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A vida nos fornece a sua própria história. Cabe-nos apenas colocá-la no papel.

CARTÃO VERMELHO

Zé das “Couve” gostava de beber.

Era um bom homem. Engraçado, gostava de contar casos e piadas.Com maestria, nunca perdia a oportunidade de fazer, de suas próprias gafes e das gafes dos amigos, uma boa história.

A mulher do Zé das “Couve” vivia desesperada e brigando com ele por causa da bebida.

- Zé, homem de Deus, pára de beber. Bebida mata.

Zé das “Couve” nem ligava. Gostava tanto da “marvada pinga”, que ao assistir a uma propaganda de aspirina na TV, onde a sugestão era – “Se tiver dor de cabeça tome uma pura”, ele não discutiu , pegou o seu copinho e mandou a sua “PURA” goela abaixo.

- Zé!!!!. A propaganda está dizendo para tomar uma aspirina, não uma pinga.

- Pra mim, pura é pura. Não quero nem saber.

A mulher do Zé passava por maus bocados. Numa noite, o Zé bebeu tanto que o seu bafo embebedou sua mulher. Ficou tão tonta, que chegou a cair da cama e quebrar o seu braço direito.

-Zé!!!!.Não agüento mais o cheiro de pinga. Eu não bebo e pago o pato. Isso não é justo.

Apesar de tudo, a mulher do Zé amava-o muito e assim foi relevando cada bebedeira.

Um dia, Zé das “Couve” começou a passar mal. Não deu outra, o fígado do Zé estava bichado. Cirrose era o veredicto médico.

Zé das “Couve” ficou assustado, num primeiro momento. Passado um tempo, nem se lembrava mais que tinha fígado e lá ia de novo se enveredando para os botecos tomar a sua dose do dia.

A mulher do Zé não se conformava.

-Zé!!! Você “num” pode beber. Você tá doente. Eu não quero ficar viúva.

-Deixa de ser besta mulher. Tá pensando que eu morro fácil, eh? Ce num tá me gorando, tá?
Num pensa que vai ficar livre para o Ricardão.

A mulher do Zé das “Couve” sabia que nada podia fazer, além de ficar de olho na saúde dele e sair correndo para o médico quando o sinal de alerta disparasse. E assim o fez. Ficava de prontidão como ficam de prontidão as salvas-vidas na praia.

Zé das “Couve” foi levando a vida conforme o vento soprava, por um bom tempo.

Inchava a olhos vistos, mas não se importava com isso.

Aos poucos, seu coração também ficou bêbado e com dificuldade bombeava o sangue no peito do Zé.

Zé começou a ter também dificuldade para se locomover. Sentia cansaço, mal podia pronunciar as palavras depois de qualquer pequena caminhada. Mesmo assim, ia tocando a vida movido a pinga.

A mulher do Zé nunca desistia e com muito amor ia cuidando dele, do jeito que podia.

Zé gostava de pescar e tinha muitos amigos pescadores de fins de semana ou, semana inteira, quando isso era possível.

Zé andava meio triste, no fundo estava com medo, mas não ousava a confessá-lo a ninguém.

Os amigos do Zé resolveram, então, convidá-lo para uma pescaria no final de semana.

A mulher do Zé ficou apavorada. Afinal, Zé tinha uma dúzia de remédios para tomar em hora certa e na certa, na pescaria, iria se descuidar.

-Zé! Zé!. Você tá brincando com Deus. Abusa, abusa, e as conseqüências estão aí. Deus me livre aconteça alguma coisa. Por favor! Zé, não vá.

Zé não deu nem confiança. Arrumou todas as tralhas e lá foi ele junto com seus amigos para a pescaria. Afinal, lá ficaria longe dos olhos de sua mulher.

O carro estava cheio. Era um fusca, um mil novecentos e sessenta e seis, bem conservado e todo equipado para os pescadores de plantão. Nos bancos da frente, o motorista e um amigo do Zé faziam planos de como aproveitarem a pescaria. No banco de trás, o Zé, com uma geladeira térmica cheia de cerveja até o bico convidando-o a beber. Não teve dúvida, começou abrir as latinhas virando-as de uma vez pela garganta. Deliciava-se a cada golada.

Zé foi ficando quieto. Os amigos nem perceberam quando ele começou a sentir um mal estar. Zé fechou os olhos para a tontura passar. Os dois amigos continuaram a conversar, alheios à presença do Zé.

O carro parou no destino.

-Zé, Zé, acorda. Chegamos.

O Zé não respondeu.

-Zé, deixa de ser preguiçoso cara. Chegamos. O rio nos espera.

O Zé continuou calado.

Um dos amigos, então resolveu sacudir o Zé para acordá-lo.

-Zé, chegamos. Vamos lá!

Um calafrio percorreu o corpo do amigo. Zé estava gelado. Ele, entretanto, não queria acreditar e insistiu.

-Zé, levanta homem. Não faz isso comigo não.

O outro amigo olhava para a cena ansioso, também não queria e não podia acreditar no que estava acontecendo.

O amigo que tentava acordar o Zé, desesperado, virou-se para o outro e disse:

- Cara, parece que Deus deu cartão vermelho pro Zé. O que vamos fazer?

Ao que o outro respondeu:

- O certo é levarmos o Zé para uma cidade mais próxima. Mas se fizermos isso, estaremos enrascados, afinal, vão querer saber como o Zé morreu e nós dois nem vimos como foi.

- Hei! Tô apavorado malandro. Nunca vi ninguém morrer. O melhor é colocarmos o Zé dentro do carro e levá-lo de volta até a casa dele. Lá explicaremos o que aconteceu e vamos ver no que dá. E assim o fizeram.

O amigo sentou-se no banco de trás, deitou a cabeça do Zé no seu colo e o motorista acelerou.

Todas às vezes, que passavam por uma barreira, sentava o Zé e colocava a sua cabeça no ombro, como se o Zé estivesse dormindo.

Ufaa!!!

Chegaram à casa do Zé.

Cuidadosamente, chamaram a mulher dele para darem a fatídica notícia.

Ela não se assustou como esperavam. No fundo, parece que ela já havia adivinhado o acontecido.

As lágrimas desceram sobre o seu rosto e mesmo assim falou:

-Zé, eu bem que lhe avisei. Cansei de lhe avisar. Você acreditou tanto que não ia morrer, que até eu já cheguei acreditar nisso também.

Os amigos do Zé, até hoje, não conseguem falar sobre o assunto.

Um deles, vive atormentado pelo fantasma do Zé. E quando o Zé aparece para ele, ele manda o Zé parar com a brincadeira.

- Sai Zé!. Você parece que está bebendo até aí do outro lado.

Zé só ri.


























Rosa Berg
Enviado por Rosa Berg em 03/03/2006
Reeditado em 22/11/2008
Código do texto: T118178

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Sobre a autora
Rosa Berg
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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