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P I L A T O S

          Há mais de dois mil anos, um gesto simples de lavar as mãos (entenda-se: não tenho nada com isso), levou um homem (ou um Deus) à morte, crucificado, depois de humilhado e vergastado.
          Quantas vezes cada um de nós já "lavou as mãos?" (significa dizer:não ficamos nem aí). Ora para as injustiças, ora para os desmandos. E é exatamente esse o enfoque - a (in) disciplina - que a seguir transcrevo, não ipsis verba, pois seria demasiado longo, além de não estar gravado e eu não haver presenciado, mas asseguro que é de oitiva fidedigna, conhecedor que sou da personagem principal; não declinarei nomes de pessoas físicas ou jurídicas por uma questão de ética.
          O fato ocoreu numa escola particular localizada num município limítrofe a Porto Alegre. Fim de ano escolar, a diretora reúne o quadro docente para avaliações e projeções. Esgotada a pauta, a palavra é facultada aos presentes. Toma-a uma professora, que assim se exprime: "Senhora diretora e colegas, o que  falarei não deve ser interpretado como crítica ou julgamento. Advém, apenas, de observações feitas por mim durante o ano letivo ora findo, e deu-se na maioria das salas de aulas desta escola. Tenho a certeza de que não foi orientação da diretoria, pois, caso contrário, estaríamos no fundo do poço da indisciplina. O que afirmo é que aqui ou em outra escola, enquanto eu for professora, não permetirei, na sala de aula, alunos usando bonés, mascando chicle e/ou ouvindo rádio com fone no ouvido. Além disso, o tratamento a mim dispensado pelos discentes será sempre o de professora ou dona... (segue o nome). Sôra, tia ou prôfi são formas repudiáveis e eu não as aceitarei".
          Vivemos um tempo em que as situações abnormes viraram rotina. Aplaudimos, muitas vezes, valores irreais, ou melhor, fatos e atos sem nenhum valor. E essa inversão reflete nos aspectos disciplinares. Reflitamos: como pode um aluno mascar chicle e ouvir rádio enquanto um professor explica a matéria?
          Aquela professora não brincou de Pôncio Pilatos. Estabeleceu os critérios de disciplina e deles não se afastou. Muitas reclamações sobre o seu método chegaram à direção, o que acarretou-lhe alguns dissabores. Mas não "lavou as mãos". Algumas colegas não agüentaram a ação dos indisciplinados e aplicaram a receita Pilatos. É mais fácil "não ficar nem aí". Disciplina já era... (ou não?). Pense a respeito, ou dê uma de Pilatos: lava as mãos e manda a ordem para a cruz.
Cláudio Pinto de Sá
Enviado por Cláudio Pinto de Sá em 03/03/2006
Código do texto: T118036
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Sobre o autor
Cláudio Pinto de Sá
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 69 anos
163 textos (23331 leituras)
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Cláudio Pinto de Sá