coração querendo precipitar-se garganta a fora, zonzo com o giro das paredes que não saíam do lugar. Ana Rita, agora mais assustada, não conseguia concretizar de maneira alguma o desejo reprimido. Foi então que resolveu adiar a decisão. Disse solenemente que não estava em condições de namorar nem de conversar naquela noite, pois estava com cólicas e forte dor de cabeça.

Decepcionado, Felipe voltou pra casa, mas no fundo sentia-se aliviado e até mesmo feliz. Afinal, Ana Rita, pensava ele, jamais teria vontade ou coragem de abandonar amor tão puro e verdadeiro.

                                                                     

Josué Mendonça
Enviado por Josué Mendonça em 24/02/2006
Código do texto: T115840
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Sobre o autor
Josué Mendonça
Salvador - Bahia - Brasil, 36 anos
52 textos (2263 leituras)
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