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Chão, chão, chão, chão chão....

Ontem, como já de costume nos fins de semana, fui ao meu oasis de bom gosto em meio ao deserto cultural onde vivo. Claro que eu haveria de explicar com mais detalhes o que é deserto cultural, pois nenhuma cidade do mundo é tão pobre ao ponto de ser um deserto sem cultura.

Então antes de me adrentrar em meu texto de hoje, vou tentar brevemente explicar o porquê considero o lugar onde vivo um deserto cultural.

Quem me conhece já sabe da minha predileção por MPB e Bossa quando se fala em música. Não que eu apenas ouça esses estilos musicais, mas como disse, são os meus preferidos. Então considerando esse aspecto, e o fato de que eu moro em Zurique, norte da Suíça, podemos concluir que um local onde toque esse tipo de música seja mesmo de fato um oasis.

Pois bem. A noite passada foi especial, por vários motivos. Eu estava acompanhado de um casal de amigos que eu gosto muito, mas de verdade, não esse gostar que há por aí, superficial e interessado, mas isso é um outro tema. São duas pessoas que me conhecem desde os tempos da universidade, eu adoro dizer isso, me faz parecer mais maduro. Temos uma ligação especial, pois somos da mesma semana e do mesmo ano, costumamos dizer que fazemos aniversário juntos. Esse casal de amigos mora longe de mim, no sul da Suíça e por isso nos vemos uma vez, talvez duas vezes no ano. Temos muitas coisas em comum e gostamos de nos encontrar para matar a saudade e por as novidades em dia.

Acontece que eu os convenci a irem comigo no bar que eu frequënto. Tudo bem que eu fui baixo, os seduzi com um PF. Sim, um PF mesmo. Um prato feito daqueles com arroz, feijão, batata frita e carne. Golpe baixo, eu sei. Mas além dessa iguaria rara e tão bem vinda aqui no norte do mundo, eu os convenci a sairem comigo por causa da boa música. Nesse local existem duas pessoas com um excelente gosto musical e muito talento.

Chegando lá, logo notei que havia algo estranho no ar. Gente demais, como não é de costume, umas meninas com menos de 22 anos, roupinhas da moda, nada paraceidas com as pessoas que costumam ir lá. Entre elas uma brasileira. Passeando pelo bar, com uma necessidade incontrolável de ser vista e ser o centro das atenções.

Como se faz em ocasiões como essa, ignoramos a figurinha e continuamos nosso papo tranquilamente sob o som de Jão Gilberto, Oswaldo Montenegro, Gilberto Gil entre outros. Tudo isso na voz de Carlinhos, o meu conterrâneo que canta nesse bar.

Contudo, esse momento de prazer não durou muito, pois a brasileira que lutava para ser o fulcro do universo, tomou o microfone e com sua voz estridente e irritante iniciou seu show de falta de bom senso e simancol. Falava o dialeto alemão com seu sotaque de brasileira, dizia um monte de bobeiras e insitigava o povo a cantar parabéns para sua amiga. Não satisfeita por interromper a noite dos “habitués” do bar, ela chamou um dos seus acompanhantes, a quem chama “DJ” e nos presenteou com um dos espetáculos mais ridículos que eu já presenciei.

Ela acompanhada da sua amiga aniversariante, dançaram funk. Sim, funk em um bar de Bossa e MPB. Falta de bom senso, de simancol e de auto estima, pois é obvio que apreciadores de Bossa e MPB tem nojo do Funk. Visto que o Funk é o oposto da Bossa. O Funk submúsica, é obsceno, vulgar, pornográfico e sobre tudo é moda, pois o povo gosta do que é moda, e não importa se é bom ou ruim. Se enaltece a mulher ou se a vulgariza não vem ao caso. O importante é ser cool, ou acreditar que se é cool.

Para deleite dos seus amiguinhos, elas dançaram aquela música horrenda, digital, sem instrumentos, sem melodia, e sem texto. Ah sim, lembrei. Tinha uma voz daquelas típicas do funk, que perguntava. “Quer ficar sarada?” E elas se meteram a fazer flexões de braço balançando a bunda como se estivessem transando, aos berros de “chão” “chão”, repetidamente. Em um momento de indignação e pena, pensei comigo mesmo. “Tadinha, não tem espelho em casa”. Se tivesse, certamente não se daria a esse ridículo.

Mas isso não é novidade não é mesmo? Afinal o Funk voltou a fazer sucesso, graças a novela global que acabou de terminar. Dessa vez a mensagem é. Meninas patricinhas, das classes B e A também dançam funk. E quem não gosta é logo taxado de racista, preconceituoso e por aí vai. Como se Funk fosse raça ou etnia. E o gosto musical que se dane. Agora somos todos obrigados a gostar de músicas que dizem que “daku é bão” e “vou ficar atoladinha” sem reclamar, pois isso seria preconceito.

Estamos diante de mais uma revolução nas classes sociais mais abstadas. Lembram quando os meninos ricos começaram a lutar Jiu Jitso para se defenderem dos “pivetes” de rua? Pois é. Essa é mais uma falsa tentativa de mostrar que não há divisão social no Brasil e que a “música de preto e de favelado” também é aceita nas altas rodas. Claro, eles lá e nós aqui. Quanta hipocrisia e mau gosto diga-se de passagem.

Fico imaginando. Será que Vinicius escreveria Garota de Ipanema para uma “cachorra”? Uma mulher que sobe em um palco para se mostrar pelo seu lado mais vulgar? Pobre garota de Ipanema, foi assassinada pelo processo de desaculturização da sociedade brasileira. Seja na Favela ou no Asfalto, o que não presta é moda e ponto final.

Ullisses Salles 22 de Novembro de 2005
Ullisses Salles
Enviado por Ullisses Salles em 02/03/2006
Código do texto: T117607
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Sobre o autor
Ullisses Salles
Suíça, 40 anos
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