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Ao meu avô...

    ERAM DUAS E QUINZE DA TARDE DO SÁBADO, vinte e um de janeiro de dois mil e seis, quando eu e Erdio nos dirigíamos a escola do Horto, a fim de pintar alguns painéis que nos foram destinados. Naquele dia, embora o céu estivesse sombrio, um forte mormaço insistia em prolongar o calor. Muito embora não dispuséssemos de tanta tinta para o trabalho, além das lojas especializadas na cidade estarem todas fechadas naquela tarde – e o que fazem em todas as tardes do dia de sábado – Ainda conseguimos pintar quase todo o painel. Quando nós estávamos quase acabando, Erdio começou a falar de um assunto que está diretamente relacionado com o terrível acontecimento que eu viria saber segundos depois.

    Lí certa vez uma história – começou a contar-me enquanto pintava a imagem de uma árvore no painel – escrita pelo mestre Samael* que ele estipulara um mito desde sua infância, sobre os corvos, que esses pássaros pretos eram seres materializados das infra-dimensões**, porém, certa vez, em uma de suas habituais viagens astrais***, conseguiu alcaçar em um estranho vilarejo, onde poucas pessoas que lá estávam, apontavam para o firmamento, onde alguns corvos voavam em círculos. Samael, por sua vez, perguntou a um dos habitantes por que daquela preocupação com aquelas aves. A resposta foi a seguinte:

    Caro viajante, há um habitante que está muito doente, e agora temos a certeza de que chegou a hora de ele despedir-se de nós. Pois os corvos são os prenunciadores da passagem...

    Saiba agora, caro leitor, que Erdio foi impedido de falar pelos constantes chamadas da irmã Amélia:

JEAN! JEAN! JEAN!

    Havia algo de diferente em sua voz. Erdio, por sua vez, foi atender os chamados da freira, segundos depois, voltou.

    Andrios – chamou-me apontando o dedo para a escada – o seu Amilton..

    Era meu pai, ele estava para viajar naquela tarde, calculei que quisesse apenas me deixar algum recado. Mas do modo que ele veio até mim não agradou-me nem um pouco.

    Andrios – Falou-me brando. Senti que algo não estava bem – Teu avô Maneco faleceu.

    Não posso descrever-lhe o choque que tomei naquela notícia, pois meu quarido avô nunca havia visitado um médico. Após um curto período de espasmo, apressei-me a saber como aconteceu.

    Infarto. - meu pai respondeu olhando-me seriamente – quer vir conosco agora, precisamos avisar as outras pessoas.

    Atordoado, porém ainda forte emocionalmente, retornei ao local da pintura para pegar meus óculos de sombra. Despedi-me de Erdio. Ele, por sua vez, deu-me algumas palavras e disse que terminava por si só aquele painel. Segui meu pai até o seu carro, rumo a nossa casa, a fim de avisar as pessoas. Enquanto rodava, sentia que aquela conversa com Erdio teria sido sem sombra de dúvida uma espécie de prenúncio, confirmado na triste situação em que eu, juntamente com minha família, estávamos agora. Não precisarei dizer como se sucedeu as derradeiras horas daquele dia infeliz, pois as pessoas sabem o que ocorre em um velório. É natural, mas era o primeiro avô que eu perdia nessa vida. Por hora, farei uma pequena descrição da vida desse senhor humilde e espiritualmente solitário, pai de minha mãe. Meu avô.

    José Ribeiro da Silva tinha 75 anos de idade quando faleceu, embora os papéis acusam 72, isso por causa do atraso na certificação de seu nascimento por parte de seus pais. Nunca teve muitas mordomias na vida. Homem trabalhador, que nos momentos difíceis que passava soube aguentar o rigor da escasses do maldito dinheiro. Não bastasse a pequena aposentadoria que ganhava, teve-a certa vez cortada-a por vários anos, período no qual ele, minha vó e meus dois tios passaram por maiores dificuldades. É claro que nós ajudavamos como podíamos, mas meu avô, como disse, era um homem muito recluso, e todas as vezes insistia em abstinar-se de comentar sua dificuldade até mesmo para suas filhas, que já estavam casadas. Portanto, não tardou em conseguir emprego numa lenharia, onde realizava os mais diversos tipos de marcenaria. Sempre foi um exumo trabalhador em madeiras, além de um derradeiro nivelador de campos, utilizando ainda a aparelhagem antiga. Como se não bastasse a infelicidade da interrupção da aposentadoria, certo dia, atorou-se os dedos da mão esquerda na serra, perdendo totalmente os movimentos do indicador até o mínimo. Tal estrago teve maior intensidade, pois ele era canhoto, assim ficando com a mão esquerda praticamente aleijada. Essa foi a única, em minha lembrança, que teve que ser levado ao hospital o mais breve possível.

    Os dias se seguiram, com pouco dinheiro, até a hora em que, felizmente, voltou a receber sua parca aposentadoria. Felicidade sim, mas não por um longo tempo, pois sua morte repentina não demorou mais que alguns meses a chegar. Infelizmente, naquela triste tarde de sábado, o pobre e sofrido coração cansou-se das dificuldades e pôs fim a seus trabalhos, acarretando no eterno descanso de meu avô.

    Vô, que as Entidades da Luz o ilumine até as dimensões benevolentes e felizes. Que desfrute do teu descanso merecido. Que olhe para nós e nos ajude na nossa caminhada por esse mundo injusto e decadente, pois agora que tens a liberdade, podes estar em qualquer lugar, tanto aqui, do nosso lado, como nas estrelas desconhecidas de outra galáxia. Podes voar em todas as dimensões, e trazer a alegria a teus familiares que aqui sentem a tua partida. Gostariamos de estar com o senhor, mas sei que sabes que ainda devemos caminhar até que o grande Pai da Luz permita que voamos contigo. Voe vô. Voe. Pois agora, és livre como um pássaro.
FIM
NOTAS:

* Samael – Mestre da doutrina gnóstica, mais conhecida como GNOSE, que tem como principal objetivo a busca pela evolução através de viagens astrais.N.A.

** Infra-Dimensões – É o equivalente ao Inferno para os cristãos. Lugares onde os principais habitantes são demônios, muito embora os conceitos sejam, em vários aspectos, diferentes na Gnose.N.A.

***Viagens Astrais – São desdobramentos sofridos pelo espirito enquanto o corpo material dorme. Nesses casos, a alma viaja em diversas dimensões, podendo alcançar distâncias incriveis. Porém, exige sabedoria por parte do praticante.N.A.
Andrios S Moreira
Enviado por Andrios S Moreira em 01/03/2006
Código do texto: T117436
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Sobre o autor
Andrios S Moreira
Dom Pedrito - Rio Grande do Sul - Brasil, 33 anos
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Andrios S Moreira