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OS LIMITES. QUE LIMITES?

Tem gente que não tem limite. Pra nada, nem pra ninguém. Dão-se por inteiro até os confins de si mesmos. São como santos - no
sentido de santidade mesmo e não no sentido de plantonista fazedor de milagre. Minha mãe era assim; cheia de vida pra distribuir. Conselheira,sempre tinha uma mensagem de ânimo, de encorajamento. Só amou meu pai e por toda a vida e, virgem, casou com ele orgulhosa de ter sido só dele.Eram os princípios morais da sociedade daquela época, numa Porto Alegre ainda porto e alegre.Bastava alguém precisar de ajuda que lá estava Dona Cecília, com seu metro e meio de bondade sem limite.São raras, hoje em dia, pois não vejo mais gente assim; e por mais que me esforce, eu mesmo não consigo me aproximar nem uns poucos centímetros do que foi, na prática, minha querida mãe, minha referência de benquerença. Devia ter lá seus defeitos, mas eu não lembro. Esqueci todos.
Mas tem gente que não tem limite pra infernizar a vida dos outros,como se sabe, e é bem mais comum encontrar dúzias e dúzias deles em cada esquina que se vira. Essa gente não tem limite para a desfaçatez. A verdade,para eles, tem o formato que mais convém no momento de sua própria conveniência, ilimitadamente. Mas a verdade é esférica; não tem lado, nem dobra, nem canto e só não é vista pelos olhos cegos da falta de memória, do esquecimento. É aí que a desfaçatez nada de braçada e fica mais forte do que sapato de padre.
Também tem gente que não tem limite pra sua própria estupidez.
São aqueles que acham que não há limite para o que pode ganhar um jogador de futebol, um jogador de basquete, um jogador de golfe, um jogador de tênis, dos bons, bem entendido. Arquibaldo, o breve, é um desses estúpidos. Para ele, esses “atretas”, como costuma dizer, deviam ganhar “era muito mais”. “Tem um dos nossos pentacampeões, por exemplo, que vale muito mais do que 45 milhões de dólares, mestre!”- diz Árqui. Exclama sorrindo e gozando com a fortuna do outro, como se o pênis fosse dele. Insisto em explicar que pra tudo devem existir limites, mas Árqui está trêmulo e ofegante. Dou um tempo. Aproveito também pra me recuperar do ódio que sinto quando ele me chama de “mestre”. Os limites existem para nos dar dimensão, Árqui, e não para nos limitar e nos impedir de andar ou expandir qualquer coisa, pois é justamente no seu limite que começa o meu espaço. A dimensão das coisas todas nos dá conhecimento e aprendemos a dar valor devido e não apenas atribuído. Os 45 milhões de dólares do nosso pentacampeão é valor atribuído dentro do cenário limitado do futebol. Fora desse cenário e em confronto com outro pode não significar nada como quando, por exemplo, for para colocar uma estação espacial em órbita da Terra. Porém, só para jogar futebol, apesar de todo o amor que tenho por um bom jogo e por jogadores geniais, é dinheiro que já passou do limite. Fico sabendo que nosso Romário vale, ou ganha, 300 mil reais por mês. A notícia quase gela minhas lágrimas. Não é que ele não mereça, como acredita Árqui. Não é uma questão de merecimento, é de valor devido. Será que os clubes devem pagar 300 mil reais para alguém só jogar futebol? Não poderia um excelente jogador de futebol, como é Romário, sem dúvida, viver muito bem e com decência com um valor compatível com o que produz para si e para a nação? Que contribuição traz para o povo um dedicado professor que trabalha,todos os dias, muitas horas mais do que a duração de uma partida de futebol semanal, tentando formar cidadãos, se comparado apenas à satisfação e à alegria dos gols do baixinho para somente alguns milhares de torcedores do seu clube?
Arquibaldo o breve tentando dar pedaladas como um robinho numa velha bola murcha desiste do intento e me pede uns trocados para beber uma tubaína.
CESAR CABRAL
Enviado por CESAR CABRAL em 26/02/2006
Código do texto: T116376
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Sobre o autor
CESAR CABRAL
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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