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UÉ!  APAGARAM?


Quem tem filhos, netos, sobrinhos e afins, sempre tem alguma história interessante guardada na memória. São histórias que nos fizeram passar muita raiva no momento quando aconteceram, mas depois de algum tempo, tornaram-se verdadeiras relíquias da saudade.

Com certeza tenho inúmeras delas carinhosamente relembradas, quanto mais me distancio delas.

Meus quatro filhos sempre aprontaram as coisas normais de crianças saudáveis.

Sendo quatro, com a diferença de idade do mais velho para o mais novo de apenas três anos e meio, tudo por aqui se multiplicou por quatro. Às vezes olho para trás, e nem sei como dei conta dessa turma. Até parece que não fui eu quem estava lá.

Pra começar, meu filho mais novo nasceu após três meses seu pai ter morrido. Por isso, ele resolveu chegar antes do tempo, num tempo onde nascer a quase sete meses de gestação era um grande risco.

Costumo dizer que não fui pai e mãe, apenas uma mãe maior para dar conta do recado.
E eles aprontaram. Ah! Como aprontaram.

Foram filhos da creche, quando creche quase não existia e assim, fizeram da escola uma extensão da casa. Estar em casa ou na escola, para eles era a mesma coisa.

O meu filho mais novo sempre foi tranqüilo. Se o vento o levasse para um lado ou para outro e ele estivesse satisfeito, azar do mundo.

Certa feita, fui chamada pela professora da escola porque ele não copiava matéria e ela me disse – seu filho resolveu não copiar nada e quando digo pra ele que ele vai se dar mal nas provas,ele responde:
- tá tudo guardado aqui professora, e aponta pra cabeça.

Chamei-o, então, para uma conversinha de mãe, me mordendo de raiva, mas com toda a paciência do mundo e disse-lhe:

- Meu filho, tudo bem você ter uma cabeça privilegiada, mas me responda uma pergunta –se você adoecer e sua cabeça não funcionar direito como é que vai fazer?

- MÃE!!!!!!!!!!!!!!!Se tô falando que está guardado, tá bem guardado. Eu não iria mentir para você. Veja todas as minhas notas, ninguém tem motivo para duvidar de mim.

O pior é que era verdade. Ele só tinha notas boas e convencê-lo não seria tarefa fácil.

- Tá bom!!! Porém regras são regras e você vai copiar a matéria, quer queira ou quer não. Não podemos desrespeitar as pequenas regras meu filho, porque quando crescemos vamos desrespeitar uma um pouco maior, outra maior ainda e vamos achar tudo muito natural.

Por um tempo a regra foi cumprida. Porém, bastou me faltar o tempo para conferência e inspeção maternal diária, para os cadernos novamente ficarem esquecidos.

Todos os dias, pelo ao menos, eu perguntava:
- Meu filho, você está copiando a matéria?

- Claro, né! Tá tudo certo.

A quantidade e o tempo de trabalho sufocavam minhas horas e, por uns bons dias, abandonei a inspeção para dar conta de outras coisas.

Minha inspeção passou a ser em dia e hora incertos.
- Meu filho, vá buscar os seus cadernos porque eu quero dar uma olhada, agora, como andam os seus trabalhos.

Prontamente, ele pegou sua pasta escolar, colocou-a em cima da mesa e voltou a fazer o que estava fazendo.

Abri a pasta e comecei a folhear os cadernos. Páginas inteiramente em branco passavam pelos meus olhos. De trás pra frente, de frente pra trás, tudo, literalmente, tudo em branco. Para não ser injusta, muitos desenhos enfeitavam as páginas no meio do caderno.

A essa altura, a raiva já corria solta em minhas veias e não havia nenhuma mansidão materna no meu chamado.

- FilhOOOOOO!!!!!!!!!!!!!!!!

- O que foi?Mãe!!!!

- Cadê as matérias que você me disse estar copiando?

O cara-de-pau pegou o caderno e começou tranqüilamente a passar as folhas, como quem procura de fato alguma coisa. Como não tinha nada e ele não ia achar mesmo nada, virou para mim e disse:

- UÉ!!!!!!!!!!!!! A P A G A R A M???????????????.

Já incrédula com a tranqüilidade dele, virei e folheei novamente o caderno, agora passando as folhas em velocidade acelerada para não lhe dar uns tabefes e perguntei.

- ONDE VOCÊ ARRUMOU ESSA BORRACHA? ELA NÃO DEIXA NEM MARCA DE ESCRITA NO CADERNO. PRECISAMOS REGISTRÁ-LA NA MARCAS E PATENTES. VAMOS FICAR RICOS COM ELA.

Ao que ele respondeu:
- Olha mãe até que você teve uma boa idéia!!!! 

E sabe o que ele é hoje?

Um artista, em busca de um lugar ao sol.
Rosa Berg
Enviado por Rosa Berg em 01/03/2006
Reeditado em 22/11/2008
Código do texto: T117325

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Sobre a autora
Rosa Berg
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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