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O Enígma do Ovo Duplo

               A banha já borbulhava na frigideira, e a fome doía no estômago causando uma louca ansiedade para ser eliminada com a degustação de um ovo. Cauteloso, quebrei a casca do mesmo e o derramei, mas uma descoberta assustadora me fez alarmar a todos da casa:

              — Venham, corram. Venham ver que loucura!

              — O quê? O quê é que é, papai?

              Dizia um, dizia outro e todos corriam em disparada rumo ao fogão.

              — Sei lá! Um mistério. Uma coisa estranha da natureza. Um inexplicável!

             — Como assim, papai?

             — Não dá pra entender! Parece mesmo que o mundo está ficando louco e nem se pode mais comer um ovo frito como antigamente — questionei incrédulo, frente a tal descoberta.

             — Que está acontecendo ai? — gritou minha vizinha bem tronitoante, correndo casa adentro em desespero.

             — Sei não! Ao que me parece nesse ovo sairiam dois pintinhos.

             — Grande coisa! — rebateu alguém bem pertinho do meu ouvido acrescentando com sarcástica zombaria: — já vi dois pintinhos saírem dum mesmo ovo. Grande novidade! Que besteira!

             Mas... Não assim! Igual a este ovo, não! — falei ríspido e autoritário.

              — Deixa-me ver, deixa-me ver, com licença, com licença — todos de casa, cheios de curiosidades com o fala-fala, se acotovelavam num agitado empurra-empurra frente ao fogão.

             Então falei aos berros:

              — Crianças, cuidado com esta banha! Não vêm que está muito quente! Cuidado!

             Ahhhhh!

             Ohhhhh!

            Uníssonos, todos repetiam espantados depois da confirmação, e um rígido debate se instalou:

            — Como pode? Quer dizer que.....
            — Não! Isto não! Isto não é possível.

            Cada um narrava sua louca teoria, mas findava achando-a inviável. E, nesse ínterim, surgiam as mais variadas questões dignas de tese de doutorado:

           — Será que isso poderia acontecer com seres humanos, ou seja: um zigoto com esta estúpida anomalia? Só espero que jamais aconteça.

            Ponderou um outro, sentado numa cadeira, com pose de mais biologicamente entendido. Já, outros, assim se manifestavam:

            — Nenhuma professora me falou desse assunto! Já imaginou se isso ocorresse com uma vaca, ou com uma égua?

           — Eu não gostaria de ter acontecido com a minha mãe. Já pensou, eu ter nascido com um irmão por dentro de mim? Como ele poderia andar?

           — Pois é... Vocês estão vendo? Isto é mais uma estupidez feita pela gloriosa natureza: quebrei um ovo pra comer, mas dentro dele havia um outro divinamente normal: com casca, clara e gema. O que quer dizer que nasceriam dois pintinhos, só que um por dentro do outro. Já viram, ou, ouviram, coisa igual?

          — Nããããão!

          Quebrei outro ovo, fritei-o, e comi cismado.
José Pedreira da Cruz
Enviado por José Pedreira da Cruz em 27/02/2006
Reeditado em 01/11/2007
Código do texto: T116665
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Sobre o autor
José Pedreira da Cruz
São Paulo - São Paulo - Brasil
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José Pedreira da Cruz