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M A N D R A K E

          O lúdico e as brincadeiras da infância e da adolescência podem ser efêmeras ou duradouras. As formas e as origens, assim como as maneiras de serem introduzidas num meio coletivo, são as mais diversas. As tradições repassadas de boca-à-orelha, também chamadas de folclóricas, foram as mais utilizadas até o surgimento da informática. Modernamente, são tantas as informações aplicadas, que pode haver insuficiência de um alicerce, se não cultural, pelo menos referencial de uma época. Em verdade, são inevitáveis essas transformações. O receio está, exatamente, em se perder a referência de tal ou qual época. O diabolô e o bilboquê talvez sejam ignorados hoje em dia. Não só os brinquedos como também os vocábulos. Bolinhas de vidro e as cinco marias, ainda existem? Claro está que estão em desuso. Mas foram marcantes, sólidas, ao ponto de, e por isso mesmo, serem lembradas. Do último quartel de século, quantas serão lembradas daqui há cinqüenta anos?
          Pois, a respeito, passo a recordar de uma muito utilizada nos anos 40/50 e até meados de 60. Adaptada de uma revista de história em quadrinhos, cujo personagem central era um ilusionista, ou mágico, de nome Mandrake, tendo por seu assistente um príncipe africano de nome Lothar, e da princesa Narda. Criada em 1924 por Lee Falk (também o criador do Fantasma), foi lançada em tiras de jornais em 1934, sendo os desenhos feitos por Philip Davis. Nas histórias do Mandrake, quando este estava em apuros, lia-se no balão de texto do gibi: "Mandrake faz um gesto hipnótico", e o vilão, ou oponente, punha-se petrificado e a mercê das ordens do herói. Entre a gurizada daquela época, era comum se dizer: "vamos entrar no Mandrake?" E os dedos mínimos, ou mindinhos, se entrelaçavam como a firmar um pacto, numa espécie de código. A partir daí, quando um guri se encontrava com um outro que "estivesse" com ele no Mandrake, dizia: Mandrake! A ordem, por honra (ainda existia), era imediatamente cumprida. E ali ficava o outro, parado, qual estátua. A "liberação" se dava com outro ordem: "água", seguida da expressão: "licença meia hora". Ou seja, por meia hora o segundo não poderia dar Mandrake no primeiro.
          Recordações e/ou imaginações infantis, mas que se hoje eu pudesse usufruir, gostaria imensamente de dar um solene Mandrake nessa canalha que enxovalha e envergonha a pátria brasileira. Miseravelmente perderam a honra que, talvez, tiveram em sua infância. Vilões do mensalão, do caixa dois e roubalheiras que tais. Ah! Se eu pudesse dar um Mandrake nesses patifes! Palavra, não daria "água" jamais para essa escória. E muito menos "licença meia hora". Patrificá-los-ia.
          Mas... pensando bem, a fantasia poderá se tornar realidade. À época de eleições, poderíamos (povo brasileiro) entrar numa imensa corrente de "mindinhos" e darmos um rotundo Mandrake nesses imorais, sem direito a "água licença meia hora". Narda, Lothar e, principalmente, Mandrake, poderiam sair dos gibis e nos ensinar como fazer um gesto hipnótico moralizador. E olha que é bem fácil nos tornarmos heróis, como os de Lee Falk. É só usarmos adequadamente nosso indicador no dia das eleições. Mandrake!
Cláudio Pinto de Sá
Enviado por Cláudio Pinto de Sá em 26/02/2006
Reeditado em 01/07/2009
Código do texto: T116448
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Sobre o autor
Cláudio Pinto de Sá
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 69 anos
163 textos (23327 leituras)
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Cláudio Pinto de Sá