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Uma história em dois caminhos...

Trouxe para vocês, a título de curiosidade, uma mesma história escrita  em dois ângulos diferentes entre si: a primeira versão é minha que vivenciei e escrevi. A segunda é de um meu amigo, escritor  “cinco estrelas”, para quem eu tiro o chapéu.

Doce de Cidra


Doce  é o que nunca faltou em nossa casa: doce de mamão, de cidra, de figo, de laranja da terra, de manga, pé de moleque,  geléia de mocotó, pudins assado na brasa...E a lista não termina aí.   Minha mãe olhava o tempero, a hora de dar o ponto (final?), mas quem ficava ali mexendo com colher de pau  no tacho de cobre ( e às vezes com muita preguiça) éramos nós, as meninas. Na hora da “rapa” apareciam os meninos e todos tiravam sua casquinha.
Aconteceu, uma vez,  que o doce de cidra ficou muito amargo e  ficou rejeitado na tigela um bom tempo. Um dia, não  tínhamos outra  opção de sobremesa a não ser ele! O jeito seria  enfrentá-lo . Enchi uma colher de sopa, mas na primeira “provada”, vi que era melhor ficar aquele dia em abstinência de  doce. Mas jogar fora não podia. Era levar um pito na certa. Fui para a janela da sala que dava para a rua –  que na verdade era um Beco. Aquele chão sem o calçamento me pareceu o  melhor lugar  para esconder  o doce  rejeitado. A pelota caiu e ficou envolvida na poeira  à  moda milanesa.  Justamente, nesse dia, à tarde, o Fernando,  trouxe  seus colegas para uma pelada, bem em frente à nossa casa. E a platéia logo se formou: uma dúzia de meninos e  meninas ali da vizinhança.
E, da janela, ficamos a olhar aquele corre-corre atrás da bola. Todos felizes, eufóricos, apesar da poeira. De repente, um dos meninos desequilibra e cai sentado bem em cima da pelota de doce. Ao levantar, ele se deu conta de que algo estava pregado na região dos “glúteos”! Ele pensou no pior. Talvez uma bosta de cachorro! E todos foram, com nojo, ajudá-lo com raminhos a limpar sua calça. E nem desconfiaram que era uma coisa tão limpinha. Se eu não estivesse sem fala (de tanto que ria) poderia ter explicado para eles.
Faz pouco tempo, numa de nossas reuniões familiares, que contei o ocorrido para a galera!



***
Lalau e Lulu
Muito gostavam de doces Lalau e Lulu, do mamão ao caju. E sempre se prontificavam a ajudar sua mamãe a fazê-los.

Mais do que ralar as frutas, o difícil mesmo era manter aquela mistura toda em movimento enquanto cozinhava numa panela pretinha que até lustrava. E em meio àquele calor, a criançada reclamava, mas se resignava. Mais Lulu que Lalau, que tinha a desculpa de ser canhoto, e mais ainda, bem maroto.

Um dia veio Dona Lilia, a mãe do guri e da guria com uma fruta esquisita a que de cidra chamaria. Ou sidra seria?

Pouco importa a grafia, fazer doce era o que urgia. E depois da lavagem e ralação, vai tudo pro panelão.

Ou porque deu uma de tonto, ou nas colheradas deu desconto, a verdade é que o doce naquele dia passou do ponto.

Foi pro guarda-comidas, daí pra mesa e voltou quase intato pra ser guardado, pois ninguém tinha gostado. Duro e escurecido, quase que foi esquecido, não fosse a insistência de Dona Lilia, que pouco comia. E ei-lo na mesa de novo, a cada dia.

Até que Lulu apesar do esforço suplementar resolveu um cabo naquilo dar. Sem ninguém notar, é bom falar.

Embrulhou-o num papel de pão e logo já estava ao chão, escondidinho num cantinho daquela sua rua, onde a gurizada de Pelé sempre atua, jogando seu futebol, em meio a tanta poeira e muito sol.

E não foi que logo o Nicolau, melhor amigo do Lalau, e - escondidinho - de Lulu o queridinho, foi se escorregar e, bem de fundilhos, naquele montinho suspeito cair com todo efeito. Levantou-se meio sem jeito - a amada da janela o mirava...

Seu primeiro impulso foi gritar por socorro, pois aquilo parecia coisa feita por cachorro. Sem saber o que fazer, fez como o Zorro: ao primeiro muro deu um salto inseguro, do outro lado caiu duro e se se livrou daquele apuro, o meigo olhar de Lulu, que lhe era tão doce, acabou-se. Pelo menos por alguns dias - uma verdadeira eternidade - até que passada a gozação, lavado o seu calção, pudesse de novo jogar o seu bolão, matar suas sedes rompendo as imaginárias redes, e rasgando aquele coração. Mas de doce não quis saber mais não.




fernanda araujo
Enviado por fernanda araujo em 27/02/2006
Reeditado em 27/02/2006
Código do texto: T116755
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
fernanda araujo
Divinópolis - Minas Gerais - Brasil
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